sexta-feira, 23 de outubro de 2009

377 Buddha e Setaketu

377
“Amigo, não te irrites...etc.” - O Mestre contou esta história em Jetavana, sobre um Irmão mentiroso. Aparecerá o caso no Jātaka Uddāla [Acácia] [sobre falsos yogues] n.o 487.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, o Bodhisatva era um famoso professor e ensinava os textos sagrados a quinhentos alunos. O mais velho deles, Setaketu chamava-se, nasceu em uma família brahmin no norte, e era muito orgulhoso de sua casta. Um dia ele saiu da cidade com os outros alunos, e quando voltava viu um candāla [um pária]. “Quem é você?” ele disse. “Sou um candāla.” Ele temia que o vento que passava pelo garoto candāla pudesse tocá-lo depois, e então gritou, “Maldito sejas, candāla de mal agouro, vai para depois do vento,” e ele mesmo foi na direção do vento mas o candāla era mais rápido e permaneceu na frente no vento. Então o insultou e xingou mais ainda, “Maldito sejas, tu de mau agouro.” O candāla perguntou, “Quem é você?” “Sou um estudante brahmin.” “Muito bem, se for de verdade, serás capaz de responder um questão minha.” “Sim.” “Se não puderes, o colocarei entre os meus pés.” O brahmin, auto confiante, disse, “Continue.” O candāla, fazendo os alunos entenderem do que se tratava, fez a pergunta, “Jovem brahmin, o que são os quartos?” “Os quartos são quatro, o Leste, e o resto.” O candāla disse, “Não é este tipo de quarto que pergunto: e você, ignorante até disto, tem aversão ao próprio vento que por mim passa,” e assim o tomou pelos ombros e forçou-o até o chão, colocando-o entre seus pés. Os outros alunos contaram o caso ao professor. Ele perguntou, “Jovem Setaketu, foste tu colocado entre os pés de um candāla?” “Sim, professor : o filho de um escravo me colocou entre os pés dizendo ‘Ele não sabe sobre os quartos’; mas agora saberei o que fazer com ele,” e assim xingava o candāla raivosamente. O professor o advertiu: “Jovem, Setaketu, não fiques com raiva, ele é sábio ; perguntava sobre outro tipo de quarto, não este : o quê não viste, ou escutaste, ou entendeste é bem maior do que tiveste” : e falou duas estrofes a guisa de advertência:

Amigo, não te irrites, ira não é bom:
Sabedoria é mais do que viste ou escutaste:
Por ‘quarto’ pais pode-se entender,
E mestre denota-se com a palavra.

O chefe de família que dá comida, roupas e bebida,
Cujas portas estão abertas, ele é um ‘quarto’:
E ‘quarto’ no sentido mais alto, penso,
É aquele último estado em que miséria é benção.

[ N. do tr.: Os tradutores dizem que há trocadilhos com os nomes dos quartos geográficos. Há uma analogia com o tempo da vida mesma, me parece. São os ashramas portanto. As idades. As raças / castas / funções / ordens. ]

Assim o Bodhisatva explicou os quartos ao jovem brahmin: mas este pensando, “Fui colocado entre os pés de um candāla,” deixou aquele lugar e foi para Takkasilā ( Taxila ) aprendendo todas as artes com outro famoso professor. Com a permissão deste, deixou Takkasilā, e vagou aprendendo todas as artes práticas. Chegando a uma vila da fronteira encontrou quinhentos ascetas vivendo juntos e por eles foi ordenado. Aprendeu todas as artes, textos e práticas deles, e os acompanhou até Benares. Dia seguinte saiu para a coleta. O rei, encantado com a postura dos ascetas, deu-lhes comida no palácio e moradia no jardim / parque. Um dia ele disse, dando-lhes comida, “Saudarei-os, vós reverendos, esta tarde no jardim.” Setaketu foi ao jardim e reunindo os ascetas, disse , “Senhores, o rei está vindo ho-je; bem uma vez conciliando reis uma pessoa pode viver feliz todos os anos de sua vida, então agora alguns de vocês façam contorces de penitência, alguns deitem em cama de pregos, alguns agüentem as cinco chamas, alguns pratiquem mortificações de sentar, alguns o ato de mergulhar, alguns repitam textos,” e depois destas ordens ele mesmo se colocou na porta da cabana em uma cadeira com descanso de cabeça, colocou um livro com capa brilhante numa estante pintada, e explicou os textos enquanto era inquirido por quatro ou cinco alunos inteligentes. Naquele momento o rei chegou e vendo-os praticarem estas falsas penitências, ficou deliciado : chegou em Setaketu, o saudou e sentou do lado : então conversando com o padre da família falou a terceira estrofe:

Com dentes sujos, e roupa de pele de cabra e cabelo
Todo em tranças, murmurando palavras sagradas pacificamente:
Certamente não poupam meios humanos para o bem atingir,
Sabem a Verdade, e ganharam Livramento.

O padre escutando isto falou a quarta estrofe:

Um sábio sabido pode praticar atos ruins, ó rei:
Um sábio sabido pode falhar em seguir retidão:
Mil Vedas não trarão segurança,
Faltando obras justas, ou salvará da aflição.

Quando o rei escutou isto, tirou o favor aos ascetas. Setaketu pensou: “Este rei gostou dos ascetas mas o padre destruiu tudo cortando como com um machado : devo falar-lhe”: dizendo a quinta estrofe:

“Um sábio sabido pode praticar ato ruins, ó rei:
Um sábio sabido pode falhar em seguir retidão”
Você diz : então os Vedas é coisa sem valor :
Apenas trabalhos com auto domínio são necessários.

O padre escutando falou a sexta estrofe:

Não, Vedas não são totalmente inúteis :
Apesar de trabalhos com auto-domínio ser doutrina verdadeira:
Estudo dos Vedas alto eleva o nome da pessoa,
Mas é pela conduta que ela alcança Benção.

Assim o padre refutou a doutrina de Setaketu. Ele os fez todos laicos, dando-lhes escudos e armas, e apontando-os como atendentes do rei, Oficiais Superiores: e assim dizem, surgiu a raça dos Oficiais Superiores [ segundo Hiuen-Tsiang, viajante e tradutor dos textos sagrados do sânscrito para o chinês, que morre em 664 A.D. depois de viajar da China para a Índia e voltar. Viagem que em si é como uma saga. ].
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Após a lição o Mestre identificou o Jataka : “ Naquele tempo Setaketu era o irmão mentiroso, o candala era Sariputra e o capelão do Rei era eu mesmo.”

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