terça-feira, 19 de maio de 2026

[ N. do Tr.: Daksha = Alcibíades ]

 

                   Daksha = Alcibíades

     

            Continuando as Vidas Paralelas, temos Daksha, filho de Brahma, nascido de sua mente junto com os sete sábios, Daksha que fez o primeiro sacrifício, como o personagem de Alcibíades (450-404 a.C.): a imagem do sacrifício que tem cortada sua cabeça, que é destruído, dizimado, queimado, aparece, como já dissemos antes em Shiva = Nícias, no fracasso total da expedição de Atenas à Sícilia promovida por Alcibíades e seu exílio e condenação à morte : o sacerdote, sacrificante, con-funde-se com o sacrifício mesmo.

             Daksha, filho de Brahma, ofereceu o primeiro sacrifício. Só que não convida nem separa uma parte para Sati sua filha e consequentemente para Shiva, esposo dela, de quem não gosta porque acredita que não segue a religião correta e certa. Sati irada vai a sessão sacrifical e imola-se, incendeia-se e em seguida Shiva destrói o sacrifício todo.  A história está descrita no Shiva purana, Rudra Samhita, seção II e resumida em Vayaviyasamhita, seção I; e também no Bhagavata Purana IV, 1-7 ; Vamana Purana, I, 4s ; Brahma Purana I, 32s ; Linga Purana seção I, 99s ; Kurma Purana I, 15.  Cada Purana contando a mesma história de um jeito próprio.

         A história do sacrifício é precedida pela história da criação do mundo em que de Brahma deus criador saem o primeiro homem e mulher e a partir deles surge a humanidade: o problema é que neste processo de criação é necessário Kama / Eros /  Cupido / Amor /  Paixão / Desejo que tem a função de formar os casais fazendo-os se apaixonarem. Mas Kama, o prazer sensível, o desejo, amor, paixão, é inimigo da meditação e dos ascetas, atrapalhando sua prática e com isto é destruído, queimado, morto, vira cinzas sob o olhar do terceiro olho de Shiva, o olhar da eternidade, o presente, o agora, o de repente, o momento, o instante, destruindo, queimando, tornando cinzas, o tempo do passado e do futuro e como já colocamos o poder temporal, da ciência das coisas que passam, da ação, do móvel sendo relativizado,  pela autoridade espiritual, da metafísica, do conhecimento, do motor. Vejamos o texto da morte de Kama, do Desejo, do Cupido:

         “Shiva disse: - 4. Como é que obstáculos surgiram enquanto eu estava realizando a grande penitência ? Quem pode ser a pessoa má que fez minha mente perturbar-se altamente ? 5. Com amor descrevi com mau gosto a mulher de outro homem. Violei regras de virtude e transgredi os limites dos Vedas.”  Brahma disse: - 6. Após pensar assim, o grande Yogue, a finalidade do bem, verificou tudo ao redor, suas suspeitas atiçadas. 7. Ele viu Kama estacionado no Seu lado esquerdo com seu arco totalmente estendido e pronto para descarregar a flecha. Kama era arrogante e por isto muito insensível. 8. Ó Narada, vendo Kama naquela atitude, raiva instantaneamente despertou no senhor Shiva, a alma suprema. 9. Ó sábio, pousado alto nos ares, segurando o arco e flecha, Kama disparou sua flecha, geralmente infalível, em Shiva. 10. A arma infalível tornou-se infrutífera no grande senhor. A arma furiosa acalmou-se à vista da grande alma, Shiva. 11. Kama ficou com medo quando sua arma falhou. Estando lá e vendo o deus Shiva, o conquistador da morte em frente, ele tremeu. 12. Ó grande sábio, quando sua intenção tornou-se infrutífera, Kama que estava muito amedrontado lembrou-se de Indra e todos os outros deuses. 13. Ó grande sábio, lembrados por Kama, Indra e os outros deuses foram lá, inclinaram-se e louvaram Shiva. 14. Quando os deuses louvavam assim, uma grande chama de fogo saltou do terceiro olho de Shiva em fúria. 15. Este fogo originou-se instantaneamente do olho no meio da Sua testa fulgurante com chamas crescendo muito e parecendo o fogo da dissolução final em refulgência. 16. Após crescer rapidamente no céu, caiu no chão e rolou pela terra toda ao redor. 17. Antes mesmo que os deuses tivessem tempo de dizer “Que ele seja perdoado, que ele seja desculpado” ele reduziu Kama a cinzas. 18. Quando o heroico Kama foi assim morto, os deuses ficaram desconsolados. Agitados lamentavam muito e diziam “Ó, o que aconteceu ?” gritavam alto.19. Com face e membros pálidos, extremamente agitada a filha do rei das montanhas ( Sati, esposa de Shiva e filha de Daksha ) voltou para seu palácio levando as donzelas junto com ela.”  ( Shiva Purana, Rudresvara Samhita: Parvatikhanda seção III, 19, 4-19,  vol. 2 ).

       O próprio deus Shiva, alguns capítulos a frente, fala da morte e ressurreição de Kama:

      “18-19. Se a deusa Parvati, a mulher mais bonita for aceita por mim, ela será capaz de ressuscitar Kama por causa do casamento. Então todos os deuses, sábios e ascetas tornar-se-ão luxurientos e incompetentes no grande caminho da Yoga. 20. Kama foi queimado por mim para alcançarmos um objetivo universal. Foi sugestão de Brahma, Ó Vishnu. Nenhuma ansiedade precisa ser sentida em relação a isto. 21. Ó senhor dos deuses, Ó ser inteligente, é seu dever não ser obstinado após considerar a situação do que será feito e do que não. 22. Ó Vishnu, um grande favor aos deuses foi feito por mim quando Kama foi incendiado.  Possam vocês todos estarem livres da luxúria certamente junto comigo. 23. Assim como eu, assim vocês também, Ó deuses, poderão sem esforço realizar tarefas difíceis sendo dotados com a energia de grande penitência. 24. Kama não estando com vocês, vocês podem ser dotados com a suprema benção e serem livres de aberrações pelos meios da contemplação espiritual, Ó Deuses. 25. Ó Brahma, Ó Vishnu, Ó Indra, Ó sábios e Ó deuses, o que foi feito por Kama anteriormente e esquecido por vocês deve ser relembrado e meditado. 26. Ó deuses, a meditação de todos foi estragada pelo estúpido Kama, o grande arqueiro anteriormente. 27. Kama leva para o inferno; luxúria para a raiva, raiva para a ilusão e ilusão destrói penitência. 28. Raiva e luxúria devem ser evitadas por vocês, o melhor dos deuses. Minhas palavras devem ser atendidas por vocês todos e não de outro modo.”    ( Shiva Purana, Rudresvara Samhita, seção III,  24, 18-28 ).

         Em três outras passagens vemos a história de Kama / Eros / Cupido no vol 1 do Shiva Purana. A primeira na história de Narada, filho de Brahma, e outra quando da criação. Vejamos os textos:

        “Indra envia Kamadeva para perturbar a penitência de Narada. Vendo o eremitério muito conveniente para a penitência, o sábio primeiro realizou penitência por um longo tempo, sentado correta e firmemente, mantendo silêncio, controlando a respiração e retendo a pureza do intelecto. Pensando “Este sábio está cobiçando o meu reino” Indra queria estragar isto. Indra o líder dos Devas lembra de Kamadeva (Cupido) que chega lá imediatamente, acompanhado de sua rainha (Rati, cana de açúcar) e Brotação, primavera (seu amigo). Ó grandes sábios, a mente do sábio Narada não oscilou, balançou. Apenas a arrogância destes sujeitos sofreu um recuo e isto por favor de Mahesa. Foi neste lugar mesmo que Shiva, o infatigável inimigo de Kama, realizou anteriormente uma grande penitência. Foi aqui que Kama foi reduzido a cinzas – Kama que costumava estragar as penitências dos sábios. Shiva disse: “Ó Deuses, após algum tempo Kama retornará à vida novamente. Mas nenhum dos seus truques terá sucesso aqui. Qualquer espaço ao redor deste lugar que seja visível às pessoas aqui, estará fora da influência de Kama para sempre, Ó Devas”. Foi devido a esta afirmação de Shiva que as maldades de Kama não prevaleceram sobre Narada.”   

( Shiva purana, vol 1, Rudra samhita, seção I caps. 1 e 2 ). 

“No estado de Tamil, Índia, acredita-se que este ato da destruição de Kama por Shiva teve lugar na cidade chamada Tirukkurukkai no distrito de Tanjore.” pg. 148, Gopinata Rao, cf. bibliografia.  

            Na segunda passagem temos a criação do mundo e o surgimento da mulher Sandhya, crepúsculo, que incita Brahma, os deuses e os sábios, ao amor, paixão, com o surgimento de Kama:

                   “19. O encantador então encantou Brahma e os outros, os filhos da mente de Brahma com várias flechas afiadas de flores. 20. Ó sábio, os sábios e eu estávamos assim enamorados e sentimos muito grande mudança em nossos sentimentos na mente. 21. Começamos a encarar Sandhya sem parar, paixão depravando nossas mentes. Nossa luxúria aumentando. Verdadeiramente uma mulher é alguém que faz crescer os sentimentos apaixonados. 22. Tornando todos nós inteiramente enfeitiçados assim, ele não parou até que todos nós perdêssemos controle sobre nossos órgãos dos sentidos”.  Vendo todos fora de controle Shiva é chamado por Dharma (a lei, a ordem) desse jeito :

         “Dharma disse:- 32. Ó Mahadeva, protetor das virtudes, obediência a Ti. Ó Shiva, Tu sozinho é o autor da criação, da sustentação e da dissolução. 33. Por virtude dos três Gunas, Rajas, Sattva e Tamas, Tu assumiste a forma de Brahma no tempo da criação, a de Vishnu no tempo da sustentação e aquela de Rudra no tempo da dissolução. Ainda assim, Ó Senhor, Tu és destituído de atributos. 34. Tu és Shiva livre das influências dos três Gunas, o quarto Ser. Tu estás além de Prakrti. Tu és expert em vários esportes divinos, ainda assim sem atributos e livre de deformidades e decaimentos. 35. Grande Senhor ! salve-me deste oceano intransponível de pecado. Meu pai e meus irmãos estão agora inclinados cheios de pecado em minha direção”. 36. Assim louvado por Dharma, o grande senhor, nascido de si mesmo Shiva chegou lá imediatamente para proteger Dharma. 37. Estacionado nos ares, Shiva me viu, Brahman, Daksha e outros em tal estado mental e então riu debochadamente. 38. Ó melhor dos sábios, no meio da sua risada contínua que fez todos corarem de vergonha, a deidade com emblema do touro falou estas palavras de consolo. Shiva disse:-

           “39. Ai ! Ó Brahma, como é isto de você ficar dominado por sentimentos luxuriosos vendo tua própria filha? Isto é altamente impróprio para quem anda na linha dos Vedas. 40. Irmã, esposa de irmão e filha são como a mãe de alguém. Um homem sensível nunca olhará para elas com uma visão repreensível. 41. A conclusão do caminho dos Vedas está presente na tua boca. Ó Brahma, como é que você esqueceu disto sob a influência de uma paixão momentânea?  42. Ó, Brahma deidade de quatro faces, tua mente deve sempre se manter alerta com fortaleza. Como você desfaz disto em troca de uma união de amor? 43. Como pode teus filhos nascidos da mente, Daksa, Marici e outros que praticam yoga em isolamento e veem sempre a luz interior se apaixonarem por uma mulher? 44. Este Kama é tolo, deficiente de sentido e ignorante de ocasião própria. Como é que ele começou a atormentá-los com este poder excessivo? 45. Úu para o entendimento daquela pessoa cuja esposa leva a mente dele desordenadamente da constância e da coragem para a imergir em folias volúveis.”    Brahma disse: - 46. Escutando estas palavras de Shiva, eu, o senhor do mundo, suei muito em um instante, devido à vergonha. 47. Apesar do desejo de pegar Sandhya de formas desejosas ainda demorar-se, Ó sábio, curvei os sentidos desordenados, temendo-o ( Shiva ).” ( Shiva Purana, Rudra Samhita, seção II, cap. 3, 19-47 ).

      Numa terceira passagem vemos Brahma apaixonado, atingido pelas flechas de Kama justamente no casamento de Shiva e Sati ; e Shiva pega Seu tridente para matar Brahma e é apaziguado por Vishnu que fala assim :

             “68. Ó Sadashiva, Brahma não é diferente de você, nem você é diferente dele. Eu não sou diferente de você, Ó grande senhor, nem você é diferente de mim. 69.Ó omnisciente grande senhor, Sadashiva, você sabe de tudo. Mas você deseja que tudo seja escutado através da minha explanação oral. 70. Ó Shiva, exponho por ordem tua. Possam todos os deuses, os sábios e outros escutar e reterem suas mentes os princípios do culto Shaiva. 71. Ó senhor, de ti, o manifesto e o não manifesto, o divisível e o indivisível, possuidor de forma ou de brilho informal, nós três somos as partes.72. Quem é você? Quem sou eu? Quem é Brahma? Tuas próprias três partes – você sendo a alma suprema. São diferentes apenas como as causas da criação, da sustentação e da dissolução. 73. Você deve pensar de si mesmo através do teu próprio si mesmo. Ó ser divino, assumindo um corpo físico para um jogo próprio, você é o único Brahman, enquanto nós três em formas de atributos somos tuas partes mesmas. 74. Ó Shiva, justo como o mesmo corpo tem as partes da cabeça, pescoço, etc assim também nós somos as três partes de Shiva. 75. Ó Shiva tu és o brilho supremo, o firmamento tendo teu próprio domicílio. Tu és o Ser primordial, o imóvel, o não manifesto, de formas sem fim, o eterno e privado de atributos – comprimento, etc. Desta forma sozinha tudo foi emanado. Brahma disse : - 76. Ó excelente sábio, escutando estas palavras o grande senhor Shiva ficou deliciado. Ele não me matou.”

( Shiva Purana, Rudra Samhita, seção II,  cap. 19 ).

                 “O Tripundraka (as três linhas paralelas feitas de cinza na testa) é a essência da Trindade: Brahma, Vishnu e Rudra. Do mesmo modo Mahesvara retem a essência de tudo na forma do Tilaka (a pequena marca circular) na testa.” (Shiva purana, vol. I, Vidyesvarasamhita,18, 73).

         “Ó senhor, assumindo as formas de Brahma, Vishnu e Rudra através de Rajas, Sattva e Tamas tu és o criador, protetor e aniquilador dos mundos.”  ( Shiva purana, vol. 4, Vayaviyasamhita 23, 20 ).   

        Como vemos nas falas de Dharma e Vishnu, o Tridente / Pinaka / Trishula, são os três Gunas: três tendências da esfera dos elementos da cosmologia hindu: a tendência horizontal, do elemento ar, rajas, própria dos kshatrias, guerreiros, nobres, assimilada justamente a kama, o desejo, que está na origem da criação e quando da união de Céu e Terra; a tendência para cima, do elemento fogo, sattva, dos sacerdotes, brahmanes, própria do intelecto, do conhecimento e da razão; a tendência para baixo, dos elementos água e terra, tamas, dos comerciantes e trabalhadores, expressa nos bens terrenos, materiais; estando o éter, quinto elemento por dentro, pra fora e acima desta esfera dos elementos como sendo o próprio Shiva / Brahman. A analogia com o corpo humano também está estabelecida e aí vemos a proximidade com a imagem trabalhada largamente na República de Platão, diga-se de passagem, a alegoria da caverna no livro VII é buddhista. Obviamente a cada elemento corresponde um sentido do corpo : visão, audição, etc.

      A ética de Aristóteles e sua psicologia também, em que divide o ser humano em três almas, alma vegetativa, alma sensível e alma racional reproduz a mesma ideia: oriente e ocidente juntos desde sempre. No caso, Shiva seria o motor imóvel da metafísica, justamente para além da física como testemunha a preposição meta-, depois, para além: para além, depois, da esfera dos elementos, a physis, a natureza, onde em Aristóteles também temos o éter. Diga-se de passagem, Einstein no século XX começa sua carreira negando o éter e décadas depois termina sua carreira afirmando ao contrário, confirmando o éter.

      Esta imagem dos três mundos, arquétipo da cosmologia antiga, encontra seu maior exemplo na obra de Georges Dumézil, o grande historiador francês que indicou, apontou a existência destas três funções, das três classes sociais do ‘antigo regime’, em todas as culturas do mundo antigo mostrando que havia uma unidade global ideológica, unidade védica por todo o mundo: a globalização existe desde sempre. O antigo regime é o regime tradicional e as três classes seriam três tendências cosmológicas, três partes da alma, seriam a trindade mesma constituindo o mundo para além de apenas três classes, três ordens. Toda a natureza, microcosmo e macrocosmo se compõe destas três tendências. Georges Dumézil a vê em toda parte e não seria à toa. Mas o que estamos vendo é que para além da Trindade há o não manifesto, o sem atributos, o éter, o fora do mundo, de onde tudo se origina e para onde tudo volta. Falamos do éter em vários capítulos destas ‘vidas paralelas’.

             Este quarto elemento para além dos outros seria definido assim, segundo Mandukeya Upanishad, shruti 7 : “Os sábios pensam que o Quarto ( Chaturtha ) que não é conhecimento nem dos objetos internos nem dos objetos externos ( de um modo distinto e analítico ), nem ao mesmo tempo de uns e de outros ( visto sinteticamente e em princípio) e que não é mesmo um conjunto sintético de Conhecimento integral, não sendo nem conhecido nem não conhecido, é invisível ( adrishta e igualmente não perceptível por qualquer faculdade que seja ), não ativo ( avyavahârya, na Sua identidade imutável ), incompreensível ( agrâhya, já que Ele compreende tudo ), indefinível ( alakshana, já que Ele é sem nenhum limite ), impensável ( achintya, não podendo ser revestido de nenhuma forma ), indescritível ( avyapadêshya, não podendo ser qualificado por nenhum atributo ou determinação particular ), única essência fundamental ( pratyaya-sâra ) do “Si mesmo” ( Atmâ, presente em todos os estados ), sem nenhum traço de desenvolvimento na manifestação ( prapancha-upashama, e por conseguinte absolutamente e totalmente livre das condições especiais  de qualquer modo de existência que seja ), plenitude da Paz e da Beatitude, sem dualidade : Ele é Atmâ.” ( R. Guénon, L’homme et son devenir selon le Vedanta, pg 124 ).   

     Neste sentido kama, a tendência de expansão no mundo, tendência de criação, de Brahma, estaria na origem de tudo e da união do céu e da terra, de Shiva e Shakti no mundo, na natureza, na esfera dos elementos, mas como consequência teria sua destruição, eliminação, para se poder sair do mundo assim como se entra pois “tudo que é composto se decompõe” - se a paixão / cupido / desejo / eros / kama, cria o mundo, também por consequência é destruído quando se larga, se sae, deste mundo. Então temos a morte de Eros, Cupido, Desejo, o chamado ‘sem corpo’ por causa disto.

       Voltando então temos que “o terceiro olho restaura um princípio original através de um sentido de eternidade” ( R. Guénon, Símbolos..., pg 110 ) eliminando, destruindo, o prazer sensível para isto. Onde estaria presente na história mitológica grega esta destruição, morte ? O amor de Brahma, o pai, por Sandhya, a filha e vice versa, condenado e reprimido por Shiva estaria no amor de Cyniras, o pai, por Mirra, a filha, amor condenado e reprimido do mesmo modo e nascendo Adonis deste amor, nascendo da árvore Mirra, Adonis, o amante de Afrodite que posteriormente é assassinado, destruído, morto prematuramente: a morte de Adonis seria o incêndio, a morte de Kama, principalmente pela proximidade de Afrodite, a deusa do Amor.  

      A tese é confirmada pelo trabalho de Marcel Detienne, Les Jardins d’Adonis, cf. bibliografia. Mirra, a árvore produz um perfume precioso, a mirra, e dela nasce Adonis, esposo de Afrodite.  No dia da festa de Adonis os atenienses colocavam no alto da casa pequenos jardins de plantas aromáticas em vasos pequenos, plantas que viviam oito dias apenas, o tempo da festa e logo morriam como logo morria Adonis e comemorava-se assim sua morte. Vejamos as citações:

              “Empregados em fumigações rituais, utilizados na prática sacrifical, as plantas aromáticas não são apenas reservadas para fins cultuais. Sob forma de unguentos, de perfumes e de outros produtos cosméticos, eles tem igualmente uma função erótica.” (p. 117).

            “Para toda uma tradição moralista que encontra no Platão da República seu porta voz mais virulento, os eflúvios dos perfumes espalhado nos banquetes e o brilho dos unguentos estendidos sobre os membros testemunham um gênero de vida voltado para a alegria e os prazeres dos sentidos.” (p. 119).

         “Os prazeres dissolutos são inseparáveis das nuvens de incenso e de perfumes odorantes. Hedoné, Prazer Sensual, assim se chama a Afrodite coberta de perfumes que se apresenta no julgamento de Pâris “toda confiante no poder do desejo” (Euripedes, Iphigenie à Aulis, 1301). Mas a Aphrodite perfumada não patrocina apenas a lascividade (makhlosyne) das cortesãs ... o mesmo potencial representa, no plano religioso, esta parte do desejo sexual e do prazer amoroso (aphrodisia) sem a qual a união do homem e da mulher, no casamento, não pode encontrar sua realização.” (pg. 120)

      “... no vocabulário amoroso dos gregos, Adonis é sinônimo de perfume e de amante. “Meu perfume, meu fofo Adonis”, estas são as palavras que dá a seu amante uma cortesã em um epigrama da Antologia Palatina de onde nos vem sua voz. Uma segunda prova é trazida por uma variante latina do mito de Mirra que, sempre aproximando Adonis da palavra grega hedoné, prazer sensual, testemunha em termos explícitos que a paixão de Aphrodite pelo filho de Mirra é provocada pela seiva da árvore mirra, uma seiva cujo perfume torna ardente e quente. Filho de Mirra ao mesmo tempo que produto da árvore mirra, Adonis é ao mesmo tempo amante e perfume, no sentido próprio como no sentido figurado (cf. Epitaphios Adonides de Bion). Uma vez decifrado o conjunto das representações e dos valores as plantas aromáticas pelos gregos, o mito de Adonis e de Mirra não podem ser lidos de outro modo que como um mito da sedução. Sedução dupla que orienta uma e outra história, aquela da mãe assim como aquela do filho.” (pg 123)    

        O caráter efêmero da paixão corporal, dos desejos sensíveis, aparece na citação do Fedro de Platão em fala de Sócrates:

                       “Sócrates - Diga-me agora isto: um jardineiro inteligente que tivesse sementes que o interessasse e quisesse que frutificassem, iria seriamente semeá-las no verão nos pequenos jardins de Adonis e os desfrutaria (khaírein) vendo que se tornaram belas em oito dias, ou faria isto unicamente para divertir-se e com motivo de festa, caso o fizesse ? Aquelas sementes pelas quais tivesse interesse, não as semearia em terra apropriada, segundo a arte da agricultura e não ficaria feliz em ver que todas as que havia plantado atingiam a maturidade oito meses depois ?  Fedro – Assim é sem dúvida Sócrates; em este caso atuaria seriamente e no outro de um modo distinto, como dizes. Sócrates – E aquele que possui as ciências do justo, do belo e do bom, podemos dizer que é menos inteligente que o jardineiro no que se refere a suas sementes ?  Fedro – De modo algum. Sócrates – Então não os escreverá seriamente na água, usando a tinta e a pluma para semear discursos incapazes de prestar ajuda  a si mesmo mediante a palavra e incapazes também de ensinar adequadamente a verdade. Fedro – Não é provável, pelo menos. Sócrates -  Não é, realmente. Pelo contrário, os jardins das letras os escreverá e plantará provavelmente como uma diversão; e quando escreve, acumula meios de recordar para a idade do esquecimento, quando chegar, e para todo aquele que siga as mesmas trilhas. Desfrutará vendo crescer estas tenras plantas, e ainda que os outros façam uso de todas as distrações regando-se a si mesmo de bebidas nos banquetes e de todas as demais coisas congêneres, ele provavelmente preferirá a estes prazeres as distrações de que falou durante toda a sua vida. Fedro – E como é pleno de beleza frente as diversões grosseiras este prazer de que falas Sócrates, o daquele que pode distrair-se com os discursos, compondo belos relatos sobre a justiça e os demais assuntos que falas !  Sócrates – Assim é, realmente, querido Fedro. Porém creio que é muito mais bonito ainda ocupar-se seriamente de tais coisas e seguindo as normas da dialética, tomar uma alma apropriada e plantar e semear nela discursos acompanhados de ciência que sejam capazes de ajudar a si mesmo e ao que os plantou, e que não sejam estéreis, mas que carreguem sementes que produzam, em outros caractere, outros discursos, capazes sempre de produzir este fruto imortal, fazendo a felicidade de quem os possui no mais alto grau possível para o ser humano.”  ( Fedro, 276).        

           A morte precoce de Adonis, sua proximidade de Aphrodite que é mãe de Eros / Cupido / Desejo, o nascimento dela ( Afrodite ) do esperma que cai no mar de Urano castrado por Cronos, confirmam a tese do caráter efêmero, do prazer sensual.        

     Cinyras pai de Mirra por quem ela se apaixona, teria alguma proximidade com Brahma, o deus criador? Frazer, James George, que no seu livro The Golden Bough, fala bastante de Adonis, diz assim sobre Cinyras:

               “Se o julgamos por seu nome, o rei semítico que carrega o nome Cinyras era, como rei David, um harpista; pois o nome Cinyras é claramente relacionado com o grego cinyra, uma lira, que por sua vez vem do semita kinnor, uma lira, a mesma palavra usada para o instrumento o qual David tocava diante de Saul. Provavelmente não estamos errados em assumir que em Paphos como em Jerusalém a música da lira ou harpa não era um mero passatempo como hobby para uma hora ociosa mas era parte do serviço religioso [ como atualmente o ofício divino é a recitação dos Salmos de David ], a comovente influência de suas melodias sendo talvez estabelecidas, como o efeito do vinho, para dirigir a inspiração de uma deidade.” (pg. 318).

     Se assim for como o historiador inglês coloca, Cinyras aproxima-se de Brahma como a música da obra da criação, ou seja, no seu caráter litúrgico, religioso. Narada, filho de Brahma é musico e vimos já no início deste texto como foi tentado por Kama mas venceu a tentação por estar no lugar mesmo que Shiva o destruira antes. E temos na história de Alcibíades no parágrafo / capítulo II de Plutarco referência a música na liturgia religiosa grega:

                 “Quando se dedicou as honestas disciplinas escutava com prazer a todos os professores; porém a tocar flauta resistia, dizendo que era exercício desprezível e impróprio de homens livres e que o uso do plectro e da lira em nada alterava a fisionomia e o semblante do ser humano normal enquanto que a cara de uma pessoa que sopra uma flauta apenas pode reconhecer os amigos próximos; e além disso a lira soa e acompanha com o canto daquele que a toca mas a flauta fecha a boca e obstrui a voz e a fala daquele que a usa. “Tocam pois a flauta - dizia- os filhos dos tebanos pois que não sabem conversar mas nós atenienses, como dizem nossos pais, olhamos Atenas como nossa soberana e a Apolo como nosso compatriota e é bem sabido que aquela jogou fora a flauta e este fez escalpelar ao que a tocava.” Com tais anedotas e contos, se afastou Alcibíades a si mesmo e a outros daquele estudo, porque logo correu o boato entre os jovens de que fazia muito bem Alcibíades em desacreditar aquela habilidade e em rir de quem a aprendia; assim foi inteiramente ridicularizada a flauta e desterrada do número das ocupações estudantis.”

             Refere-se acima a disputa entre Apolo e Marsias na Lídia em que este último perde e é escalpelado. A música sacra, litúrgica em confronto com a música laica, popular, com a lira opondo-se à flauta. Se Alcibíades é o Adonis, o Cupido incendiado, Daksha mesmo que oferece o sacrifício, Sócrates, por seu lado, é Brahma, o criador no seu apoio e defesa de Alcibíades, história que veremos mais a frente.     

           A história de Adonis aparece na vida de Alcibíades no capítulo XVIII no dia da partida da expedição para a Sicília, o grande sacrifício do qual nosso herói foi o grande responsável, sacerdote / sacrificante e vítima sacrifical ao mesmo tempo pois assim são os sacrifícios :

                  “Estando já tudo disposto para dar a vela, não se apresentaram favoráveis nem os auspícios das festividades; porque caíram naqueles dias as festas de Adonis nas quais as mulheres colocavam em muitos lugares imagens semelhantes aos mortos que se está levando para enterrar e representavam exéquias, chorando e entoando lamentações.”   Esta passagem continua:

              “Além do que, a mutilação feita em uma só noite de todos os hermes que amanheceram com todas as partes proeminentes do rosto cortadas, causou grande turbação ainda àqueles que não fazem muito de tais coisas. Se disse que os de Corinto, por amor aos siracusanos, que era uma colônia deles, com esperança que aquele prodígio iria conter os atenienses e fazer-lhes desistir da guerra, foram os autores do atentado.” ( bustos de Hermes eram colocados nas ruas e encruzilhadas de Atenas ). Veremos o significado desta imagem aparecer mais a frente, nesta história do primeiro sacrifício.

        A morte de Adonis era exatamente o que estava acontecendo posto que Alcibíades será condenado, neste momento que o barco está partindo, a morte pela cidade de Atenas devido a um insulto a deusa e sua filha, Deméter e Perséfone, quando parodiou os mistérios de Elêusis, bêbado, imitando e desrespeitando os rituais religiosos. Insulto semelhante ao de Daksha ao não chamar sua filha Sati, esposa de Shiva, para o sacrifício justamente por ser contra ele, Shiva, uma vez que este levava a religião a todos inclusive os de casta baixa e intocáveis.

        Outra citação de Plutarco aproxima explicitamente Alcibíades de Eros / Cupido, vejamos o capítulo XVI:

                “Pois a estes cuidados e estes discursos, a esta prudência e esta habilidade em manejar os negócios, reunia um desordenado luxo em seu modo de vida, no beber e nos amores desordenados; grande dissolução e muita afeminação em trajes de diversas cores que afetadamente arrastava pela praça; uma opulência insultante em tudo: leitos moles para dormir nas galeras mais prazerosamente, não colocados sobre tábuas mas pendurados em faixas; e um escudo feito de ouro, no qual não pôs nenhuma das insígnias usadas pelos atenienses, mas um Cupido armado com o raio. Ao ver estas coisas, os cidadãos mais distinguidos, além de abominá-las e levá---las a mal, temiam sua ousadia e sua falta de visão como tirânicos e disparatados. (...) Quando Aristofonte pintou a Nemea (uma cortesã) tendo Alcibíades sentado em seu colo, o olhavam e saíam muito satisfeitos os atenienses, porém os anciãos também a isto viam com maus olhos, como tirânico e violento. Parecia portanto que não esteve errado Arquestrato quando disse que a Grécia não poderia suportar dois Alcibíades. E quando Timón, o Misantropo, encontrando-se com Alcibíades quando este se retirava da junta pública muito aplaudido e com um brilhante cortejo, não passou de lado, nem se retirou, como costumava fazer com todos os demais, mas aproximando-se e tomando-lhe a mão: Bravo, fazes muito bem – lhe disse – oh jovem, em ir se engrandecendo assim, porque teu engrandecimento será a ruína de todos estes, uns riram, outros consideraram uma blasfêmia  e em alguns a frase produziu uma completa aversão: tão difícil era formar opinião de semelhante homem pelas contrariedades de seu caráter !”         

            Daksha então resolve fazer o primeiro sacrifício e não convida nem sua filha Sati nem Shiva marido dela, não separa nenhuma parte do sacrifício para eles dois, o que leva a destruição do sacrifício e a destruição de Sati mesma que se auto incendeia, se auto sacrifica, diante do pai sacrificante. O Bhagavata Purana guarda o discurso dela nesta ocasião assim como o de Nandim e o de Shiva também quando se despede de Sati:

                 “Sati disse:- 19. A mente do grande sábio que encontra alegria em Si mesmo não necessariamente segue instruções Védicas (em relação a obrigações e proibições). Justo como os movimentos de seres celestiais e das pessoas são diferentes (os primeiros através do céu e os últimos na terra), uma pessoa que segue seu próprio caminho vocacional, não deve encontrar falta em outro que segue caminho diferente.

   20. É verdade que karmas de dois tipos – prvrtta (atos sacrificais, etc) e nivrtta (auto controle, renúncia, etc) estão prescritos nos Vedas, severamente, para dois tipos distintos de pessoas – uma caracterizada por apego a objetos mundanos e outra pela ausência deles. Ambos os tipos de karmas não podem ser encontrados (praticáveis) simultaneamente no mesmo agente. Mas nenhum dever de obrar um karma de qualquer tipo recai sobre Brahman (deus Shiva).

  21. Você não precisa nutrir a soberba de que você é rico e Rudra ( Shiva ) é pobre pois os poderes místicos ( siddhis ) possuídos por nós, nunca pode ser seu, ó pai. Eles não são encontrados (alcançados) em salas de sacrifício (com a realização de sacrifícios). A causa de alcançarmos os poderes é não manifesta (enquanto depende de nossa vontade). Eles são possuídos por Avadhutas ( conhecedores de Brahman que renunciaram a tudo ). Enquanto teu caminho é exaltado por criaturas que seguem o caminho da fumaça (karma maga) que é gratificado com a comida oferecida em sacrifícios.

    22. Agora chega deste corpo impuro nascido de ti que pecou contra senhor Shiva. Envergonho-me do meu parentesco com um pai sem valor. Fora com a herança de um homem que vilifica as grandes Almas !

    23. Quando (sério) Senhor Shiva (o deus com o estandarte do touro) se referiu a tua gotra  chamando-me de Dakshayani ( filha de Daksha ) eu imediatamente perdi toda a minha alegria e sorrisos e me tornei extremamente dolorida no coração. Portanto devo desistir deste corpo nascido de ti.”

   24. Ó vencedor de inimigos ! Tendo assim se dirigido a Daksha na sala de sacrifícios ela sentou silenciosamente no chão com a face para o norte. Ela vestia um hábito amarelo. Ela tocou n’água (i. e. tomou um pequeno gole como em acamana) e fechando seus olhos, ela entrou no caminho da yoga (para jogar fora seu corpo material).

   25. Firme em sua postura yogue, ela controlou prana e apana igualmente no umbigo. Forçando para cima o ar vital chamado udana a partir do plexo místico no umbigo (manipura chakra), ela gradualmente o trouxe para cima e o firmou junto com o intelecto no plexus místico do coração. A senhora pura, sem pecados, o levou através da garganta para (ajña cakra), o plexus místico na região mediana entre as sobrancelhas.

   26. Então, sem raiva contra Daksa, ela desejou jogar fora seu corpo que foi muitas vezes colocado amavelmente (e acariciado) no colo do deus Shiva, o mais elevado entre os grandes. A mulher de vontade forte estabeleceu a contemplação (dharana)  yogue do fogo e do vento em seus membros (corpo).

   27. Então meditando na benção dos pés qual lótus do seu senhor, o preceptor do mundo (Senhor Shiva), Sati (estava tão absorvida que ela) não percebia nada mais. Ela destruiu todas as impurezas. E seu corpo logo incendiou-se com o fogo produzido por seu samadhi (concentração yogue).

  28. Lá levantou-se um tremendo barulho de dor ( ai! ai! ) em ambos na terra e no céu por aqueles que testemunharam o grande milagre. ‘Ai ! provocada por seu pai Daksa, Sati, a amada esposa do Senhor Shiva, jogou fora sua vida.” ( Bhagavata purana IV, 4, 19-28 )    

               O discurso de Sati explica tudo, o ciúme de seu pai, seu apego a matéria e as obras das mãos, ao corpo sensível e à religião exterior enquanto a realidade existe para além dos sentidos e da natureza enquanto obra interior e de uma religião do espírito.

               Shiva Purana diz assim : “12. Ai, Sati, a nobre amada da deidade do estandarte de touro se tornou desconsolada. Ela devia ter sido honrada devidamente. 13. Este patriarca de coração duro, inimigo de Brahman, definitivamente se tornará infame em todo o mundo. 14. Já que ele se recusou a concordar com o pedido de sua própria filha ele irá cair no inferno terrível após a morte por causa de sua própria culpa. 15. Quando as pessoas estavam falando assim vendo a auto imolação de Sati, seus atendentes levantaram-se com raiva, armados.16. Eles estavam esperando junto da porta sessenta mil em número. Estes poderosos atendentes do senhor Shiva ficaram furiosos. ... 21 Assim ao redor de vinte mil destes atendentes procuraram a morte junto com Sati. Foi muito surpreendente.” (Shiva Purana, Rudra Samhita, seção II, cap. 31).

            E em seguida uma voz celeste é escutada por todos : “ 2. Ó Daksa, de conduta má, de disposição arrogante, o que é isto que tolamente fizeste agora, este delito trazendo para muitos uma infeliz calamidade em seu rastro? 3. Você nunca deu qual crédito às palavras de Dadhici, o rei dos devotos de Shiva. Ó tolo, se tivesses escutado, tudo teria sido auspicioso e agradável. 4. Após amaldiçoa-lo terrivelmente, o brahmin saiu fora em protesto da sala de sacrifício. Você ainda não entendeu nada, tolo que és. 5. Como é isto de você não honrar Sati tua filha, a mulher auspiciosa que por ela mesma veio para a tua casa ? 6. Ó fraco de conhecimento, como é que você não venera Sati e Shiva ? em vão sentes orgulho de ser filho de Brahma. Na realidade és um iludido. 7. Esta Sati sozinha, que subjuga todos os pecados, que é a mãe dos três mundos, que ocupa metade do corpo de Shiva e que confere todo bem estar que sempre pode ser propiciado. 8. Esta Sati sozinha que quando venerada para sempre confere boas fortunas. Ela é a grande deusa que dá todas as coisas auspiciosas para seus devotos. 9. Esta Sati sozinha quando propiciada para sempre destrói o medo da existência mundana. 10. Esta Sati sozinha quando propiciada para sempre dá fama e riqueza. Ela é a grande Deusa que confere prazeres do mundo e salvação. 11. Esta Sati sozinha é a criadora do universo, a protetora do universo, a causa da destruição do universo no fim de uma Era. Ela é a Shakti primordial. 12. Esta Sati sozinha é a Maya (Arte) do universo, a mãe de Vishnu, de características diversas brilhantes, e a mãe de Brahma, Indra, da lua, do fogo, da Sol e dos deuses. 13. Esta Sati sozinha é a que proporciona os frutos da penitência, dons de caridade e ações virtuosas.  Ela é a Shakti de Shiva, a grande Deusa, a destruidora do mal, e a maior entre os maiores.  14. A porção devida não foi oferecida por você que é tolo e de mente má para o senhor cuja esposa amada é a deusa Sati de características gloriosas.”  ( Shiva purana, Rudrasamhita, seção II, cap. 31 ).

        A divisão da unidade de Brahman em dois, homem e mulher, céu e terra, autoridade espiritual e poder temporal, vida religiosa e vida no mundo, Shiva e Shakti, mostra a importância de Sati conforme o texto anterior e o texto que segue:

            “Ela é a mãe do universo. Ela é chamada Bhaga. Ela é o pedestal triplo da deidade na forma de Linga. Linga é o senhor mesmo. Ó excelentes brahmins, a criação do universo é através de ambos. Shiva na forma de Linga é o esplendor estacionado acima da escuridão. Vendo a união do Linga e do pedestal ele se torna  Ardhanarisvara ( senhor com a forma de uma mulher em uma metade ). No começo ele criou seu filho Brahma o senhor de quatro faces. ... O senhor não nascido pediu ao senhor alma do universo, dizendo, “Divida a si mesmo”. Ele criou a deusa do lado esquerdo de seu corpo como sua esposa adequada. Esta senhora antiga esplêndida, isto é, Sraddha [ a oblação, Sati ] tornou-se a filha de Daksha com a ordem do senhor.”     ( Linga Purana, 99s ).

         Shiva enquanto autoridade espiritual aparece quando Brahma e Vishnu vão até ele para pedir que se case e tenha filhos e Shiva responde:

             “28. Ó  Brahma, Ó Vishnu, vocês dois são sempre queridos por mim. Vendo vocês dois, meu prazer aumenta realmente. 29. Vocês dois são os melhores entre os devas. Vocês são os mestres dos três mundos.  O que vocês dizem é realmente de peso já que estão engajados no trabalho de Shiva. 30. Ó melhor entre os Devas, não é apropriado para mim casar já que eu sou desapegado do mundo e engajado em penitência. Eu sempre pratico Yoga. 31-32. De que valia é uma amada para mim neste mundo já que estou no caminho da abstinência, me deliciando na minha própria alma, livre de apego, sem manchas, com o corpo de um asceta, possuidor de conhecimento, vendo a si mesmo, livre de aberrações e um não festeiro. Além do que estou sempre sujo e inauspicioso. Então me diga agora o que tenho a ver com uma amada esposa ? 33-34. Quando estou engajado em Yoga experimento a Benção mística. Apenas uma pessoa destituída de conhecimento perfeito valorizará casamento e o desejará. Na realidade é um grande laço. Daí não estou interessado nele. Esta é a verdade. Estou falando a vocês a verdade. 35. Nenhuma das minhas atividades é orientada por interesse próprio, assim realizarei o que vocês sugeriram para o benefício do universo.”  ( Shiva Purana, Rudra samhita, seção II, cap. 16, 28-35 ).

        Voltemos ao Bhagavata Purana e as falas, discursos, de Shiva para Sati antes dela ir ao sacrifício e de Nandim para Daksha, quando este último amaldiçoava Shiva:

           “Senhor Shiva disse : 16. Ó mulher charmosa, colocaste bem quando disseste que as pessoas vão para seus parentes mesmo quando não são chamados. Mas isto apenas quando a visão (perspectiva) deles não está prejudicada por seu ego poderoso sobre o corpo ser o atman e por sua raiva (contra tal visitante). ... . 20. Ó bela senhora (de sobrancelhas charmosas), concordo com certeza que és a mais amada de todas as filhas de Daksha (o Senhor dos seres criados) de rank eminente. Você, contudo, não irá receber respeito ou atenção apropriada de teu pai, devido a tua relação comigo, a quem ele odeia intensamente. 21. À vista da prosperidade (glória, possessão de siddhis) de grandes pessoas que permanecem (despreocupadas) como uma testemunha para as mentes de jiva ( i.e. desprovidas de ahamkara – ego ), seu coração ferve de ciúme e seus sentidos estão super ansiosos por gratificação. Mas sendo incapaz de atingir a posição eminente deles com facilidade, ele os odeia intensamente como os Asuras odeiam Hari. 22. Ó senhora de cintura fina, a troca mútua de respeito, quer dizer sair para receber, expressar modéstia, prestar obediência, é propriamente feita pelos sábios bhagavatas (devotos do Senhor) apenas. Eles fazem tudo isto mentalmente para a Suprema Pessoa Vasudeva, que reside no coração de todos mas não naquele que considera a Alma e o corpo como idênticos (e espera a observância de formalidades externas direcionadas a seu corpo). 23. O sattva absolutamente puro (coração ou o atributo chamado sattva) é designado como Vasudeva; pois é em sattva que a Suprema Humanidade Vasudeva  é manifesta (e realizada) em sua forma real (não velada). É no sattva (mente absolutamente pura) que presto obediência, a ele que está além da percepção dos sentidos. 24. Portanto, Ó bela senhora, não devias ver Daksha e seus seguidores – mesmo Daksha sendo teu pai, protetor do teu corpo, Daksha é meu inimigo. Quando fui participar do sacrifício realizado pelos Prajapatis, ele expressou sua raiva, usando linguagem abusiva comigo, mesmo eu sendo inocente (sem qualquer falta). 25. Se você for lá ignorando meu conselho, nenhum bem vai acontecer para você lá. Quando uma pessoa de reputação bem estabelecida sofre insulto de seus parentes, a indignidade leva imediatamente a sua morte.”   (Bhagavata Purana IV, 3, 16s)

         Novamente comprovando a tese vemos o apego ao corpo, as formalidades externas, o erro de considerar alma e corpo idênticos, com os sentidos super ansiosos por gratificação e o ódio, ciúme, para com aqueles que realizam as consecuções, os siddhis que ao contrário são desapegados do ego, dos sentidos e do corpo.

            Segue discurso de Nandin, Nandisvara contra Daksha :

      “20. Tendo sabido da maldição (de Daksha contra Shiva), Nandisvara, líder dos seguidores de Shiva, com seus olhos vermelhos de raiva, pronunciou uma terrível maldição sobre Daksha e os Brahmanas que aceitavam, escutando, as denúncias contra Shiva. 21. “Aquele que, sendo ignorante, pensa altivamente desta estrutura mortal e odeia o Senhor (Shiva) o qual não carrega inimizade contra ninguém, acalenta a noção de diferença e tem sua face afastada para longe da Verdade. 22. Com o desejo de gratificar prazeres sensuais baixos, ele (Daksha) é apegado à vida de dono de casa que está cheia de práticas enganosas pseudo religiosas. Seu intelecto está confuso pelo arthavada (realizações materiais) nos Vedas e ele está absorvido em rituais cármicos (pertencentes a sacrifícios e outros atos similares). 23. Com seu intelecto erradamente concentrado no corpo como Alma e tendo esquecido a real natureza da Alma, Daksha é tão bom quanto uma besta. Ele será intensamente apegado a mulheres e logo terá a cabeça (face) de um bode. 24. Este idiota (Daksha) que considera a avidya (ignorância) que consiste a realização de sacrifícios e outros atos religiosos, como o conhecimento real e aqueles que o seguem (o aprovam) em sua censura à Shiva, continuarão no samsara (o ciclo de nascimentos e mortes). 25. Os inimigos de Hara (Shiva) ficarão cansados (e apegados) a karmas, enquanto suas mentes ficarão agitadas pela batedura de ricas promessas (quer dizer, felicidade no céu) sedutoras como o cheiro de vinho dado na linguagem florida dos Vedas. 26. Brahmanas comerão qualquer coisa e tudo (sem considerar se é permitido pelos Sastras). Serão devotos do ensino, tapas (penitência) e vratas (votos) por causa de suas próprias vidas. Eles vagarão mendigando neste mundo, deliciando-se com propriedades, (prazeres do) corpo e dos órgãos dos sentidos.”   ( Bhagavata Purana IV, 2, 21s ).

            Juntando os discursos, falas, temos que Daksa está apegado as obras do mundo, exteriores, a vida ativa, acreditando que o corpo é a Alma, enquanto Shiva é ao contrário ocupado com o interior, com as obras interiores e a vida contemplativa. A vida ativa está presa no Samsara, o ciclo de renascimento e morte, enquanto a vida contemplativa sai desta prisão e liberta-se:

               “Uma pessoa que está neste caminho de Pravrtti, de vida mundana ativa, por Maya (não nascido) continua a vagar no samsara. Nenhuma pessoa desta ainda percebeu a finalidade mais alta da vida (quer dizer, Moksa, Livramento)” ( Bhagavata Purana, V, 13,19 ).

                “15. Ó Senhor dos homens ! Uma pessoa continua a vagar no samsara tanto tempo quanto ele não for sacudido para fora de Maya, através da aurora do conhecimento e se torne livre de apegos e dos seis inimigos (quer dizer, paixões como luxúria, raiva, avareza, etc.) e não entendeu seu verdadeiro Si mesmo. 16. Ele continua a vagar tanto tempo quanto ele não compreende que a mente, o ambiente condicionador da Alma, é o lugar das misérias do samsara, (o ciclo de nascimento e morte), e a fonte de contínuas séries de sofrimentos, ilusões, doenças, paixões, avareza e ódio e o criador do sentimento ‘egóico’.”  (Bhagavata Purana V, 11, 14s.)   

              “Ocasionalmente a pessoa percebe espontaneamente por um momento a irrealidade dos objetos mundanos. Mas enquanto ela identifica a Alma com seu corpo, ela perde a sua memória (mente) levada assim a perder-se, ela persegue intensamente aqueles mesmos objetos dos sentidos que são ilusórios como miragem.”   (Bhagavata Purana V, 14,10).

           “Pois aquele que ganhou conhecimento e segue a disciplina da Yoga, definitivamente não retorna ao universo ou samsara. São apenas as pessoas meditativas que renunciaram todas as formas de violência ( para com todas as criaturas ) e estão firmemente entregues ao auto controle ( e consequente serenidade) e que desapegaram suas mentes ( dos objetos mundanos ) alcançam o Supremo ( Si mesmo ).  ( Bhagavata Purana V, 14, 39 ).

        “A manifestação do Fogo está descrita no Satapatha Brahmana, II, 2,2, 8-20; o que segue é um resumo.  Os deuses e os Titãs, filhos de Prajapati, estavam “desprovidos de si mesmo espiritual” (anatmanah) e por consequência mortais: apenas Agni era imortal. Os dois partidos edificaram seu Fogo sacrifical. Os Titãs realizaram seu rito exteriormente (de maneira profana); mas “os Deuses edificaram este Fogo neles mesmos ( ênam ... antaratman adadhata ); tendo feito isto, eles tornaram-se imortais e invencíveis e venceram seus inimigos mortais e vulneráveis.” Do mesmo modo agora o sacrificante edifica o Fogo sacrifical nele mesmo (...) O verdadeiro Agnihotra não é de fato um rito que deva ser realizado em momentos determinados mas “em vós mesmos” cada dia (...). E assim, “É pelo conhecimento (vidyaya) que eles chegam lá onde os desejos desapareceram (paragatah), não pelas prebendas, nem por um ardor ignorante ... Aquele mundo de lá só pertence aos Conhecedores.” ( S. B. X, 5,4,16 ).”  (Coomaraswamy, A., Atmayajna, in Perceptions of The Vedas, p. 396)      

              A autocombustão de Sati, Seu sacrifício, no primeiro sacrifício, refere-se portanto ao mesmo incêndio do corpo, do prazer sensível, ela mesma em seu discurso diz isto, incêndio de Kama. Com a diferença que é o sacrifício da grande Mãe, da parte feminina de Deus, que sabe renascerá nos Himalaias qual filha de Himavat, Parvati e casará novamente com Shiva. Enquanto Terra ela é o poder temporal, que oferece seu sacrifício.            

             E na história de Alcibíades este incêndio aparece duas vezes. A primeira no capítulo XVII :   “Diz-se do filósofo Sócrates e do astrólogo Metón que nem um nem outro nunca esperaram nada proveitoso para a cidade de semelhante projeto (de tomar a Sicília e depois Cartago, a África, o Peloponeso e a Itália): aquele por aparecer-lhe, como se acredita, seu gênio familiar e lhe predizer e Metón, porque teve receio por seu próprio saber (a astrologia) o que ia acontecer, ou porque usou para isto de alguma adivinhação: de forma que fingiu ter-se tornado louco e tomando uma tocha acessa ia a tocar fogo em sua própria casa; ainda que alguns digam que não houve da parte de Metón tal ficção de loucura senão que efetivamente colocou fogo em sua casa durante a noite e pela manhã se apresentou a pedir e suplicar que devido àquela desgraça lhe deixassem o filho livre por enquanto do serviço militar; e tendo enganado aos cidadãos, conseguiu o que queria.” 

          A segunda no último capítulo, XXXIX, que descreve a morte de Alcibíades: “Quando Lisandro enviou a Farnabazo a ordem para a execução (de Alcibíades) e este a passou a seu irmão Mageo e a seu tio Susamitres, fez a casualidade que Alcibíades estivesse em certa aldeia da Frígia tendo em sua companhia a Timandra, que era uma de suas amigas. Havia tido entre sonhos esta visão; pareceu-lhe que tinha se vestido com as roupas de sua amiga, e que esta, reclinando ele a cabeça sobre seu regaço, o adornava o rosto como o de uma mulher, pintando-o e maquiando-o. Outros dizem que viu em sonhos a Mageo e aos de sua facção que lhe cortavam a cabeça e queimavam seu corpo; mas todos concordam que teve uma ou outra visão antes de sua morte. Os que foram enviados contra ele não se atreveram a entrar na casa e o que fizeram foi, espalhando-se ao redor dela, atear-lhe fogo. Senti-o Alcibíades e recolhendo muitos vestidos e roupas os jogou no fogo e rodeando a mão esquerda com o manto com a direita pegou a espada e passando com a maior intrepidez por cima do fogo antes que houvesse incendiado as roupas, com apenas apresentar-se dispersou aos bárbaros porque ninguém tinha valor para confrontar-lhe ou lutar com ele mas de longe lhe lançaram flechas e dardos. Transpassado com eles finalmente caiu morto. Depois que os bárbaros foram embora, Timandra recolheu o cadáver e envolvendo-o em roupas dela lhe fez o funeral e honrosas exéquias que as circunstâncias permitiam.” 

           Considerando a conduta apaixonada de Alcibíades podemos pensar que sua morte aproxima-se da morte de Sati na mesma medida que o sacrifício da filha se aproxima do sacrifício do pai, e o sacrifício do sacrifício de si mesmo, e enquanto morte do poder temporal, do corpo terreno, do prazer sensível. Vejamos Tucídides falando dele em História da Guerra do Peloponeso:

           “Desfrutando até então de grande prestígio entre os habitantes da cidade, ele sempre cuidou de satisfazer os seus próprios caprichos muito além do que lhe permitiam as suas posses, tanto na criação de cavalos quanto em outros gastos, e não foi pequena a influência desses desmandos na ruína de Atenas. O Povo preocupado na época com a enormidade da sua depravação na vida diária e também com seus desígnios revelados em cada uma das muitas intrigas em que se envolvia, passou a hostilizá-lo, considerando-o um aspirante a tirania; de fato embora na vida pública ele tratasse dos assuntos relativos à guerra da melhor maneira possível, na vida privada ele ofendia todos os cidadãos com sua conduta, levando-os a confiar a cidade a outras mãos e a arruiná-la por isto ao fim de não muito tempo.”  (VI, 15)

       Do mesmo desconcerto fala Plutarco no capítulo / parágrafo VI : “Havia ocasiões, em que cedendo aos aduladores que o lisonjeavam com prazeres, se afastava de Sócrates e como fugitivo tinha que caçá-lo; pois só o respeito a ele o envergonhava e a ele apenas tinha algum temor, não se importando com os demais. Dizia pois Cleantes que este era amado pelos ouvidos por onde Sócrates era colhido; quanto aos outros amores lhes apresentava muito assíduos para que ele largasse: querendo indicar o ventre, a lascívia e a gula porque realmente Alcibíades era muito inclinado aos deleites, dando disto bastante indício o que Tucídides chama desconcerto seu no regime ordinário da vida. Mas os que tratavam de pervertê-lo se valeram principalmente foi de sua ambição e de seu orgulho ...”.

         O poder temporal é feminino diante da autoridade espiritual masculina, a terra feminina e o céu masculino, o corpo feminino e a alma masculina, etc. E assim podemos entender ambos os sacrifícios como sacrifício de si mesmo, segundo o texto de Ananda Coomaraswamy, cf. bibliografia:

                      “O comércio do texto ‘Do ut des’ é, além do mais idêntico com aquele implicado no termo bhakti = bhoga literalmente parte ou porção da raiz bhaj proporcionar ... O sacrifício é uma devoção e isto é o mesmo que dizer um auto sacrifício e de fato, enquanto o Deus é arquetipicamente a vítima, na mimesis do ritual o Sacrificante identifica a si mesmo com a vítima real, como é frequentemente explícito: “o Fogo sabe que ele veio para oferecer a si mesmo a mim” (paridam me, SB II,4,1,11, cf. IX,3,2,7 yajno vai devanam atma yajna u eva yajamanasya) e daí o  sacrificante de si mesmo (atmayaji) do mero sacrificante, SB XI,2,6,13-14, cf. a nota de  Eggeling em SB I,2,3,5. Em última análise, o sacrificante está trocando ou se preferimos barganhando seu próprio olho por aquele do Sol, sua própria substância pela divina.” (pg. 67) 

           Assim identificando-se com Daksha, o crime de Alcibíades contra a deusa estaria descrito na sentença legal, a delação, que sobreviveu conservada por Plutarco, crime pelo qual Alcibíades tem seus bens confiscados, é condenado a morte e expulso de Atenas que envia a nave Salamina, nave sempre pronta para missões extraordinárias, para prendê-lo quando no comando já da expedição que partira para a Sicília:

           “Tésalo, filho de Cimón Lasíade, denuncia a Alcibíades, filho de Clínias, Escambónide, de ter ofendido as deusas Deméter e sua filha, remedando, parodiando, os mistérios e divulgando-os a seus amigos em sua casa, tendo colocado o ornamento que leva o Hierofante quando celebra os mistérios, tomando ele mesmo o nome de Hierofante, dando a Polutión o de porta tocha e a Teodoro Fegés o de proclamador e chamando seus amigos de iniciados e adeptos, contra o justo e o estabelecido pelos eumólpidas, pelos proclamadores e os sacerdotes de Elêusis.” (cap. XXII)   

         O fracasso da expedição à Sicília acontece devido a este crime. Tucídides assim fala da expedição promovida por Alcíbiades contra a vontade de Nícias:

           “Estes primeiros efetivos a partir foram os mais dispendiosos e pomposos jamais preparados por uma única cidade até aquela época e compostos apenas de forças helenas. Pelo número de naus, todavia, e pela quantidade de hoplitas, a expedição enviada inicialmente contra Epidauros sob o comando de Péricles  em seguida com Hagnon contra  Potideia, não fora inferior; efetivamente dela participaram quatro mil hoplitas, trezentos cavalarianos e cem trirremes, todos de Atenas e cinquenta trirremes de Lesbos e Quios, além de tropas aliadas em grande número. Mas ela havia partido para uma viagem curta e com equipamento modesto; a expedição atual, ao contrário, pelas perspectivas de longa duração estava bem provida de naus e de forças terrestres para corresponder às necessidades. Foram feitas grandes despesas para a construção da frota, seja pelos trierarcas, seja pela cidade; esta pagava um dracma por dia a cada marinheiro e fornecia sessenta naus vazias e quarenta naus para o transporte de tropas, com os homens para tripulá-las da maneira mais apropriada; os trierarcas completavam o soldo dos tranitas, os marinheiros do banco superior, melhorando o soldo pago pela cidade; as trirremes tinham carrancas de proa e equipamento muito dispendioso pois cada trierarca dispendia o máximo de recursos para que sua nau ultrapassasse todas as outras em aparência e velocidade. As forças de terra foram selecionadas entre as melhores listas de serviço militar e havia intensa rivalidade entre os soldados no tocante às armas e ao equipamento restante; acontecia então que, devido a emulação reinante entre eles – cada um no seu respectivo posto, tudo aquilo parecia mais uma exibição de fausto e de força diante do resto dos helenos do que uma expedição contra inimigos. Realmente se alguém computasse os gastos do erário e o desembolso privado dos cidadãos responsáveis pelas despesas da expedição - ... – veria que um total de muitos talentos saiu da cidade.”  (VI, 31).      

    Em paralelo o texto dos Puranas:

                   “Os quadrantes estavam escuros. Ventos inauspícios sopravam. Ah, o trabalho adverso do destino. Este é um sacrifício do cavalo. O sacrificante é Daksha ele mesmo. Dharma e outros são os conselheiros. A deidade portadora da bandeira de Garuda é o patrocinador. Indra e os outros deuses tomam sua parte diretamente. Ainda assim o sacrificante, o sacrifício e os sacerdotes têm a cabeça cortada imediatamente.”   ( Shiva Purana, Vayavyasamhita, seção I, 21, 62-64).

          E aqui que voltamos ao acontecimento que expressava o fracasso da expedição, a mutilação dos hermes, das partes proeminentes do rosto que nos reportamos quando do relato da cerimônia da morte de Adonis. Vejamos a citação de Tucídides desta vez:

                  “Na mesma época as hermas de mármore existentes na cidade de Atenas – trata-se de blocos quadrados que, de acordo com a tradição, havia em frente às casas e aos recintos sagrados – foram quase todas mutiladas na face numa só noite. Ninguém sabia quem havia praticado aquele ato e a cidade ofereceu publicamente grandes recompensas pela detenção dos culpados; foi também promulgado um decreto segundo o qual se qualquer habitante (cidadão, estrangeiro ou escravo) soubesse da ocorrência de outras profanações, deveria denunciá-la sem temor de represálias. O caso foi considerado muito grave pois parecia de mau agouro para a expedição e ao mesmo tempo levantava suspeitas de conspiração para uma revolução com o objetivo de abolir a democracia”.

               “Certos metecos e serviçais forneceram então algumas informações, não sobre as hermas mas a propósito de mutilações anteriores de outras estátuas praticadas por jovens que se divertiam embriagados, e também de uma paródia sacrílega do ritual dos mistérios em residências; Alcibíades entre outros estava incluído na denúncia ... “. ( VI, 27-28)

      O que vemos é que a ofensa à deusa, Deméter e sua filha, acontece antes das mutilações dos hermas, das partes proeminentes do rosto. E aqui voltamos ao relato do primeiro sacrifício feito por Daksha e seu fracasso: quando Sati morre, joga fora seu corpo mortal para reencarnar-se no Himalaia, incendeia-se diante do progenitor, Shiva / Rudra destrói o sacrifício todo e àqueles que o assistem e apoiam Daksha e assim forma-se a imagem do rosto mutilado pois a um quebra-se os dentes, a outro arranca-se os olhos, um terceiro perde os bigodes e a barba, deusas perdem a ponta do nariz, etc. Vejamos o relato nos Puranas destas faces dos deuses mutiladas:

                   “19. O glorioso Virabhadra arrancou os bigodes e a barba de Bhrgu, enquanto ele oferecia oblações com a concha, sruva, em sua mão, e ria debochadamente na assembleia mostrando sua barba (quando Daksha insultava Shiva). 20. Tomado de cólera, venerado Virabhadra derrubou com chutes Bhaga e arrancou os olhos dele, pois naquela sessão sacrifical da assembleia (quando Daksha censurava Shiva), ele fez sinais com seus olhos para Daksha. 21. Ele quebrou fora os dentes de Pusan como Balarama fez com o rei de Kalinga, pois ele ria mostrando seus dentes, quando o grande deus Shiva era xingado por Daksha.” (Bhagavata Purana V, 19-21). 

           “47-48. Então o heroico Mahagana Virabhadra segurou Prajapati, Dharma, Kasyapa Aristanemi o sábio com muitos filhos, os sábios Angiras e Krsasva e o grande sábio Datta e chutou a cabeça de todos eles. 49. Com a ponta dos dedos, unhas, ele cortou a ponta do nariz de Sarasvati e de Aditi a mãe dos deuses. Virabhadra mostrou sua façanha assim. 50. Similarmente o furioso Manibhadra com olhos em chamas, cortou fora os outros devas também e os atirou fora. 51. Mesmo depois de mutilar os deuses principais e sábios ele não se acalmou como o rei das serpentes cuja raiva se levantou. 52. Depois de derrotar seus inimigos, como leão aos elefantes na floresta, Virabhadra verificava todas as regiões para saber ‘quem estava aonde’. 53. Ele quebrou e esmagou Bhrgu enquanto o valoroso Manibhadra o chutava no peito e arrancava fora seus bigodes. 54. Canda arrancou fora com força os dentes de Pusan, que anteriormente rira e mostrara seus dentes enquanto Shiva estava sendo amaldiçoado. 55. Nandin arrancou fora os olhos de Bhaga que caíra no chão com raiva porque foi ele que piscou para Daksha quando amaldiçoava.” (Shiva Purana, Rudrasamhita, seção II, 37, 47-55)          

          “Ele atacou os deuses e os sábios que antagonizavam a Shiva. Então o senhor cortou fora a ponta do nariz de Sarasvati assim como da mãe dos deuses com a ponta da sua unha. Com faca ele cortou fora o braço de Vibhavasu e da língua até duas polegadas a partir da ponta da mãe dos deuses. O senhor beliscou fora o seio direito e a ponta do seio esquerdo de Svaha com a ponta da unha. O impetuoso Bhadra arrancou fora os olhos de Bhaga grandes e brilhantes como uma lótus. Com a ponta do seu arco ele atingiu a fileira dos dentes quais pérolas de Pusan. Daí que Pusan não pode pronunciar palavras claramente.”  (Shiva Purana, Vayavyasamhita, seção I, 21, 12s ).       

              A imagem é a mesma, as partes proeminentes do rosto cortadas, retiradas, do rosto de deus, no caso Hermes, é igual as partes proeminentes do rosto dos deuses hindus cortadas porque apoiaram Daksha contra Shiva. Plutarco estando mais distante dos fatos está certo ao dizer que foram os coríntios pois estes estão do lado espartano, dórico, sendo uma resposta ao insulto à deusa cuja terra é a Sicília ao mesmo tempo que um insulto a terra grega quando divide a unidade helena, dos helenos, entre dóricos e jônicos, separando Esparta e destruindo a paz entre os gregos.       

            Os dois acontecimentos estão, nas duas histórias paralelas, no centro, no meio, dos relatos e os constrõem. Daksha e Alcibíades são então condenados a morte sendo isto dito no texto com Alcibíades fugindo para a Trácia, bem longe, e Daksha entregando a defesa do sacrifício para Vishnu. Ocorre então um combate, guerra, batalha, entre os dois deuses que na realidade são um só, Vishnu e Shiva, e em paralelo entre Esparta e Atenas que também são um só, como duas são as pernas e um só o corpo. Estamos mostrando que Atenas / Vishnu é o poder temporal, as ciências, a matéria, o corpo, as sensações, o móvel, o exterior enquanto Esparta /Shiva é a autoridade espiritual, a metafísica, a alma, o intelecto, o motor, o interior.      

          Várias imagens caracterizam esta batalha sendo a primeira a ideia já exposta de que ambos são um só sendo Vishnu a sustentação, conservação enquanto Shiva é a transformação, dissolução na trindade em que Brahma é a criação. A segunda imagem é a multiplicação de Vishnu em vários dele mesmo, múltiplos de apenas um. E a terceira imagem, a do disco de Vishnu, Sudarsana, estacionado, parado, imobilizado junto com o próprio deus.        

        Vejamos os textos:  

        “Virabhadra disse: 66. Como é Shiva, igual é você. Como é você, igual é Shiva. Ó Vishnu, assim falam os Vedas com ordem de Shiva. 67. Ó senhor de Lakshmi, todos nós somos servos de Shiva. Trabalhamos sob ordem de Shiva. Assim com devido respeito falamos e arguimos.” (Shiva purana, Rudrasamhita 36, 66-67).

      “28. Graças ao poder da Yoga de Vishnu, inumeráveis soldados terríveis e portando concha, disco e maça em suas mãos emergiram do seu próprio corpo. 29. Eles também lutaram contra Virabhadra que continuava a gritar. Estes grupos fortes de guerreiros eram tão fortes quanto Vishnu e tinham várias armas com eles.” (Shiva purana, Rudrasamhita 37, 28-29).

     “35. Virabhadra de alma não fraca, não, idêntico ao senhor Shiva, segurou o disco terrível luminoso como um sol negro suspenso e sem se mexer. 36. Ó sábio, graças ao poder de Shiva, a Maya controladora do grande senhor, a Roda (Chakra) segura na mão de Vishnu tornou-se paralisada e sem movimento. 37. Vishnu que foi imobilizado por Virabhadra de palavras eloquentes e que era o senhor dos Ganas, permaneceu sem movimento como uma montanha.” (Shiva purana, Rudrasamhita 37, 35-37).

     Mais a frente a mesma luta entre os dois deuses é lembrada quando da disputa entre Dadhica, brahmin que no sacrifício se retirou devido a ausência de Shiva, e Ksuva, um rei, a respeito da superioridade da autoridade espiritual sobre o poder temporal, superioridade do sacerdote sobre o rei, discussão que durou séculos na idade média ocidental ( regnum & sacerdotium ) e que na Índia e no mundo de modo geral é atual no confronto entre o laicismo e a religião. Um não existe sem o outro assim como o corpo não vive sem a alma e vice versa ;  por isto que na psicologia moderna não existe alma apenas corpo e seus desejos resultados desta disputa, luta, confronto pois o mundo moderno é materialista.  

        “15. Então escutando as palavras do sábio, Vishnu ficou irado. Ele levantou seu disco e permaneceu como se fosse incendiar o excelente sábio. 16. Quando jogado sobre o Brahmin, o disco terrível ficou sem fio, sem corte, na presença do rei, graças ao poder de Shiva ... 21. Com isto os devas de intelecto torto deram ajuda a Vishnu que estava engajado em lutar com um único brahmin. ... 26. Todas as armas atiradas pelos devas sendo os mais importantes Narayana e Indra, se abaixaram em reverência àquele tridente. 27. Despojados de sua virilidade, os devas moradores celestiais fugiram. Vishnu, sozinho, o primeiro daqueles que fazem uso de Maya ficou lá mas estava com medo. 28. Vishnu, o senhor, criou para fora de seu corpo milhões de divinos seres iguais a ele mesmo. 29. Ó sábio celestial, aqueles Vishnuganas de poder heroico lutaram com o sábio Dadhica sozinho idêntico a Shiva. 30. Então enfrentando as hostes inteiras de Vishnuganas, Dadhica, o mais excelente dos devotos de Shiva, incendiou todos eles em batalha.” (Shiva purana, Rudrasamhita, 39, 15-29).  

           Por duas vezes ressalta-se a ideia de que o brahmane está sozinho, o que caracteriza a autoridade espiritual , a pessoa vivendo solitária como um asceta no deserto / floresta em meditação desenvolvendo as faculdades e consecuções como aparece qual refrão no Jatakas. O poder temporal é ao contrário uma multidão de gente vivendo junto na cidade : reparem que a palavra paróquia é para-oikia, oikia é ‘casa’ ( igual oca em tupi guarani) e para é ‘do lado’, casa do lado, casa de fora, não dentro da cidade mas fora dela.

         “31-33. Então em um instante ele quebrou o arco (de Vishnu) com uma única flecha e as asas de Garuda com duas flechas. Este foi um feito maravilhoso. Então com seus poderes da Yoga Vishnu deixou sair de seu corpo milhares de deuses terríveis segurando concha, disco e maça. Mas o poderoso Bhadra incendiou todos eles instantaneamente por meio do fogo dos seus olhos igual a Shiva quando queimou Tripuras. 34-36. Assim enfurecido Vishnu levantou seu disco apressadamente e tentou jogá-lo no herói. Vendo-o em frente com o disco levantado, o chefe dos Ganas sorriu e sem qualquer tensão fez a mão dele ficar dura e imóvel. Com seus membros paralisados, Vishnu tornou-se incapaz de jogar o inigualável e terrível disco apesar de desejar.” (Shiva purana, Vayaviyasamhita, 22, 31-36).

   No Kurma Purana esta disputa aparece da seguinte maneira:

          “66. O poderoso então atingiu Vishnu, que chegou lá no seu Garuda com flechas afiadas depois da imobilização de Sudarsana (o disco). O poderoso Garuda encarou a Gana e de repente o atingiu com suas asas e rugiu como o oceano. 67b-68. Então Rudra mesmo criou milhares de Garudas mais poderosos que Garuda, o filho de Vinata. Eles perseguiram Garuda. Vendo-os, o inteligente Garuda de grande velocidade fugiu. 69-79 Que ele tenha largado Vishnu e fugido rapidamente foi uma surpresa. Quando Garuda desapareceu, a deidade nascida da lótus (Brahma) chegou lá e se colocou no meio entre Virabhadra e Vishnu. Graças a grande glória de Paramesthin (i.e. Brahma) ele louvou Isha. Senhor Sambhu mesmo apareceu lá. Vendo aquele senhor dos Devas e Uma dotados com todos os atributos, Senhor Brahma, Daksa e os habitantes do céu os louvaram. Daksa particularmente inclinou-se diante da deusa Parvati, que compartilha metade do corpo de Ishvara. Com as mãos juntas em reverência ele a louvou com vários hinos.” (Kurma Purana I, 15, 66s).

         E no texto de Plutarco quais seriam as imagens paralelas a estas da unidade dos dois distintos, da multiplicidade de um só e a do disco imobilizado?

             “Estimado pois por seus gestos públicos e não menos admirado por sua conduta privada, atraía e adulava a multidão ao viver inteiramente ‘a la espartana’; pois vendo-o com o cabelo cortado na raiz, tomar banho de água fria, comer bolinhos e gostar do caldo negro; como que não acreditavam e antes duvidavam fortemente de que já houvera tido antes cozinheiro, nem que houvesse usado unguentos, nem que houvesse tocado seu corpo as roupas delicadas de Mileto. Porque entre as muitas habilidades que tinha, era como única e como um artifício para caçar os ânimos, a de assemelhar-se e identificar-se em seus afetos com toda espécie de instituições e costumes, sendo para mudar de forma mais preparado que o camaleão; e com a diferença que este segundo se diz tem uma cor que é o branco à qual não consegue conformar-se, porém para Alcibíades nem o bem nem o mal nada havia que igualmente não copiasse e imitasse: assim em Esparta era dado aos exercícios do ginásio, sóbrio e severo; na Jônia, voluptuoso, jovial e sossegado; na Trácia, bebedor e bom cavaleiro; e ao lado do sátrapa Tissafernes excedia seu luxo e opulência a pompa persa, não porque lhe fora tão fácil quanto parece passar de um método de vida a outro e admitir toda sorte de mudanças, senão porque sabendo que se usasse sua inclinação natural desagradaria àqueles com quem tinha que viver, continuamente se acomodava e amoldava a  forma e maneira que estes preferiam. Na Lacedemônia pois enquanto a seu porte exterior, podia-se muito bem dizer: ‘Não é este filho de Aquiles, senão o mesmo que podia ter formado Licurgo’; mas na realidade qualquer um, segundo seus afetos e suas obras, podia gritar-lhe: ‘Esta é sempre a mulher de antes.’ (Eurípedes, Orestes, verso 129)(segue a sedução da rainha de Esparta por Alcibíades gerando um bastardo no trono e o ódio de Agis, rei de Esparta, acontecimentos que refletem já a unidade dos dois distintos).” (capítulo XXIII)     

        Vemos no texto acima a multiplicidade de um só, segue a unidade de dois distintos:

           “Navegou em princípio pelo mar de Cnido e Cos; mas tendo chegado ali a notícia que o esparciata Míndaro subia ao Helesponto com toda sua armada , perseguindo os atenienses, se apressou a auxiliar seus generais; e quis a fortuna que chegasse com suas dezoito galeras precisamente no oportuno momento em que , tendo caído uns e outros com todas as suas naves perto de Abido e dando combate, vencidos em parte em parte vencedores, permaneceram na lida até anoitecer. Com seu aparecimento nesta hora fez a ambos os partidos se equivocar, inspirando confiança aos inimigos e medo aos atenienses; porém levantando logo insígnia amiga na (nave) capitã, investiu repentinamente contra os peloponésios vencedores, que seguiam ao alcance.”   (capítulo XXVII).

      E esta outra citação no capítulo seguinte:

          “Armou, pois suas naves e dando vela para Proconeso, deu ordem para que se fechasse e guardassem dentro da armada os barcos ligeiros, para que por nenhum meio pudessem pressentir o inimigo sua marcha. Fez o acaso que de repente choveu muito com trovões e que veio a seu favor tal obscuridade, que encobriu todo aquele aparato; de maneira que não só se ocultou aos inimigos, mas também aos atenienses; porque quando estavam já desconfiados, deu a ordem e partiram. Daí a pouco a obscuridade se dissipou e apareceram as naves dos peloponésios que estavam ancoradas na frente do porto Cícico.” (capítulo XXVIII).

        E o disco Sudarsana ficando imóvel :

           “É certo que 140 naus fenícias chegaram a Aspendos mas a razão pela qual não continuaram a viagem é objeto de versões desencontradas. Uns dizem... outros... A mim, todavia, me parece perfeitamente claro que seu (de Tissafernes) intuito, não trazendo afinal a frota, era esgotar os recursos do helenos e manter a situação indefinida, imobilizando-os enquanto viajava para Aspendos e demorava lá e ao mesmo tempo igualando-os de tal forma que nenhum dos dois lados se tornasse mais forte mediante aquele reforço.” (Tucídides, VIII, 87). (// capítulo XXVI de Plutarco)

        O disco então seria o tempo-espaço representado nas constelações e na geografia do movimento do comércio marítimo e então podemos entender a ‘Constituição dos Atenienses’ de Xenofonte mostrando a importância do mar e do comércio marítimo para Atenas. Esparta proibindo o dinheiro e o comércio em suas leis, seria a penitência de Shiva e o tridente, trishula, não o tempo que movimenta-se mas a eternidade do instante e do agora : por isto vemos o tridente vencer o disco, como a eternidade é superior ao tempo. Enquanto o tempo é o poder temporal, Daksha, a eternidade é a autoridade espiritual, Shiva, enquanto o tempo é corporal e material, a eternidade é da alma e espiritual. 

         Vemos que Vishnu defende o sacrifício e é derrotado, sendo o sacrifício destruído por Shiva e igualmente a destruição de Atenas tem Alcibíades como o grande responsável como vemos em vários trechos de Plutarco, o que podemos colocar dentro da ideia da unidade dos distintos para a realização do sacrifício até o fim:

                 “Escreveu a Esparta, Alcibíades, pedindo que se lhe oferecesse a impunidade e dando a palavra de que lhes faria favores e serviços que excederia em muito os danos que os havia causado. Concederam os esparciatas e recebido benignamente por eles, logo que chegou lá o primeiro serviço que fez foi que andando em consultas e dilações sobre dar auxílio aos siracusanos, os moveu e acalorou a que enviassem como general a Gilipo e derrotassem as forças que lá tinham os atenienses; foi o segundo fazer com que eles por si mesmos se movessem para esta guerra e o terceiro e maior fazer-lhes murar a Decelea, que foi o que mais prejudicou e contribuiu à ruína de Atenas (Decelea fica no caminho entre Atenas e a Beócia vinte quilômetros de distância de cada uma)(...)Depois dos desgraçados acontecimentos dos atenienses na Sicília, enviaram ao mesmo tempo embaixadores a Esparta os de Quios e Lesbos e também os de Cícico, para tratar de sua retirada. Os beócios falavam pelos de Lesbos e Farnabazo pelos de Cícico; porém com a persuasão de Alcibíades preferiram auxiliar aos de Quios antes de todos; e indo ele mesmo naquela viagem, fez com que se separasse dos atenienses quase pode se dizer toda a Jônia e com estar do lado dos generais lacedemônios foi muito grande o dano que os causou (aos atenienses). Contudo Agis era sempre seu inimigo por causa de sua mulher, pela afronta recebida e também o incomodava sua glória: porque se havia difundido a voz de que tudo se fazia por Alcibíades e a ele é que se tinha consideração. Sofriam de má vontade os de mais poder e dignidade entre os esparciatas pela inveja que ele causava. Tiveram pois mão e negociaram com os que em casa ficaram com a ordem de enviarem a Jonia quem lhe desse morte. Chegou a saber reservadamente e vivia com receio; pois todos os negócios públicos promoveu os interesses dos lacedemônios, porém escapou de cair em suas mãos; e tendo-se entregue por segurança a Tisafernes, sátrapa do rei, logo foi para ele a pessoa primeira e a de maior poder; porque aquela suma destreza sua em dobrar e acomodar-se ainda que ao bárbaro, que não era homem sensível, senão perverso e de malíssima inclinação, lhe causou grande maravilha; e as suas graças nos entretenimentos cotidianos e no trato familiar, não havia costumes que resistissem nem gênio que não se deixasse conquistar; tanto que , ainda os que o temiam ou tinham inveja, ao tratar e conversar com ele experimentavam prazer. Por tanto, com ser Tisafernes entre os persas um dos inimigos mais declarados dos gregos, de tal modo se rendeu as lisonjas de Alcibíades, que chegou a exceder-lhe em suas recíprocas adulações; assim, dos paraísos ou jardins que tinha, o mais delicioso por causa de suas águas e prados saudáveis e no qual haviam mansões e retiros dispostos regia e ostentosamente, ordenou que se chamasse de Alcibíades; e este foi o nome e apelido com que daí em diante passaram a chamá-lo todos.” (capítulo XXIV).

                 Vemos então Alcibíades causando grande dano a Atenas, estando condenado a morte pelos dois lados e ir se refugiar com os persas que dão o seu nome ao melhor jardim do reino: a proximidade com a história de Adônis e do Cupido continua pois os jardins de Adonis tornaram-se lendários e próprios da cultura ritual religiosa grega, criados para durarem oito dias nas festas da morte do amante de Afrodite que aparece aqui como o jardim de Alcibíades. A citação anterior do capítulo XVI com a imagem do Cupido e da fala de Timón, o misantropo reproduz a mesma imagem desta do capítulo XXIV : Alcibíades destrói Atenas ao mesmo tempo que tem seu nome dado ao melhor jardim do rei persa. No XXXVI temos Trasíbulo fazendo o Povo entender que Alcibíades havia desgraçado os negócios da República.

            Enquanto no XXXV Plutarco fala assim: “Em verdade parece ter sido Alcibíades, mais que qualquer outro, vítima de sua própria glória e reputação”: a frase explicita que o sacrifício é de si mesmo, auto sacrifício, como vimos a respeito de Sati diante de seu pai na sala do sacrifício, o próprio Daksha sentindo depois na pele o verdadeiro significado do sacrifício.     

         Mas a história do sacrifício não termina com sua destruição totalmente, nem a de Alcibíades. Brahma, pai de Daksha, junto com os outros deuses, vão a Kailash / Kailasa, o monte que é morada de Shiva e pedem desculpa com louvores e rezas a ele e a Parvati / Sati (são os dois juntos como céu e terra, homem e mulher, autoridade espiritual e poder temporal, alma e corpo, etc). Então o sacrifício é reconstituído, uma nova cabeça, desta vez de bode, é colocada em Daksha que revive triste pelo que fez antes e arrependido diante da filha mas sem conseguir falar, os deuses feridos são parcialmente curados, sanados e com o resto que sobrou do sacrifício, o terminam, finalizam, com a oferta de Shiva/Parvati garantida desta vez. 

      O retorno de Alcibíades a Atenas é a imagem paralela, com coroação e a tristeza diante da deusa a quem insultou, ofendeu. Vemos também os restos, sobras, ruínas usados nesta reconstituição: 

                 “Alcibíades, tendo desejo de voltar a Atenas e mais ainda de ser visto pelos cidadãos, depois de haver vencido tantas vezes os inimigos, deu vela nesta direção, indo as galeras áticas adornadas ao redor com muitos escudos e despojos levando a reboque muitas naves e ostentando em maior número todavia as bandeiras das que foram vencidas e colocadas a pique que entre umas e outras não eram menos que duzentas. O que somou a isto Duris de Samos, que se diz descendente de Alcibíades, dizendo que Crisógono, coroado nos jogos píticos, dava a cadência aos remeiros com a flauta; que dava as ordens Calípides, ator de tragédias, adornado de um rico vestido, com o manto real e todo o demais aparato do teatro, e que a capitanea entrou no porto com uma vela púrpura, como se voltasse de um convite de bacanal, não o refere nem Teopompo, nem Éforo, nem Xenofonte; ademais do que não é de se crer que se apresentasse aos atenienses com tão insolente luxo, voltando do desterro, e depois de haver passado tantos trabalhos. Antes entrou temeroso e estando já no porto não saltou em terra até que estando sob uma coberta, viu que ia apresentar-se seu primo Euriptolemo e muitos de seus amigos e devedores que indo receber-lhe o estavam chamando. (...) pois que ainda agora tomando em seu encargo a cidade despossuída quase de todo o mar e dona em terra apenas de seu ao redor, dividida ainda e sublevada contra si mesma, levantando-a de tão débeis e apoucadas ruínas não apenas restituiu o império do mar mas fez ver que por terra onde fosse também venceu a seus inimigos. (...) Reunindo-se então o Povo em junta, se apresentou Alcibíades; queixou-se e lamentou-se de suas desgraças, sem fazer mais que culpar ligeira e brandamente o Povo atribuindo tudo a sua má sorte e a algum invejoso e concluindo em dar-lhes grandes esperanças contra os inimigos e inspirar-lhes alento e confiança; o coroaram com coroas de ouro e o nomearam generalíssimo sem restrição juntamente do mar e da terra. (...) Ainda que procediam com tão brilhante prosperidade as coisas de Alcibíades, a alguns causou inquietude o momento de sua volta, porque no dia de sua chegada se faziam as purificações ou lavatórios da deusa. Celebram os sacrificantes estas orgias arcanas no dia 25 do mês targélion (maio), tirando toda a ornamentação e cobrindo a imagem, pelo que os atenienses contam este dia de cessação de todo o trabalho entre os mais amargos. Parecia pois que a deusa não recebia com amor e benignidade a Alcibíades, senão que se escondia e o  afastava de si.”       

            A prosperidade falada aqui é de que no final o sacrifício é realizado.

         Aqui devemos lembrar o discurso de Shiva para Daksha já com sua cabeça reconstituída para o sacrifício finalizar:

            “3. Ó Daksa escute. Explicarei. Ó patriarca, estou feliz. Apesar de ser o senhor independente de tudo, sou subserviente sempre aos meus devotos. 4. Quatro tipos de pessoas com méritos sempre me veneram. Ó patriarca Daksa, o último é maior que o primeiro. 5. Eles são – o aflito, o inquiridor, o caçador de fortuna e o sábio. Os três primeiros são comuns e o quarto é uma pessoa extraordinária. 6. O sábio entre estes quatro é o meu grande favorito. Ele é minha própria forma. Ninguém me é mais querido do que o sábio. Esta é a verdade. Te falo a verdade. 7. Sou o conhecedor de Si mesmo. Posso ser conhecido através do conhecimento por aqueles que aprenderam Vedanta e os Vedas. 8. Iludidos, pessoas absortas em rituais apenas não podem me alcançar pelos Vedas, pelos sacrifícios, ofertas ou austeridades. 9. Você desejava atravessar o oceano da existência mundana através da observância de rituais apenas. Por isto fiquei irado e causei a destruição do sacrifício.  10. De agora em diante, Ó Daksa, pensando em mim como o grande Senhor e dando mais importância ao conhecimento realize rituais com cuidado e atenção. 11. Ó patriarca, escute outra lição minha em clara consciência. Apesar de estar baseada no aspecto qualitativo ela é esotérica. Pelo bem da virtude devo te falar. 12. Brahma, Vishnu e eu constituímos a causa principal do universo. Mas eu sou a alma, a testemunha, vidente de si mesmo e sem atributos. 13. Ó sábio, entrando em minha própria ilusão que consiste nos três atributos, eu crio, sustento e aniquilo o universo e as designações adquiridas consistentes com as atividades. 14. Naquele Deus supremo, único, universal que é o puro Si mesmo, o ignorante vê diferentes seres vivos, Brahman, Ishvara, etc. 15. Justo como um homem comum não considera suas mãos, cabeça, e outros membros como separados de si mesmo assim também meu seguidor não sente separação dos seres vivos. 16. Ele atinge paz, aquele que não vê nenhuma diferença entre as três deidades que constituem a alma de todo ser vivo e que têm a mesma propriedade inata, Ó Daksha. 17. A pessoa comum que diferencia as deidades da Trindade certamente permanece nos ínferos enquanto a lua e as estrelas brilharem. (Trindade é a emanação da realidade transcendente chamada Brahman. O padrão  trinitário do mundo, do cosmo, é um conjunto unitário em sua base. Os três – Brahma, Vishnu e Rudra – existem em unidade, uma unidade em três e eles estão dentro daquele um Ser que é supremo, secreto e a alma de todas as coisas.) 18. Meu devoto deve venerar os deuses. Estando assim absorvido ele alcançará conhecimento que leva à salvação eterna. 19. Sem devoção a Brahma não se pode ter devoção a Vishnu; sem devoção a Vishnu ninguém terá devoção a mim. 20. Depois de dizer isto, Shiva, o grande senhor, o deus misericordioso, falou estas palavras ao alcance da escuta de todos. 21. “Se um devoto de Vishnu me odeia ou se um devoto de Shiva odeia Vishnu ambos incorrerão em maldições e nunca entenderão a realidade. Brahma disse:- 22. Escutando estas palavras agradáveis do senhor Shiva, Ó sábio, os deuses, sábios e outros ficaram grandemente deliciados. 23-24. Com grande alegria, Daksha, sua família e os deuses entenderam Shiva como o senhor de tudo e cresceram na devoção a Shiva. Senhor Shiva que estava feliz na mente concedeu dons a todos enquanto recebia reverência a Seu grande si mesmo. 25. Autorizado por Shiva e com suas bênçãos, Ó sábio, Daksha, devoto de Shiva, feliz de coração completou seu sacrifício. 26. Ele separou uma porção inteira para Shiva e deu aos deuses suas partes respectivas. Deu dons de caridade pra os brahmins e assegurou boas bênçãos de Shiva.”     

        Novamente vemos o caráter exterior, da vida ativa apenas, como a causa do fracasso do sacrifício, a exclusão do entendimento e da vida contemplativa como o grande erro que caracteriza esta vida paralela, erro expresso na oposição e na separação de Esparta que representa a penitência, a concentração, a renúncia, auto controle, a pobreza, a meditação, a autoridade espiritual. Uma vez que o sacrifício foi completado e uma porção entregue a Shiva, após este retorno de Alcibíades, temos a derrota em Egos Potamos quando Esparta destrói a frota ateniense toda e mata grande número, 3.000 atenienses: Rudra = Lisandro, que veremos no próximo capítulo.

      Brahma Purana  no seu relato desta finalização do sacrifício coloca Daksha sendo chamado de Daksha dos bons ritos santos, um título que vemos confirmado na vida de Alcibíades em vários episódios:

Capítulo  II –  exaltando a lira instrumento litúrgico no lugar da flauta usada na música popular. Jogando-se no chão no meio da rua dizendo que os carros podiam passar porque os dados rolavam num jogo entre meninos.

Capítulo VIII - indo ao fórum e pegando a esposa pela mão e levando-a de volta para casa: ela lá estava querendo o divórcio;

Capítulo X - doação de dinheiro na praça ele resolve dar também mas aí uma codorna que levava debaixo da capa fugiu e aumenta mais ainda a aclamação sendo a codorna recolhida por Antíoco o piloto – a cena toda é a imagem do sacrifício que foge, escapa. Neste mesmo capítulo diz que ele era fluente, eloquente na assembleia, melhor que todos e que por isto parava de vez em quando para pensar o que iria falar: o sacrifício então no diálogo político na assembleia, no discurso na eloquência na retórica do falar dos cidadãos quando das decisões políticas. 

Capítulo XI e XII - o recorde de carros e cavalos vitoriosos nos jogos olímpicos – grande sacrifício também a corrida de carros, explicado por Sylvain Levi em seu livro ‘A doutrina do sacrifício nos Brahmanas’ quando não haviam leis a corrida foi estabelecida como o sacrifício primeiro, pg 71 : “A lei não existia ; quem dará conta destas vãs prescrições ? A prova da corrida resolve todas as dificuldades e suprime as lentas formalidades da justiça e os mais hábeis sabem bem se acomodar a um procedimento em aparência tão brutal. Os deuses não se entendiam quem beberia o primeiro soma : Eu quero beber primeiro ! Eu quero beber primeiro ! E eles todos tinham inveja. Enfim eles fizeram um acordo : Vamos ! façamos uma corrida ! O vencedor será o primeiro a beber o soma – Bom, eles disseram. Eles fizeram a corrida (...)” .

Capítulo XIII - diz assim: “tendo a cidade (Atenas) muitas taças de ouro e prata destinadas as cerimônias, Alcibíades usava de todas elas como próprias de sua mesa diária.”  - não é este o lugar do sacrificante que faz o sacrifício ?

Capítulos IV – VII - fala de sua relação com Sócrates como viviam juntos, lutavam juntos, dormiam na mesma tenda quando na guerra e um protegia o outro: “... só o amor de Sócrates nos dá um indubitável testemunho de sua virtude e de sua índole generosa. Via que esta se manifestava e resplendia em seu semblante; e temendo a sua riqueza, ao esplendor da sua origem e a multidão de cidadãos, de forasteiros e de aliados que tratavam de apoderar-se dele com lisonjas e obséquios, se propôs a defendê-lo e não desampará-lo como uma planta que em flor ia perder e viciar seu fruto nativo.” (a imagem da flor e do fruto confirma a tese de Sócrates = Brahma, o deus criador, pai de Daksha).  O texto continua:

             “Porque em nada a fortuna lhe foi tão favorável, nem lhe apetrechou tanto exteriormente com o que chamamos de bens, como o ter-lhe feito por meio da filosofia invulnerável e impassível aos ditos mordazes e causticamente livres de tantos que desde o princípio propuseram-se a corrompê-lo e retrai-lo de ouvir a seu admoestador e mestre; e assim é que apesar de tudo pela bondade da sua índole fez conhecimento com Sócrates e se aproximou dele afastando de si os amadores ricos e distintos. Entrou pois logo em sua confiança e ouvindo a voz de um amador que não estava à caça de prazeres indignos, nem solicitava indecentes carícias, mas que lhe jogava na cara os vícios de sua alma e reprimia seu vão e néscio orgulho, “como galo vencido na peleja, deixou cair acovardado a asa”. Via-se nisso obra de Sócrates; porém na realidade a reputava mistério dos deuses em benefício e salvação dos jovens. Desconfiando, pois, de si mesmo, olhando aquele com admiração, apreciando sua benevolência e acatando sua virtude, insensivelmente abraçou o ídolo do amor, ou segundo a expressão de Platão, o contraamor ou amor correspondido. Maravilhavam-se todos, portanto, de ver-lhe ceiar com Sócrates e exercitar-se e habitar com ele, enquanto se mostrava com os demais amadores áspero e estúpido; e ainda a alguns tratava com altivez como a Anito de Antemión. Amava este a Alcibíades e tendo a ceiar alguns hóspedes, o convidou ao banquete: recusou ele o convite; porém tendo bebido em casa largamente com outros amigos, fosse a casa de Anito para dar-lhe uma caçoada: pôs-se a porta da sala de jantar e vendo as mesas cheias de vasilhas de ouro e prata, deu ordem aos criados que tomassem metade de tudo aquilo e levassem para casa; e isso sem entrar adiante e sim se retirou com os criados. Prorromperam os hóspedes em queixas, dizendo que Alcibíades havia se comportado injuriosa e indecorosamente com Anito; mas este respondeu: “Não, senão com muita equidade e moderação pois tendo sido dono para levar tudo, ainda nos deixou parte.” 

 Como entender esta imagem senão como aquela união de amor entre Céu e Terra ?    

 

Bibliografia:

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    Shiva Purana, 4 vols., Motilal Barnasidass Publishers, Delhi, 1970, 2005, India.

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   Kurma Purana, 2 vols., Motilal Barnasidass Publishers, Delhi, 1981, 2005, India.

  Linga Purana, 2 vols., Motilal Barnasidass Publishers, Delhi, 1973, 1998, India.

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---------------, Símbolos da ciência sagrada, Pensamento, SP, 9. Edição, 1993.       

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