terça-feira, 5 de maio de 2009

283 Ancião Dhanuggaha Javali Carpinteiro




                         Imagem de Vishnu Vahara Javali magnificamente esculpida em Khajuraho.

283
“O melhor, o melhor sempre...etc.” - Esta história o Mestre contou em Jetavana sobre o ancião Dhanuggahatissa. Mahakosala, o pai do rei Pasenadi, quando casou sua filha, a Senhora de Kosala, com o rei Bimbisara, deu uma cidade de Kasi, produtora de uma receita de cem mil, para gasto em banhos e perfumaria. Quando Ajatasatru assassinou o rei seu pai, a senhora de Kosala morreu de tristeza. Então pensou rei Pasenadi, “Ajatasatru matou seu pai, minha irmã morreu, simpática com a desgraça do marido dela ; não darei a cidade da região de Kāsi a um parricida.” Assim recusou deixá-la com Ajatasatru. Por causa desta cidade havia guerra entre estes dois de tempos em tempos.

Ajatasatru era feroz e forte e Pasenadi era um homem muito velho, de modo que era repetidamente vencido e o povo de Mahakosala geralmente conquistado. O rei então perguntou a seus cortesãos, “Somos vencidos repetidamente ; o quê deve ser feito ?” “Meu senhor,” eles disseram, “os reverendos padres são hábeis em encantamentos. Devemos escutar as palavras dos Irmãos que moram no mosteiro de Jetavana.” O rei então despachou mensageiros, pedindo a eles que escutassem as conversas dos Irmãos em momento apropriado. Bem naquele momento haviam dois Anciãos  vivendo numa cabana de folhas próxima ao mosteiro cujos nomes eram Ancião Utta e Ancião Dhanuggahatissa. Dhanuggahatissa dormiu durante a primeira e a segunda vigília noturna ; e levantando-se na última vigília, quebrou alguns gravetos, acendeu um fogo, e sentando-se no chão disse, “Utta, meu amigo !” “Que é, amigo Tissa ?” “Não estais dormindo ?” “Agora que estamos acordados, que fazer ?” “Levante-se e sente-se aqui do lado.” Assim ele fez e começaram a conversar.

 “Aquele barrigudo estúpido de Kosala não consegue ter um jarro cheio de arroz cozido sem estragá-lo ; como nada sabe de planejar uma guerra. Está sempre sendo derrotado e forçado a pagar.” “Mas o quê ele devia fazer ?” Justo neste momento os mensageiros permaneciam escutando a conversa deles.

 Ancião Dhanuggahatissa discutia a natureza da guerra. “Guerra, Senhor,” disse ele, “consistem em três tipos : o exército lótus, o exército roda e o exército vagão [ n. do tr.: O formato 'roda' explica-se por si-mesmo : o 'vagão' era uma falange em ponta de cunha ; a 'lótus', “é igualmente extensa para todos os lados e perfeitamente circular, o centro sendo ocupado pelo rei.” Bühler, S.B.E. Vol. 25 pg. 246]. Se aqueles que desejam capturar Ajatasatru postarem guarnições em dois fortes nas montanhas e fingirem que estão fracos, e vigiarem até que eles estejam no meio das montanhas, barrarem a passagem deles, pularem dos dois fortes e atacarem pela frente e pelas costas, gritando alto, rapidamente os pegarão como peixe em terra firme, como sapo em mão fechada ; e assim serão capazes de segurá-lo.” Tudo isto os mensageiros contaram a seu rei. O rei fez com que se tocasse o tambor para o ataque, arrumou as tropas na formação vagão e prendeu Ajatasatru vivo ; sua filha, Princesa Vajira, deu em casamento ao filho de sua irmã e a dispensou com a cidade da região de Kasi como seu dinheiro de banho e perfumaria.

Estes acontecimentos tornaram-se conhecidos na Irmandade. Um dia, eles estavam todos falando sobre isto no Salão da Verdade ; “Amigo, escutei que o rei de Kosala conquistou Ajatasatru através das instruções de Dhanuggahatissa.” O Mestre entrou ; “Sobre o quê conversam sentados aí agora, Irmãos ?” perguntou ele. Eles disseram a ele. Ele disse, “Esta não é a primeira vez que Dhanuggahatissa foi inteligente em discursar sobre guerra” : e contou a eles um conto do mundo antigo.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva veio à vida como espírito d'árvore. Naquele tempo haviam alguns carpinteiros estabelecidos em uma vila próxima a Benares. Um deles, errando na floresta para catar lenha, encontrou um jovem javali caído em um poço, o qual pegou e levou para casa para cuidar. Ele cresceu e ficou grande com presas em curva, sendo uma criatura de bons modos. Porque o carpinteiro cuidava dele ficou conhecido como Javali do carpinteiro. Quando o carpinteiro estava cortando um'árvore, o javali costumava virá-la com seu focinho e com seus dentes buscava a machadinha, a enxó, o cinzel, a marreta e esticava a linha de medir até o final. O carpinteiro temia que alguém pudesse comê-lo ; e assim o pegou e o levou para a floresta. O Javali corria na floresta, buscando um lugar seguro e agradável para viver ; por fim espreitou uma grande cova em um lado da montanha, com muitos bulbos, raízes, frutas, um lugar agradável para viver. Algumas centenas de outros javalis o viram e aproximaram-se dele.

Disse ele, “Vocês são justamente o que eu procurava e aqui encontrei vocês. Este me parece um lugar adequado ; e aqui pretendo viver agora com vocês.”
“Um bom lugar certamente é,” eles disseram, “mas perigoso”.
“Ah,” disse ele, “assim que vi vocês, cogitei como podia ser que aqueles que moravam em um lugar com tanta abundância pudessem ser magros na carne e no sangue. Do que vocês têm medo ?”
“Há um tigre que vem de manhã e todo aquele que ele vê ele pega e leva.”
“Isto acontece sempre, ou só uma vez ou outra ?”
“Sempre.”
“Quantos tigres são ?”
“Só um.”
“O quê – um só é muito para todos vocês ?”
“Sim, Senhor.”
“Vou pegá-lo, se vocês fizerem o quê eu disser a vocês. Onde o tigre vive ?”
“Naquela montanha lá.”

Então à noite ele instruiu os Javalis e os preparou para a guerra ; explicando a eles a ciência. “Guerra pode ser de três tipos – exército de lótus, exército de roda e exército de vagão :” e os arrumou na formação de lótus. Ele conhecia um lugar vantajoso ; e assim, disse, “Aqui devemos fazer nossa guerra.” As mães com seus filhotes de leite estabeleceu no meio ; ao redor destes colocou as porcas sem filhotes ; ao redor destas, os javalis jovens ; ao redor destes, os menos jovens ; ao redor destes, todos os que tinham presas crescidas ; ao redor destes, os javalis prontos para a guerra, fortes, poderosos, em dezenas e vintenas ; assim postando-os em ranks, fileiras. Diante de sua própria posição fez cavar um buraco redondo ; atrás, um poço afundando gradualmente, no formato de uma peneira. Enquanto se movimentava ao redor entre eles, seguido por sessenta ou setenta Javalis, pedindo-lhes que fossem corajosos, surge aurora.

O Tigre acordou. “Agora é hora !” pensou ele. Trotou até avistá-los ; então parou ainda acima no plateau, observando a multidão de Javalis. “Devolvam o olhar !” gritou o Javali do carpinteiro, com um sinal para os outros. Todos eles encararam. O Tigre abriu a boca e respirou fundo : os Javalis fizeram o mesmo. O Tigre relaxou : o mesmo fizeram os Javalis. Então o que quer que o Tigre fizesse, os Javalis faziam igual.

“Por quê isto ?!” cogitava o Tigre. “Eles costumam sair correndo assim que me vêem – na realidade ficam com medo até de correr. Agora, longe de correr, levantam-se contra mim ! O que quer que faço, eles imitam. Há um sujeito ali em posição de comando : é ele que organizou a turba. Bem, não vejo como levar a melhor sobre eles.” E ele girou e voltou para sua cova.

Bem, havia um eremita shamam, que costumava pegar uma parte da caça do Tigre. Desta vez o Tigre retornou de 'mãos vazias'. Notando isto, o eremita repetiu a seguinte estrofe.

O melhor, o melhor sempre colocas diante
Quando sais, o javali selvagem caçando.
Agora sem nada, tomado de tristeza,
Ho-je onde está a força que tinhas antes ?

Interpelado assim, o Tigre repetiu outra estrofe :

Normalmente eles correriam em confusão
Procurando suas tocas, tomados de pânico.
Mas agora eles grunhem em ranks compactos :
Invencíveis, eles permanecem me encarando.

“Oh, não fique com medo deles !” incentivou o eremita. “Um rugido e um pulo os aterrorizarão e os colocarão para fora de si-mesmos em confusão.” O Tigre rendeu-se a esta insistência. Arranjando coragem retornou e permaneceu no plateau.

Javali Carpinteiro ficou entre os dois poços. “Veja Meste ! Lá está o tratante novamente !” gritaram os Javalis. “Ah, nada temam,” disse ele, “o apanhamos agora.”

Com um rugido o Tigre saltou sobre o Javali Carpinteiro. No mesmo instante que ele saltou, o Javali esquivou-se e caiu direto no poço redondo. O Tigre não pode parar mas tombou cada vez mais nas mandíbulas do outro poço, que ficava bem estreito. Saltou para fora o Javali do seu buraco e rápido como um raio correu com suas presas para as pernas do Tigre, rasgando-as nos rins, enterrando suas presas na carne macia e ferindo também a cabeça dele. Então lançou-se para fora do poço, gritando alto - “Aí está o inimigo para vocês !” Aqueles que chegaram primeiro tiveram tigre para comer ; mas aqueles que chegaram depois ficaram cheirando a boca dos outros e perguntando qual era o gosto de carne de tigre !

Mas os Javalis ainda estavam ansiosos. “Qual o problema agora ?” perguntou nosso Suíno, que notava o movimento deles.

“Mestre,” disseram eles, “tudo bem matar um tigre mas o eremita shamam pode trazer dez tigres mais !”
“Quem é este ?”
“Um asceta ruim.”
“Um tigre eu matei ; vocês acham que um homem pode me machucar ? Vamos e nós o pegaremos.” Então todos partiram.

Bem, o homem cogitava por quê o Tigre demorava tanto em voltar. Poderiam os Javalis terem-no pego ? Ele pensava. Por fim passou a querer encontrá-lo no caminho ; e enquanto ia, lá vinham os Javalis ! Ele catou seus pertences e saiu fora correndo. Os Javalis romperam atrás dele. Ele jogou fora seus entulhos e com toda a velocidade subiu em uma figueira.

“Bem, Mestre, ele está no alto !” gritou a horda. “O homem subiu numa árvore !”
“Que árvore ?” perguntou o líder.
“Uma figueira.” eles responderam.
“Ah, muito bem,” disse o líder. “Os bacurinhos devem trazer água, os javalis jovens cavem ao redor da árvore, os com presas rasguem as raízes e o resto cercam-na e vigiem.” Eles fizeram suas várias tarefas como ele ordenou ; ele enquanto isso arremetia um raiz grossa, - era como um golpe de machado ; e com este golpe único ele derrubou àrvore no chão. Os Javalis que esperavam o homem, derrubaram-no e o fizeram em pedaços, deixando os ossos limpos em um instante !

Depois eles colocaram o Javali Carpinteiro no toco d'árvore. Encheram a tigela, concha, do homem morto com água e aspergiram o javali, consagrando-o rei deles ; uma jovem porca, eles consagraram como sua Consorte.

Esta, diz a lenda, é a origem do costume ainda observado. Quando o povo unge um rei nos dias de hoje, ele é colocado em uma bela cadeira de madeira de figueira e aspergido com três conchas.

Um espírito que habitava na floresta viu esta maravilha. Aparecendo diante dos Javalis no nó do seu tronco de árvore, ele repetiu a terceira estrofe :-

Honra a todas as tribos sejam dadas !
Uma união maravilhosa realmente vejo !
Como javalis de presas venceram o tigre
Com força e conjunto de presas unidas !
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Após este discurso, o Mestre identificou o Jataka : “Dhanuggaha o Ancião era o Javali Carpinteiro e eu mesmo era o espírito d'árvore.”





quinta-feira, 30 de abril de 2009

282 A não-violência

       
                             Imagem de stupa em Taxila, Takkasilla, no Paquistão.

282
“É melhor que saibam...etc.” - Esta história o Mestre contou em Jetavana, sobre um cortesão do rei de Kosala. Este homem era muito útil ao rei, nos foi dito, e fazia tudo que devia ser feito. Porque era muito útil, o rei muito o honrava. Os outros ficaram com ciúmes e tramaram difamá-lo e o caluniaram. O rei acreditou no que falaram e sem inquirir sua culpa o amarrou em cadeias, grilhões, apesar de virtuoso e inocente, e o atirou na prisão. Lá ele permaneceu totalmente isolado ; mas devido a sua virtude, poderes, ele tinha paz na mente e com a mente em paz ele entendeu as condições da existência e atingiu a fruição do Primeiro Caminho. Logo logo o rei descobriu que ele era des-culpado, sem culpa, e soltando seus grilhões o honrou mais que antes. O homem desejou prestar seu respeito ao Mestre ; e tomando flores e perfumes, foi ao mosteiro e fez reverência ao Buddha e sentou respeitosamente de um lado. O Mestre falava agradavelmente com ele. “Nós ouvimos sobre o infortúnio que aconteceu contigo,” disse ele. “Sim, senhor, mas transformei minha má sorte em boa ; e enquanto sentado na prisão, produzi a fruição do Primeiro Caminho.” “Bom amigo,” disse o Mestre, “não foste o único que transformaste mal em bem ; pois sábios em tempos antigos transformaram mal em bem como tu fizeste.” E ele contou um conto do mundo antigo.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu como filho da Rainha. Ele cresceu e foi educado em Takkasilā ( Taxila ) ; e com a morte do pai tornou-se rei e manteve as dez regras reais : fazia ofertas, praticava a virtude e guardava dias santos.

Bem, um dos seus cortesãos fez intriga no meio das esposas do rei. Os empregados notaram e contaram ao rei que tal e tal estava fazendo intriga. O rei descobriu a verdade sobre o assunto e mandou chamá-lo. “Nunca mais mostre-se diante de mim novamente,” disse ele, e o baniu. O homem partiu para a corte do rei vizinho e então tudo aconteceu como descrito acima no Jataka 51. Aqui também este rei o testou três vezes e acreditando na palavra do cortesão foi com um grande exército para diante de Benares com intenção de tomá-la. Quando foi revelado aos chefes militares do rei de Benares, quinhentos em número, disseram ao rei,
“Tal e tal rei vem para cá, devastando o campo, com intenção de tomar Benares – vamos e o capturemos !”

“Não quero nenhum reino que deva ser mantido pela violência,” disse o rei. “Não façam nada.”

O rei saqueador cercou a cidade. Novamente os cortesãos aproximaram-se do rei e disseram,
“Meu senhor, esteja atento – vamos capturá-lo !”

“Nada pode ser feito,” disse o rei. “Abram os portões da cidade.” Então, cercado por sua corte, sentou-se em pompas debaixo de um grande pavilhão.

O saqueador entrou na cidade derrubando os homens nos quatro portões e subindo ao terraço. Lá ele aprisionou o rei e todo sua corte, em grilhões amarrados e atirados na prisão. O rei, enquanto estava sentado na prisão, teve pena do saqueador e um ênstase de piedade o agitou. Devido a esta piedade, o outro rei caiu em grande tormento corporal ; ardia todo em febre como se em uma chama dupla ; e atingido por grande sofrimento, ele perguntou o que era aquilo.

Responderam, “Jogaste um rei reto na prisão, daí porque estais assim.”

Ele foi e suplicou perdão ao Bodhisatva e devolveu seu reino, dizendo, “Que seu reino seja seu mesmo. De agora em diante deixe que eu cuido de seus inimigos.” Puniu o mau conselheiro e retornou à sua cidade.

O Bodhisatva sentou em pompas sobre seu alto estrado, em roupas de festa, com sua corte ao redor ; e dirigindo-se a eles repetiu as primeiras duas estrofes :-

É melhor que saibam, a melhor parte
Será sempre a melhor coisa a ser feita.
Tratando as pessoas com gentileza no coração,
Salvei cem soldados a morte entregues.

Daí peço a vós, que a todo o mundo mostres
A graça da gentileza e da amizade querida ;
E assim não ireis sozinhos ao céu.
Ó povo de Kasi, escutes !

Deste jeito o grande Ser louvava a virtude de modo a tornar piedosa a grande multidão ; e deixando o parassol branco na grande cidade de Benares, doze léguas em extensão, retirou-se para o Himalaia e abraçou a vida religiosa.

O Mestre, em sua sabedoria perfeita, repetiu a terceira estrofe :

Estas são as palavras que eu, rei Kamsa, digo,
Eu grande legislador da cidade de Benares
Larguei meu arco, larguei meu carcás,
E realizei meu auto-conhecimento.
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Quando o Mestre terminou este discurso, identificou o Jataka : “Naquele tempo Ānanda era o rei saqueador mas o rei de Benares era eu mesmo.”

Jataka 282 = 51
“Não quero nenhum reino que deva ser mantido pela violência.”







quarta-feira, 29 de abril de 2009

281 A manga do âmago


281
“Lá cresce um'árvore ...etc.” - Esta história o Mestre contou em Jetavana sobre o Ancião Sariputra oferecer suco de manga à Irmã Bimbadevi. Quando o Supremo Buddha inaugurou o reino universal da religião, enquanto vivia num quarto em Vesali, a esposa de Gautama com quinhentas do clã Sakiya pediram iniciação e receberam iniciação e ordens plenas. Após isto as quinhentas Irmãs tornaram-se santas escutando a pregação de Nandaka. Contudo, quando o Mestre vivia próximo à Savatthi, a mãe de Rahula pensou consigo mesma, “Meu marido ao abraçar a vida religiosa tornou-se onisciente ; meu filho também tornou-se um religioso e vive com ele. Que farei eu no meio da casa ? Vou entrar nesta vida, ir para Savatthi e cuidarei do Supremo Buddha e do meu filho continuamente.” Ela então se dirigiu a um convento de freiras, entrou na ordem, foi e viveu numa cela em Savatthi, em companhia de seus professores e preceptores, contemplando o Mestre e seu amado filho. O noviço Rahula vinha e via sua mãe.

Um dia, a Irmã estava aflita com flatulência ; e quando seu filho veio vê-la, ela não pode levantar-se para vê-lo, mas outros vieram e disseram a ele que ela estava doente. Ele então entrou e perguntou à sua mãe, “O quê você gostaria de tomar ?” “Filho,” disse ela, “em casa esta dor costuma ser curada com suco de manga com açúcar ; mas agora vivemos de ofertas e onde o conseguiremos ?” Disse o noviço, “Conseguirei para você,” e partiu. Bem, o preceptor de sua reverência Rahula era o Capitão da Fé ( Sariputra ), seu professor era o grande Moggaallana, seu tio era o Ancião Ānanda e seu pai era o Supremo Buddha : ele tinha então grande fortuna, sorte. Contudo ele não procurou nenhum outro além de seu preceptor ; e após saudá-lo, permaneceu diante dele com olhar triste. “Por quê pareces triste, Rahula ?” perguntou o Ancião. “Senhor,” ele respondeu, “minha mãe está doente, com gazes.” “O quê ela deve tomar ?” “Suco de manga com açúcar faz bem a ela.” “Está certo, vou conseguir um pouco ; não se preocupe com isto.” Então dia seguinte ele levou o rapaz à Savatthi e sentando-o numa sala de espera, subiu para o palácio. O rei de Kosala pediu ao Ancião que se sentasse. Na mesma hora o jardineiro trouxe uma cesta de mangas doces maduras para comer. O rei tirou a casca, polvilhou açúcar, esmagou ele mesmo e encheu a tigela do Ancião. O Ancião retornou à sala de espera e passou o suco para o noviço, pedindo que entregasse a mãe dele ; e assim ele o fez.

Logo que a Irmã comeu, a dor dela curou. O rei também enviou mensageiros, dizendo, “O Ancião não sentou aqui para comer o suco de manga. Vão e descubram se ele o deu para alguém.” O mensageiro foi até o ancião, inteirou-se do caso e então retornou para contar ao rei. Pensou o rei : “Se o Mestre retornasse para a vida mundana, ele seria um monarca universal ; o noviço Rahula seria seu tesouro, o Príncipe Coroado, a santa Irmã seria seu tesouro a Imperatriz e todo o universo pertenceria a eles. Devo ir e ajudá-los. Agora que vivem bem aqui do lado, não há tempo a perder.” Então a partir daquele dia ele continuamente oferecia suco de manga para a Irmã.

Tornou-se sabido entre os Irmãos como o Ancião ofereceu suco de manga para a santa Irmã. E um dia ficaram conversando no Salão da Verdade : “Amigo, escutei que Ancião Sariputra ajudou Irmã Bimbādevi com suco de manga.” O Mestre entrou e perguntou, “O que vocês conversam aí ?” Quando eles disseram - “Esta não é a primeira vez, Irmãos, que a mãe de Rahula foi ajudada com suco de manga pelo Ancião ; o mesmo aconteceu antes;” e ele contou a eles um conto do mundo antigo.
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Certa vez, quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu em uma família brahmin que vivia numa cidade da região de Kāsi. Quando cresceu foi educado em  Takkasilā ( Taxila ), estabeleceu-se em vida familiar e com as mortes dos pais, abraçou a vida religiosa. Após isto, permaneceu na região do Himalaia, cultivando as Faculdades e as Consecuções. Um grupo de sábios reuniu-se ao redor dele e ele se tornou professor deles.

Ao término de um longo tempo, ele desceu das montanhas para conseguir sal e temperos e no curso do seu caminhar chegou em Benares, onde fixou domicílio em um parque. E com a glória da virtude desta companhia de santos homens o palácio de Sakra sacudiu, balançou. Sakra refletiu e percebeu o quê era. Pensou ele, “Vou danificar o domicílio deles ; então sua estadia será perturbada ; ficarão muito estressados para ter mente tranquila. E assim ficarei confortável novamente.” Enquanto considerava como fazer isto, encontrou um plano. “Entrarei na câmara da rainha principal, justo na vigília da meia-noite, e pousado nos ares, direi – 'Senhora, se comeres 'manga do âmago', conceberás um filho, que se tornará monarca universal.' Ela falará ao rei e ele pedirá manga do parque : farei que todos os frutos tenham desaparecido. Dirão ao rei que não há nenhuma e então quando ele perguntar quem comeu, eles dirão 'Os ascetas'.” Assim justo à meia-noite, ele apareceu no quarto da rainha e plainando nos ares, revelou sua divindade e conversando com ela, repetiu as primeiras duas estrofes :-

Lá cresce uma árvore, com divinos frutos ;
As pessoas a chamam a 'mais do âmago' : e se uma mulher
Grávida, dela comer, logo
Dará à luz alguém com feudo da larga terra.

Senhora, és Rainha poderosa realmente ;
O Rei, seu marido, a ama e quer.
Peça-o que procure a manga que tu necessitas,
E ele a fruta 'Mais do âmago' trará aqui.

Estas estrofes Sakra recitou para a rainha ; e então dizendo a ela que se cuidasse , não se demorasse e contasse o problema ao rei ela mesma, ele a encorajou e voltou para seu próprio lugar.

Dia seguinte, a rainha jazia, como se doente estivesse, mas dava instruções a suas empregadas. O rei sentado em seu trono, debaixo do parassol branco, olhava a dança. Não vendo sua rainha, ele perguntou a uma empregada onde ela estava.
“A rainha está doente,” respondeu a garota.
Então o rei foi vê-la ; e sentando ao seu lado, bateu nas costas dela e perguntou, “Qual o problema, senhora ?”
“Nada,” disse ela, “é que tenho desejo de uma coisa.”
“Qual o seu desejo, senhora ?” ele perguntou novamente.
“Manga do âmago, meu senhor.”
“Onde existe tal coisa como manga do âmago ?”
“Não sei o quê é manga do âmago ; mas sei que morrerei se não comer uma.”
“Está certo, conseguiremos uma para você ; não se preocupe com isto.”

Deste modo o rei a consolou e saiu. Sentou no sofá real e mandou chamar os cortesãos. “Minha rainha está com um desejo grande por manga do âmago. O quê faremos ?” disse ele.

Alguém respondeu, “Manga do âmago é uma que cresce entre duas outras. Envie alguém ao seu parque e encontre uma manga que cresça entre duas outras ; colha este fruto e que ele seja dado à rainha.” Assim o rei enviou homens que fizessem isto.

Mas Sakra com seu poder fez com que todos os frutos desaparecessem, como se tivessem sido comidos. Os homens que buscavam as mangas, procuraram por todo o parque e não encontraram nenhuma manga ; e voltaram para o rei e disseram que mangas não haviam nenhuma.
“Quem comeu as mangas ?” perguntou o rei.
“Os ascetas, meu senhor.”
“Dêm pauladas nos ascetas e os expulsem para fora do parque !” ordenou. O povo escutou e obedeceu : o desejo de Sakra foi realizado. A rainha jazia, desejosa de manga.

O rei não conseguia pensar em o quê fazer. Reuniu os cortesãos e os brahmins e perguntou a eles : “Vocês sabem o que é manga do âmago ?”

Disseram os brahmins : “Meu senhor, manga do âmago é uma porção dos deuses. Cresce no Himalaia, na Gruta Dourada. Assim aprendemos com a tradição imemorial.”

“Bem, quem pode ir lá e pegá-la ?”

“Um ser humano não pode ir ; devemos enviar um papagaio jovem.”

Naqueles dias havia um excelente jovem papagaio na família do rei, tão grande quanto o cubo da roda da carruagem dos príncipes, forte, inteligente e cheio de expedientes astuciosos. Este papagaio o rei enviou e deste modo se dirigiu a ele,
“Querido papagaio, te dei um bom bocado : vives em um gaiola dourada ; comes grãos doces em um prato dourado ; tens água com açúcar para beber. Há algo que quero que faças para mim.”
“Fale, meu senhor,” disse o papagaio.
“Filho, minha rainha tem desejo de manga do âmago ; esta manga cresce no Himalaia, na Montanha Dourada ; ela é uma porção dos deuses, nenhum ser humano pode ir lá. Deves trazer o fruto de lá.”

“Muito bem, meu rei, eu irei,” disse o papagaio. Então o rei deu a ele grão doce para comer em um prato dourado e água com açúcar para beber ; e o ungiu debaixo das asas com óleo refinado cem vezes ; então o tomou com ambas as mãos e em pé em uma janela, o soltou em vôo.

O papagaio, com a incumbência, mandado, real, voou nos ares, acima dos caminhos humanos, até encontrar alguns papagaios que moravam na primeira cadeia de montanhas do Himalaia. “Onde está a manga do âmago ?” perguntou a eles ; “digam-me o lugar.”

“Não sabemos,” eles disseram, “mas os papagaios na segunda cadeia de montanhas saberão.”

O papagaio escutou e voou para a segunda cadeia. Após esta ele seguiu para a terceira, quarta, quinta e sexta. Lá também os papagaios disseram, “Não sabemos, mas aqueles que vivem na sétima cadeia saberão.” Assim ele prosseguiu para lá e perguntou onde àrvore da manga do âmago crescia.
“Em tal e tal lugar, na Montanha Dourada,” disseram.

“Venho por causa do fruto dela,” ele disse, “guiem-me até lá, e obtenham o fruto para mim.”

“Ela é parte do rei Vessavana. É impossível chegar próximo dela. Toda àrvore das raízes até em cima está cercada com sete teias de aço ; ela é guardada por milhares de milhões de duendes Kumbhanda ; se vêem alguém, ele está arruinado. O lugar é como o fogo da dissolução e o fogo do inferno. Não peça tal coisa !”

“Se não vão comigo, então descrevam o lugar para mim.” ele disse.

Deste modo disseram a ele para seguir tal e tal caminho. Ele escutou cuidadosamente as instruções deles. Ele não se mostrava de dia ; mas ao final da noite, quando os duendes vão dormir, ele se aproximou d'árvore e começou delicadamente a subir por uma de suas raízes, quando clink ! Caiu a teia de aço – os duendes acordaram – viram o papagaio e o pegaram, gritando, “Ladrão !” Depois discutiam o que seria feito com ele.

Um falou, “Vou atirá-lo dentro da minha boca e enguli-lo !”

Falou outro, “Vou esmagá-lo e amassá-lo com minhas mãos e espalhá-lo em pedaços !”

Disse um terceiro, “Vou dividi-lo em dois e cozinhá-lo em carvão em brasa e comê-lo !”

O papagaio escutava-os deliberarem. Sem qualquer medo ele se dirigiu a eles, “Pergunto, Duendes, vocês são homens de quem ?”

“Pertencemos ao rei Vessavana.”

“Bem, tens um rei como mestre e eu tenho um outro também. O rei de Benares me enviou aqui para buscar o fruto d'árvore da manga do âmago. Lá e então ofereci minha vida ao meu rei e aqui estou. Aquele que perde sua vida pelos pais ou mestre nasce de uma vez no céu. Portanto passarei de uma vez desta forma animal para o mundo dos deuses !” e ele repetiu a terceira estrofe :-

Qualquer que seja o lugar que atingem
Aqueles, que com auto-anulação heroica,
Esforçam-se com todo zelo para alcançar o objetivo de seu mestre -
A este mesmo lugar logo terei acesso.

Deste jeito ele discursava, repetindo esta estrofe. Os duendes escutaram e ficaram agraciados de coração. “Esta é uma criatura reta,” eles disseram, “não devemos matá-lo – deixe-o ir !” Assim o deixaram sair e disseram, “Dizemos, Papagaio, estais livre ! Saia incólume de nossas mãos !”

“Não me deixem voltar de mãos vazias,” disse o papagaio : “dêm-me uma fruta d'árvore !”

“Papagaio,” eles disseram, “não é de nossa alçada dar frutos desta árvore. Todos os frutos desta árvore estão marcados. Se houver um fruto danificado, perdemos nossas vidas. Se Vessavana estiver irado e nos olhar apenas uma vez, mil duendes são dissolvidos e espalhados como ervilhas tostadas saltando em uma chapa quente. Portanto não podemos te dar nenhuma. Mas te diremos um lugar onde podes conseguir algumas.”

“Não me importa quem dê,” disse o papagaio, “mas o fruto preciso conseguir. Digam-me onde posso obtê-lo.”

“Em um dos tortuosos caminhos da Montanha Dourada vive um asceta chamado Jotirasa, que guarda o fogo sagrado em uma cabana com teto de sapê, chamada Kañcana-patti ou Folha dourada, a favorita de Vessavana ; e Vessavana envia a ele constantemente quatro frutos da árvore ; vá até ele.”

O papagaio pediu licença e foi até o asceta ; ele o saudou e sentou em um dos lados. O asceta perguntou,
“De onde viestes ?” “Do rei de Benares.” “Por quê viestes ?”
“Mestre, nossa Rainha está com um grande desejo de manga do âmago e por isto eu vim. Os duendes entretanto não me deram nenhuma mas me enviaram até ti.”

“Sente-se, e terás uma,” disse o asceta. Vieram então as quatro que Vessavana costumava enviar. O asceta comeu duas delas deu uma para o papagaio comer, e quando esta já estava digerida ele pendurou a quarta numa corda e amarrou ao redor do pescoço do papagaio e o deixou partir - “Vá agora !” disse ele. O papagaio voou de volta e a deu a Rainha. Ela comeu e satisfez o desejo mas apesar de tudo não teve filho.
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Quando o Mestre terminou este discurso, identificou o Jataka com estas palavras : “Naquele tempo a mãe de Rahula era a Rainha, Ānanda era o papagaio, Sariputra era o asceta que deu a manga do âmago mas o asceta que vivia no parque era eu mesmo.”








terça-feira, 28 de abril de 2009

280 Sem dúvida o rei...etc.


280
“Sem dúvida o rei ... etc.” - Esta história o Mestre contou em Jetavana sobre um que destruía potes, cestas. Em Savatthi, nos é dito, um certo cortesão convidou o Buddha e sua companhia e os fez sentar em seu parque. Enquanto ele distribuía (as coisas) entre eles, durante a refeição, disse, “Que aqueles que desejarem andar pelo parque, façam isto.” Os Irmãos andavam pelo parque. Naquele momento o jardineiro havia subido numa árvore com folhas e dizia, apanhando algumas folhas largas, “Esta servirá para flores, e esta para frutos,” fazendo com elas cestas, potes, os quais atirava aos pés d'árvore. Seu filho pequeno destruía-os assim que caíam. Os Irmãos contaram isto para o Mestre. “Irmãos,” disse o Mestre, “esta não é a primeira vez que este rapaz destrói as cestas : ele fez isto antes.” E contou a eles um conto do mundo antigo.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, o Bodhisatva nasceu em uma certa família de Benares. Quando ele cresceu e vivia no mundo como dono de casa, aconteceu de por alguma razão ir ao parque, onde viviam numerosos macacos. O jardineiro atirava suas cestas como descrevemos e o chefe dos macacos as destruía assim que caíam. O Bodhisatva, dirigindo-se a ele, disse, “Enquanto o jardineiro joga suas cestas, o macaco pensando que ele tenta agradá-lo, as rasgam todas,” e repetiu a primeira estrofe :-

Sem dúvida o rei das bestas é inteligente
Em fazer cestas; ele nunca
Destruiria o que é feito com tanta diligência
A não ser que pense em fazer outras.

Escutando isto o Macaco repetiu a segunda estrofe :-

Nem meu pai nem minha mãe
Nem eu mesmo poderíamos fazer outras.
O que outros fazem, despedaçamos :
Este é o jeito próprio dos macacos !

E o Bodhisatva respondeu com a terceira :-

Se isto é a natureza própria dos macacos
Qual seria a imprópria, desta criatura !
Cai fora - não importa qual
Se própria ou imprópria - as duas juntas !

e com estas palavras de censura ele partiu.
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Quando o Mestre terminou este discurso, identificou o Jataka : “naquele tempo o macaco era o garoto que destruía as cestas ; e o sábio era eu mesmo.”

segunda-feira, 27 de abril de 2009

279 Buddha bom ladrão



279
“Como o jovem no caminho...etc.”- Esta história o Mestre contou em Jetavana sobre Panduka e Lohita. Entre os Seis Heréticos, dois – Metiya e Bhummaja – viviam próximos à Rajagaha ; dois, Assaji e Punabbasu, próximos à Kitagiri, e em Jetavana próximo à Savatthi os dois outros, Panduka e Lohita. Eles questionavam as matérias dispostas na doutrina ; quem quer que fossem seus íntimos e amigos, eles encorajavam dizendo, “Não és pior que estes, irmão, em nascimento, linhagem ou caráter ; se desistes de suas opiniões, eles levarão a melhor sobre você,” e dizendo este tipo de coisa eles os preveniam de deixar suas opiniões e assim polemizavam e levantavam querela e contenda. Os Irmãos contaram isto ao Abençoado. O Abençoado reuniu a Irmandade por causa disto e fez uma exposição ; e fazendo com que fossem chamados Panduka e Lohita, dirigiu-se a eles : “É verdade, Irmãos, que vocês realmente questionam certas matérias e previnem as pessoas de desistirem de suas opiniões ?” “Sim,” eles responderam. “Então,” disse ele, “o comportamento de vocês é como aquele do Homem e da Siriema;” e contou a eles um conto do mundo antigo.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu em uma certa família na cidade de Kasi. Quando cresceu, ao invés de ganhar a vida arando ou comercializando, ele reuniu quinhentos ladrões e tornou-se chefe deles, e vivia de assaltos na auto-estrada e em residências. ( Bem, os Bodhisatvas, mesmo sendo grande seres, algumas vezes tomam os bens de outros nascendo como pessoas más ; isto dizem vem de uma falha no horóscopo - [ cf. IHS dizendo ao bom ladrão na Crux : "Ainda ho-je (sexta feira mesma portanto) estarás comigo no Pardes.” ] ).
Bem, aconteceu que um fazendeiro emprestara mil dinheiros a alguém e morreu antes de recebê-lo de volta. Algum tempo depois, sua esposa, que jazia em seu leito de morte, dirigiu-se assim ao filho,
“Filho, seu pai emprestou mil dinheiros a um homem e morreu antes de pegá-lo de volta ; eu morrendo também, ele não entregará a ti. Vá, enquanto vivo, faça-o buscá-lo e devolvê-lo a você.”
Assim o filho foi e apanhou o dinheiro.

A mãe morreu ; mas amava tanto seu filho, que ela de repente reapareceu ( n. do tr. : a palavra implica uma criatura não nascida do jeito natural mas tomando forma sem necessidade de progenitores ) como uma chacal fêmea na estrada pela qual ele vinha. Naquele momento, o ladrão chefe com seu bando, descansava na estrada a espera de viajantes para saquear. E quando o filho dela apareceu na entrada da floresta, o Chacal voltava constantemente buscando pará-lo , dizendo, “Meu filho, não entre na floresta ! Há ladrões lá que te matarão e tomarão teu dinheiro !”

Mas o jovem não entendeu o quê ela dizia. “Má sorte !” disse ele, “um chacal tentando me parar no caminho !” ; e a afugentou com pedaços de pau e torrões de terra e para dentro da floresta ele foi.

E uma garça, siriema, voava em direção aos ladrões, gritando - “Aí vai um homem com mil dinheiros nas mãos ! Matem-no e pegue-no !” O jovem não sabia o quê fazia, e então pensou, “Boa sorte ! Aí está um pássaro de bom agouro ! Agora há um bom presságio para mim !” Ele o saudou respeitosamente, gritando, “Solte a voz, solte a voz, meu senhor !”

O Bodhisatva, que conhecia o significado de todos os sons, observou estes dois e pensou : “Aquele chacal lá deve ser a mãe do jovem ; de modo que ela tenta pará-lo e dizer a ele que será morto e roubado ; mas a siriema deve ser algum adversário e daí porque diz 'Mate-o e peguem o dinheiro' e o jovem não sabe o que está acontecendo e afugenta a mãe que deseja o bem dele, enquanto a garça, que deseja seu mal, ele venera, na crença que seja um simpatizante. O jovem é um tolo.”

O jovem continuou e logo logo encontrou os ladrões. O Bodhisatva o pegou e disse, “Onde você mora ?” .
“Em Benares.”
“Onde estavas ?”
“Havia mil dinheiros devidos a mim em uma certa cidade ; e lá é que eu estava.”
“Você o apanhaste ?”
“Sim, apanhei.”
“Quem te enviou ?"
"Meu pai está morto e minha mãe está doente ; ela que me enviou, porque pensa que eu não conseguiria a devolução se ela estiver morta.”
“E você sabe o quê aconteceu com sua mãe agora ?”
“Não, mestre.”
“Ela morreu após você partir ; e ela tanto te amava que ela logo se tornou um chacal e tentava te parar temendo que fosses assassinado. Ela era aquela que afugentaste. Mas a garça era um inimigo, que veio e nos disse para te matar e tirarmos teu dinheiro. És tão tolo que pensastes que tua mãe era um inimigo enquanto ela desejava teu bem e pensaste que a garça era um simpatizante quando desejava teu mal. Ela não te fez bem nenhum mas tua mãe foi muito boa contigo. Guarde teu dinheiro e cai fora !” E o deixou ir.
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Quando o Mestre terminou este discurso, repetiu as seguintes estrofes :-

Como o garoto no caminho
Considerou o chacal da floresta
Como inimigo, seu caminho a interromper,
Enquanto na realidade ela tentava ajudá-lo :
Supondo a falsa garça verdadeira amiga
Mas que planejava sua ruína :

Tal este outro aqui,
Confundiu os amigos ;
Não ganha seus ouvidos
quem bem os aconselham.

Acreditam e louvam outros -
Profetizando terrores horríveis :
Como o garoto de dias antigos
Amava a garça acima no céu.

Quando o Mestre discursou neste tema, ele identificou o Jataka : “Naquele tempo o chefe ladrão era eu mesmo.”







sexta-feira, 24 de abril de 2009

278 Buddha Búfalo




278
“Por quê você pacientemente...etc.” - Esta história o Mestre contou em Jetavana sobre um certo macaco impertinente. Em Savatthi, nos é dito, havia um macaco doméstico em uma certa família ; ele corria pelo estábulo do elefante, pendurava-se nas costas do virtuoso elefante, evacuava excrementos e andava para cima e para baixo. O elefante, sendo ambos, virtuoso e paciente, nada fazia. Mas um dia no lugar deste elefante, ficou um jovem e ruim. O macaco pensou que era o mesmo e subiu nas costas. O elefante o pegou com sua tromba, atirou ao chão e o esmagou em pedaços pisoteando. Isto foi comentado na reunião da Irmandade ; um dia eles todos começaram a falar sobre isto. “Irmão, escutaste sobre um macaco impertinente que confundiu um elefante bom por um ruim e subindo nas costas dele acabou perdendo sua vida por causa disto ?” Entrou o Mestre e perguntou, “Irmãos, o que conversam aí sentados ?” e quando disseram a ele, “Esta não é a primeira vez,” disse ele, “que este macaco impertinente comporta-se assim ; ele fez o mesmo antes :” e contou a eles um conto do mundo antigo.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu na região do Himalaia como um Búfalo. Ele cresceu grande e forte e vagava pelos montes e montanhas, picos e cavernas, por muitas florestas tortuosas.

Certa vez, enquanto seguia, percebeu uma árvore agradável e pastava debaixo dela.

Então um macaco impertinente desceu da árvore e subindo nas costas dele, evacuou excrementos ; depois segurou um dos chifres do Búfalo e balançando para baixo pelo rabo se divertia. O Bodhisatva, sendo cheio de paciência, gentileza e misericórdia, não tomou conhecimento do mau procedimento. Isto o macaco fez repetidamente.

Mas um dia, o espírito pertencente àquela árvore, em pé em cima do tronco, perguntou a ele, falando. “Me senhor Búfalo, por que aguentas a grosseria deste mau Macaco ? Faça ele parar !” e dissertando sobre o tema, repetiu os primeiros dois versos como seguem :

Por quê pacientemente resistes toda veleidade
Que este macaco danoso e egoísta causa ?

Esmague-o, transpasse-o com suas presas !
Pare-o ou mesmo as crianças mostrarão desprezo !

O Bodhisatva, escutando isto, respondeu, “Se, espírito d'Árvore, eu não suportar o mau tratamento sem atacar o nascimento, a linhagem e os poderes dele, como meu desejo se realizará ? Mas o macaco fará o mesmo com qualquer outro, pensando ser como eu. E fazendo isto com qualquer Búfalo feroz, ele o destruirá realmente. Quando algum outro o tiver matado, serei livre da dor e da culpa de sangue.” E falando isto repetiu o terceiro verso :-

Se ele trata outros como agora me trata,
Eles o destruirão ; assim serei livre.

Poucos dias depois, o Bodhisatva foi para outro lado e outro Búfalo, uma besta selvagem, foi e ficou no lugar dele. O mau Macaco, pensando ser o mesmo, subiu nas costas dele e fez como antes. O Búfalo o sacudiu para fora no chão e acertou o seu chifre no coração do Macaco e pisoteou ele até aos pedaços com seus cascos.
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Quando o Mestre terminou este ensinamento, declarou as Verdades e identificou o Jataka : “Naquele tempo o búfalo ruim era aquele que hoje é o elefante ruim, o macaco era o mesmo mas o nobre e virtuoso Búfalo era eu mesmo.”







quarta-feira, 22 de abril de 2009

277 Buddha Pombo (outro)



277
“Aqui nas montanhas...etc.” - Esta história foi contada pelo Mestre enquanto no Bosque de Bambu, sobre uma tentativa de assassinato. As circunstâncias se explicam a si mesmas.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva tornou-se um Pombo com um grande bando de pombos que vivia na floresta numa gruta nas montanhas. Lá havia um asceta, homem virtuoso, que construíra para si uma cabana próxima à fronteira da vila, não distante do lugar onde os pombos estavam e lá numa caverna nas montanhas ele vivia. A ele o Bodhisatva visitava de tempos em tempos e escutava dele coisas valiosas de se ouvir.

Após lá viver um longo tempo, o asceta foi embora ; e lá chegou um asceta shamam e lá vivia. O Bodhisatva, acompanhado do seu bando de pombos, visitava-o e o saudava respeitosamente ; passavam o dia pulando de cá p'ra lá no domicílio do eremita e ciscando comida na frente da caverna e retornavam para casa à tarde. Lá o asceta shamam viveu por mais de cinqüenta anos.

Um dia os aldeões deram a ele um pouco de carne de pombo que haviam cozinhado. Ele gostou do sabor e perguntou o quê era. “Pombo,” eles disseram. Pensou ele, “Aqui vem bandos de pombos para meu eremitério ; devo matar alguns deles para comer.”

Então conseguiu arroz e ghee, leite e cominho e pimenta e aprontou tudo ; em um canto do seu manto, escondeu um porrete e sentou na porta da cabana, caverna, olhando, esperando, os pombos chegarem.

O Bodhisatva veio, com seu bando e espiou que coisa má este asceta shamam planejava. “Aquele asceta mau lá sentado está com falsas intenções ! Talvez tenha se alimentado com alguns de nossa espécie ; vou desmascará-lo !”

Então pousou a sotavento, na direção do vento e sentiu o cheiro dele. “Sim,” ele disse, “o sujeito quer nos matar e nos comer ; não devemos nos aproximar dele ;” e voou embora com seu bando. Vendo que se mantinham a distância, o eremita pensou, “Falarei palavras melíflua, farei amizade e então o matarei e comerei !” e pronunciou as duas primeiras estrofes :-

Aqui nas montanhas, por cinqüenta e um anos,
Ó ave de penas ! os pássaros me visitam
Nada suspeitando, sem temores,
Em segurança doce !

Estes filhos dos ovos agora vejo
Voam suspeitosos para outra montanha.
Esqueceram a velha estima ?
Os mesmos pássaros são ainda ?

O Bodhisatva então deu uma parada e repetiu a terceira :-

Não somos tolos e te conhecemos;
Somos os mesmos e você também :
Planejas contra nossa vida,
Assim, herético, este temor sentimos.

“Eles me descobriram !” pensou o falso asceta. Atirou seu porrete no pássaro mas errou o alvo. “Sai fora !” disse ele - “Te perdi !”

“ Nos perdeste,” disse o Bodhisatva, “mas não perderás os quatro ínferos ! Se permaneceres aqui, chamarei os aldeões e os farei te pegarem como ladrão. Sai fora, rápido !” Deste jeito ele ameaçava o homem e voou para longe. O eremita não pode viver lá mais.
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O Professor tendo terminado este discurso, identificou o Jataka : “Naquele tempo Devadatra era o asceta ; o primeira asceta, o asceta bom, era Sariputra ; e o chefe dos Pombos era eu mesmo.”