terça-feira, 11 de agosto de 2009

336 Buddha e príncipe Chatra

336
“Grama ainda...etc.” - Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana sobre um certo tratante. O incidente que faz surgir a história já foi relato. Cf. Jataka 371.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, o Bodhisatva tornou-se seu ministro e conselheiro nas coisas temporais e espirituais. O rei de Benares saiu contra o rei de Kosala com um grande exército, e chegando em Savatthi, após a batalha entrou na cidade e tornou o rei prisioneiro. O rei de Kosala então tinha um filho, príncipe Chatra, chamava-se. Este, escapou disfarçado, e foi para Takkasilā, onde assimilou os três Vedas e as dezoito artes liberais. Deixou depois Takkasilā, e enquanto ainda estudava os usos práticos das ciências chegou a uma certa vila na borda da fronteira. Em uma floresta perto quinhentos ascetas habitavam em cabanas de folhas. O príncipe aproximou-se deles, e com a idéia de aprender algo com eles, tornou-se asceta, e assim adqüiriu todo o conhecimento que eles tinham para partilhar. Passando o tempo ele torna-se líder do bando de discípulos.
Um dia dirigiu-se a sua companhia de santas pessoas e perguntou-lhes, dizendo, “Senhores, por quê vocês não vão na região central?” “Senhor,” eles disseram, “na região central é dito que vivem sábias pessoas. Eles fazem perguntas, chamam para devolver gentilezas e repetir fórmulas de bençãos, e reprovam o incompetente. E assim tememos lá ir.”
“Não temam,” ele disse, “arranjarei tudo para vocês.”
“Então iremos,” eles disseram. E todos eles tomaram seus vários requisitos e em tempo devido chegaram a Benares. Então o rei de Benares, tendo tomado todo o reino de Kosala em possessão, estabeleceu governadores a ele leais, e ele mesmo, tendo coletado todo o tesouro acessível, retornou com o espólio para Benares. E enchendo potes de ferro com o tesouro, enterrou tudo no jardim real, e então continuou a viver lá. E os ascetas santos passavam a noite no jardim real, e de manhã entraram na cidade para colher ofertas, e chegaram na porta do palácio. O rei ficou tão encantado com o porte deles que os chamou e mandou que sentassem no estrado e deu-lhes arroz e bolos, e enquanto era hora de comer perguntou-lhes perguntas. Chatra ganhou o coração do rei respondendo todas as perguntas, e no concluir da refeição agradeceu-lhe de todos os modos. O rei ainda mais agraciado, recebeu dos ascetas a promessa de que ficariam no jardim.
Chatra sabia um encanto para trazer à luz tesouros enterrados, e enquanto residiam lá ele pensou, “ Onde este sujeito pode ter colocado o dinheiro que pertencia a meu pai?” Assim repetindo o encanto e olhando ao redor, ele descobriu o quê estava enterrado no jardim. E pensando que com este dinheiro recuperaria o reino também, dirigiu-se aos ascetas e disse, “Senhores, eu sou o filho do rei de Kosala. Quando nosso reino foi tomado pelo rei de Benares, escapei disfarçado, e assim salvei minha vida. Mas agora peguei a propriedade que pertence a minha família. Com isto irei recuperar meu reino. O que vocês farão?”
Eles responderam, “Nós iremos com você.”
“Concordo,” ele disse, e fizeram sacos de couro e à noite cavaram um buraco no chão e tiraram os potes de tesouro, e colocando o dinheiro nos sacos, encheram de grama os potes de ferro. Então ordenou que os quinhentos ascetas e outros pegassem o dinheiro e fugissem para Savatthi. Lá, prendeu os governantes leais a Benares, e recuperando o reino restaurou as muralhas, torres de vigias e outros trabalhos, fazendo a cidade inexpugnável a ataques de inimigos hostis, passou a morar lá. Foi dito ao rei de Benares, “Os ascetas carregaram o tesouro do jardim e fugiram.” Ele foi ao jardim e abrindo os potes só encontrou grama neles. E por razão do tesouro perdido grande tristeza abateu-se sobre ele. Foi para a cidade murmurando, “Grama, grama,” e ninguém podia aliviar sua dor. Pensou o Bodhisatva, “O rei está com um problemão. Vaga de um lado para outro, murmurando em vão. A não ser eu, ninguém tem poder de retirar-lhe a dor. O libertarei do problemão.” Assim, um dia enquanto sentado calmamente com ele, quando o rei começou a murmurar, ele repetiu a primeira estrofe:

“Grama” ainda é seu grito constante;
Quem levou sua grama embora?
Qual sua necessidade dela, ou por que
Apenas esta palavra falas?

O rei ouvindo isto, respondeu com a segunda estrofe:

Chatra, santo asceta famoso
Aconteceu de vir por aqui
Ele apenas culpo,
Substituindo ouro por grama.

O Bodhisatva, escutando pronunciou a terceira:

Pessoas astutas fazem sua lei,
“dar pouco e tomar muito [little give and mickle take].”
O que ele tomou era tudo dele próprio,
O que deixou, grama apenas.

Escutando isto o rei pronunciou a quarta estrofe:

Virtude não segue tais leis,
Estas são morais adequadas a tolos.
Com certeza são morais duvidosas ;
Aprendizagem também é vaidade.

Enquanto ele assim culpava Chatra, o rei com estas palavras do Bodhisatva livrou-se de seu sofrer e reinou com retidão.
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O Mestre aqui terminou sua lição e identifico o Jataka : “Naquele tempo o Irmão tratante era o grande Chatra e eu mesmo era o sábio ministro.”


‘many a little makes a mickle’ adágio anglo-saxão, aproveitando a onda.

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