quinta-feira, 16 de julho de 2009

328 Buddha e Sammillabbhasini

328
“Por quê verteria...etc.” - Esta história foi contada pelo Mestre enquanto vivia em Jetavana sobre um certo fazendeiro que perdeu a esposa. Com a morte dela parou de fazer as obrigações da fazenda, de comer e de lavar-se. Tomado de tristeza vagava pelo cemitério lamentando-se, enquanto sua predestinação a entrar no Primeiro Caminho brilhava como um halo sobre sua cabeça. O Mestre, cedo certa manhã, colocando seus olhos no mundo e contemplando o fazendeiro disse, “A não ser eu, ninguém poderá remover a tristeza deste homem e conceder-lhe o poder de entrar no Primeiro Caminho. Serei seu refúgio.” Então quando voltou da coleta e comeu sua comida, tomou um padre assistente e foi para a porta da casa do fazendeiro. E ele quando escutou que o Mestre chegava foi ao seu encontro, e com outros sinais de respeito sentou-o num lugar prescrito e sentando ao seu lado o saudou.
O Mestre perguntou, “Por quê estais em silêncio ?”
“Senhor Reverendo,” ele respondeu, “choro por ela.”
O Mestre disse, “Irmão Leigo, aquilo que é quebrável quebra-se, mas quando isto acontece, não deve-se chorar. Sábios antigos, quando perderam a esposa, sabiam desta verdade, e portanto não choraram.” E assim ao seu pedido, o Mestre contou uma velha história.
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A velha lenda será relata nos jātakas 443 e 458. Segue aqui um pequeno sumário dela. Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, o Bodhisatva nasceu numa família brahmin. E quando cresceu, estudou todas as artes em Takkasilā e então retornou a seus pais. Neste jātaka o Grande Ser torna-se um jovem santo estudante. Então seus pais dizem que procurarão uma esposa para ele.
“Não tenho desejo de vida casada,” disse o Bodhisatva. “Quando vocês morrerem, adotarei a vida religiosa de asceta.”
E sendo importunado bastante por eles, faz um imagem de ouro [N. do tr.: lembra-se aqui a história de Kasyapa fazendo a própria esposa para gerar uma descendência (Mahabharata); ou à costela de Adam moldada em sonho; ou Pandora e Epimeteu] e diz, ‘Se vocês descobrirem uma moça como esta, tomarei-a por esposa.’ Seus pais mandaram mensageiros com escolta, colocarem a imagem de ouro em uma carroça coberta e irem na busca através dos campos da Índia, até encontrarem uma jovem garota brahmin igual, e quando encontrassem dessem a imagem de ouro em troca, e trouxessem de volta a garota com eles. Bem, nesta época um certo homem santo passando do mundo de Brahma nasceu novamente na forma de uma jovem garota numa cidade do reino de Kāsi, numa casa de um brahmin rico, e o nome dado a ela foi Sammillabhāsini [Largos Olhos] . Na idade de 16 ela era graciosa e bela, como uma Apsara, dotada de todos os traços de beleza feminina. E desde que nenhum pensamento mau nem foi por ela sugerido pelo poder da paixão pecadora, ela era pura perfeitamente. Assim os homens trouxeram a imagem dourada vagando até atingirem esta vila. Os habitantes vendo a imagem perguntaram, “Por que Samilla-bhāsini, a filha de tal e tal brahmin, está colocada lá?” Os mensageiros ouvindo isto encontraram a família brahmin, e escolheram Sammila-bhāsini para o dote de princesa. Ela manda uma mensagem a seus pais dizendo, “Quando vocês morrerem, adotarei a vida religiosa; não desejo o estado de casada.” Eles dizeram, “’Cê ‘tá pensando o quê, ô garota ?” E aceitaram a imagem de ouro e enviaram a filha com um grande cortejo. A cerimônia de casamento aconteceu contra o desejo de ambos o Bodhisatva e Sammilabhāsini. Apesar de partilharem o mesmo quarto e a mesma cama eles não olhavam um para outro com olhos de paixão pecadora, e habitavam juntos como dois homens santos ou duas mulheres santas.
Logo o pai e a mãe do Bodhisatva morrem. Ele realiza os ritos fúnebres e chamando Sammilabhāsini, diz a ela, “Querida, minha família é rica e a sua também. Tome toda esta riqueza e viva uma vida de família. Tornar-me-ei asceta.”
“Senhor,” ela respondeu, “se você tornar-se asceta também eu me tornarei. Não posso abandonar-te.”
“Venha então”, ele disse. E assim doando toda a riqueza e jogando para cima toda a fortuna mundana como se fora um pedaço de flegma, viajaram para o Himālaia e ambos adotam a vida asceta. Lá, depois de muito viverem de raízes e frutos eles por fim desceram dos Himālaias procurando sal e vinagre, e gradualmente chegaram a Benares, e ficaram no jardim real. [o jātaka 443 é o encontro com o rei]. E enquanto viviam lá, esta jovem e delicada mulher asceta, por comer arroz misturado, foi atacada de disenteria e sem ser capaz de tomar medicamento, ficou fraca. O Bodhisatva na hora da coleta a tomou e levou para a porta da cidade e lá a deitou num banco em uma certa sala enquanto ele mesmo foi para a coleta. Logo que sai ela expira. As pessoas, contemplando a grande beleza da mulher asceta, juntaram-se ao redor, chorando e lamentando. O Bodhisatva após a coleta retornou, e ouvindo de sua morte disse, “Aquilo que tem a qualidade da dissolução, dissolve. Todas as existências impermanentes são assim.” Com estas palavras sentou no banco em que ela estava e comendo a mistura da comida depois lavou a boca. As pessoas juntaram em volta dele e disseram, “Senhor Reverendo, esta mulher asceta era o quê para você?”
“Quando eu era leigo,” ele respondeu, “ela era esposa.”
“Santo Senhor, “ eles disseram, “enquanto lamentamos e choramos e não controlamos nossos sentimentos, por quê você não chora ?”
O Bodhisatva disse, “Enquanto ela vivia, ela me pertencia de algum modo. Nada tem aquela que foi para outro mundo: ela passou para o poder de outros. Por que choraria ?” E ensinando ao povo a Verdade, recitou estas estrofes:

Por quê verteria lágrimas por ti,
Linda Sammillabhāsini ?
Passada à maioria dos mortos
Estais assim perdida para mim.

Daí devem frágeis homens lamentarem
O que a eles é apenas emprestado ?
Ele também carrega seu sopro de morte
A cada hora, a morte priva.

Esteja em pé, sentando então,
Movendo-se, descansando, o que seja,
Num piscar de olhos,
Num momento, próxima a morte.

Vida conto como coisa instável,
Inevitável a perda de amigos.
Agrade a tudo que vive,
A dor não deve sobreviver em ti.

Assim o Grande Ser ensinou a Verdade, ilustrando por estas quatro estrofes a impermanência das coisas. O povo realizou os ritos fúnebres da mulher asceta. E o Bodhisatva retornou ao Himālaias, e entrando no conhecimento mais alto que surge da meditação mística foi destinado a nascer no mundo de Brahma.
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O Mestre tendo terminado sua lição, revelou as Verdades e identificou o Jataka :- Na conclusão das Verdades, o fazendeiro atingiu a fruição do Primeiro Caminho :- “Naquele tempo a mãe de Rāhula era Sammillabhāsini e eu mesmo era o asceta.”

[ O jātaka 458 o encontro deles no futuro]

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