terça-feira, 10 de junho de 2008

130 Buddha e a mulher fraca


130
“Podes comer ou se afligir...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana sobre uma mulher de Savatthi. Ela era, é dito, esposa fraca de um brahmin virtuoso e bom, que era leigo. Ela passava as noites na vadiagem ; e de dia não trabalhava nada mas fingia que estava doente e jazia na cama gemendo.

“Qual o seu problema minha querida ?” disse o marido
“Vento me atazana.”
“O quê posso trazer para você ?”
“Doces, salgadinhos, comidas gostosas, mingau de arroz, arroz cozido, azeite, etc.”

Obediente esposo fez como ela queria, e esforçava-se como um escravo por ela. Ela ficava na cama só quando o marido estava em casa ; mas logo que ouvia a porta fechar atrás dele, ela passava para os braços dos amantes.

“Minha pobre esposa não recebe vento bom,” pensou o brahmin por fim, e provido de ofertas, perfumes, flores, e semelhantes, foi ao Mestre em Jetavana. Feita obediência, permaneceu ao lado do Abençoado, que lhe perguntou por quê estava tanto tempo ausente.

“Senhor,” disse o brahmin, “Te digo que minha esposa é atazanada pelo vento e eu me esforço em supri-la de todas a iguarias possíveis. E agora ela está forte e bela mas o vento atazana ela. Foi por estar servindo minha esposa, senhor, que não tive tempo de vir aqui.”

Disse o Mestre, que sabia da fraqueza da esposa, “Ah! Brahmin, o sábio e bom de dias idos te ensinaram como curar uma mulher que sofre como sua esposa de doença de teimosia. Mas re-nascer confundiu sua memória de modo que esqueceste.”

Assim falando, ele contou a seguinte estória do passado.

-----------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu brahmin numa família muito distinta. Após formar-se em Takkasila ( Taxila ), tornou-se professor de larga fama em Benares. À ele reuniam-se como pupilos jovens kshatrias e brahmins de todas as famílias nobres e ricas. Bem, um brahmin do campo, que aprendera com o Bodhisatva os Três Vedas e as dezoito Ciências e que parara em Benares para cuidar da sua herança, veio duas ou três vezes todo dia para escutar os ensinos do Bodhisatva. E este brahmin tinha uma esposa má, mulher fraca. E tudo aconteceu como acima. Quando o brahmin explicou como não tinha tempo para escutar os ensinos do Bodhisatva, que sabia que a esposa do brahmin só fingia doença, pensou consigo mesmo, “Vou dizer a ele que remédio vai curar a criatura.” Assim disse ao brahmin, “Não busque mais doces, meu filho, colete urina de vaca e nela fermente cinco tipos de fruta etc, e deixe o pote virar pickles em cobre novo até que tudo cheire ao metal. Então pegue uma corda, vara, ou laço e vá até sua esposa, e diga a ela claramente que ou engula o remédio que você trouxe para ela, ou trabalhe para poder comer. ( E aqui você repetirá algumas linhas que te direi.) Se ela recusar o remédio, então a ameace com a corda ou vara ou laço, e puxe-a pelo cabelo um pouco. Você verá que mera ameaça a fará levantar e trabalhar. “

Assim saiu o brahmin e trouxe para a esposa a gosma preparada como o Bodhisatva mandou.
“Quem prescreveu isto ?” disse ela.
“O mestre,” disse seu marido.
“Leve embora, não beberei isto.”
“Então não beberás, né ?” disse o brahmin jovem, pegando a corda; “bem então, ou você engole este remédio ou trabalha por renda honesta.” Assim falando pronunciou esta estrofe:-

Podes comer ou se afligir; qual será?
Pois não podes os dois, cara Kosiya.

Aterrorizada com isto, a mulher Kosiya entendeu no momento em que o mestre interferia, como era impossível iludi-lo, e, levantando passou a trabalhar. E a consciência de que o mestre sabia de sua fraqueza, fê-la arrepender-se, e tornou-se tão boa quanto antes havia sido má.

------------------

(Então, terminada a estória, a esposa do brahmin, sentindo que o Todo-iluminado Buddha sabia o quê ela era, ficou tão temerosa dele que não mais pecou.)

Sua lição terminada o Mestre identificou o Jataka dizendo, “A esposa e o marido de hoje eram a esposa e o marido da estória, e eu o mestre.”


129 Buddha Rato ( II )



129
“Foi cobiça...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana sobre outro hipócrita.

--------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva era o Rei dos Ratos e morava na floresta. Bem, um fogo pegou na floresta e um chacal que não podia fugir, encostou sua cabeça em uma árvore e deixou as chamas varrê-lo. O fogo chamuscou todo seu pêlo e o deixou totalmente pelado, exceto por um tufo como um nó d'escalpo ( n. do tr. : o 'Irmão' Buddhista tonsa seu cabelo exceto por um tufo no topo, que é análoga a tonsura dos padres Católicos Romanos.) onde a coroa da cabeça ficou pressionando contra àrvore. Bebendo certa vez num rochoso lago, viu este nó no topo refletido n'água. “Achei finalmente como ir ao mercado,” pensou ele. Chegando no curso de seus vagares / vagâncias, na floresta à cova dos ratos, ele disse à si mesmo, “Vou enganar estes ratos e devorá-los;” e com este intento ficou parado junto, justo como na história anterior.

No seu caminho saindo em busca de comida, o Bodhisatva observou o chacal e, dando crédito à besta, de bondade e virtude, aproximou-se e perguntou qual era o nome dele.
“Bharadvaja ( n. do tr.: Bharadvaja era o nome de um clã de grandes Rishis, ou professores religiosos, a quem é atribuído o sexto livro do Rigveda ), Devoto (Votary) do Deus-Fogo.”
“Por quê vieste aqui ?”
“Para guardá-lo e aos seus.”
“O quê farás para guardar-nos ?”
“Sei como contar nos dedos e contarei o número de vocês de manhã e à tarde, de modo a ter certeza que os que voltam para casa à noite são os mesmos que saíram de manhã. Assim eu os guardarei.”

E conformemente, quando os ratos saíam de manhã ele ficou contando “Um dois, três;” e do mesmo modo quando voltavam de noite. E toda vez que os contava ele apanhava e comia o último. Tudo acontece como na história anterior, exceto que aqui o Rei dos Ratos virou-se e disse ao chacal, “Não é santidade Bharadvaja, Devoto do Deus-Fogo mas glutonia que adorna sua coroa com este nó no topo.” Assim dizendo, pronunciou esta estrofe:-

Foi cobiça, não virtude, que te concedeu esta crista.
Nosso número que míngua, falha em dar a conta certa ;
Já tivemos o suficiente de ti, devoto do Fogo.

-----------------

Sua lição terminada o Mestre identificou o Jataka dizendo, “Este Irmão era o chacal daqueles dias, e eu o rei dos Ratos.”


 (  Como com o Thirtankara Nathanputa, jaina, anteriormente,aqui brinca-se, com bom humor, com Bharadvaja, um grande rishi ) 



domingo, 8 de junho de 2008

128 Buddha Rato



                 
   ( imagem em pedra deste jataka em Mamalapuram / Mahabalipuram, India ) 


128
“Onde santidade...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana, sobre um hipócrita. Quando a hipocrisia do Irmão foi relatada a ele, o Mestre disse, “Esta não é a primeira vez que ele se mostra como hipócrita ; ele era justo o mesmo em tempos passados.” Então assim falando ele contou esta história do passado.

-----------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ) o Bodhisatva nasceu um rato , perfeito em sabedoria e tão grande quanto um javali jovem. Ele morava na floresta e muitas centenas de outros ratos deviam a ele seu poder.

Bem, havia um chacal perambulante que espiava esta tropa de ratos e caiu pensativo planejando como enganar e comer estes ratos. E tomou lugar ficando em pé perto da casa deles com face para o sol, cheirando o vento, e permanecendo em uma perna. Vendo isto quando fora na estrada em busca de comida, o Bodhisatva pensou ser o chacal um ser santo, e subiu até ele e perguntou seu nome.

“ 'Divinamente' é meu nome,” disse o chacal. “Por quê estais só em uma perna ?” “Porque se eu ficar nas quatro de uma vez só, a terra não suportaria meu peso. Daí porque fico em uma perna só.” “E por quê mantens a boca aberta ?” “Para tomar ar. Vivo de ar ; ele é meu único alimento.” “E por quê olhas para o sol ?” “Para venerá-lo.” “Que retidão !” pensou o Bodhisatva, e daí em diante assumiu compromisso de ir, ajudado pelos outros ratos, prestar respeito de dia e de tarde ao santo chacal. E quando os ratos estavam indo embora, o chacal apanhava e devorava o último deles, lambia os beiços, e olhava como se nada houvesse acontecido. Em conseqüência disto os ratos iam diminuindo, até que eles notaram as falhas nas filas, nos ranks, e cogitaram porque seria, perguntando ao Bodhisatva a razão. Ele não sabia porque mas suspeitando do chacal resolveu colocá-lo em teste. Então no dia seguinte ele deixou os outros ratos irem na frente e ficou ele mesmo para trás. O chacal pulou em cima do Bodhisatva que, vendo-o vir, o encarou e gritou, “Então esta é nossa santidade, tratante hipócrita !” E repetiu a estrofe seguinte:-

Onde santidade não é que cogula
Para lesar povo inocente
E encobrir traição bandida
-- A natureza do gato, vemos aí.

[ apesar da história falar de um chacal, a estrofe diz de um gato, como o Mahabharata na sua versão desta história. ]

Assim falando, o rei dos ratos pulou na garganta do chacal e mordeu sua traquéia rapidamente justo em cima da mandíbula, de modo que ele morreu. Voltaram os outros ratos em tropa e devoraram o corpo do chacal fazendo 'crunch, crunch, crunch' ;- quer dizer, os da frente o fizeram, pois falam, não sobrou nada para os de trás. E os ratos viveram felizes para sempre em paz e quietude.

----------------------

Sua lição terminada, o Mestre fez a conexão dizendo, “Este Irmão hipócrita era o chacal daqueles dias, e eu o rei dos ratos.”

 ( o encontro da imagem com seu texto ; ela, imagem, do gato & rato em desenho animado ; os jatakas em desenho animado ) 







sexta-feira, 6 de junho de 2008

127 Buddha e Kalanduka



127
“Tu te vanglorias...etc.” - Esta história foi contada pelo Mestre certa vez em Jetavana, sobre um Irmão fanfarrão. (A história introdutória e a história do passado neste caso são semelhantes àquelas de Katahaka relata acima no Jataka 125.)

------------------

Kalanduka era neste caso o nome do escravo do Tesoureiro de Benares ( Varanasi ). E quando ele fugiu e ficou vivendo vida luxurienta com a filha do mercador da fronteira, o Tesoureiro sentiu falta dele e não conseguiu descobrir onde ele estava. Então enviou um jovem papagaio de estimação para procurar pelo fugitivo. E saiu voando o papagaio em busca de Kalanduka, e procurou longe e muito, até que por fim o pássaro chegou na vila onde ele morava. E justo neste momento Kalanduka divertia-se no rio com sua esposa num barco bem provido de comidas finas e de flores e perfumes. Bem, os nobres daquela terra em suas festas n'água fazem um 'point' de beber leite com uma droga pungente de modo a escapar do sofrer do frio depois de permanecerem n'água. Mas quando nosso Kalanduka provou deste leite, ele gritou e o cuspiu fora ; e assim fazendo cuspiu na cabeça da filha do mercador. Neste momento voou o papagaio, tendo visto tudo isto de um galho de figueira à margem. “Venha, venha, escravo Kalanduka,” gritou o pássaro ; “lembre quem e o quê és, e não cuspa na cabeça desta jovem nobre mulher. Conheça seu lugar, companheiro.” Assim falando, ele pronunciou a estrofe que segue:-

Tu te vanglorias de seu alto nascimento, seu alto nível,
Com língua mentirosa. Apesar de apenas um pássaro, eu sei
A verdade. Logo serás pego, tu, fugitivo.
Não despreze o leite então, escravo Kalanduka.

Reconhecendo o papagaio, Kalanduka ficou com medo de ser exposto, e exclamou, “Ah! bom mestre, quando chegaste ?”

Pensou o papagaio, “Isto não é amizade mas desejo de torcer meu pescoço que leva a este gentil interesse.” Então ele respondeu que não precisava dos serviços de Kalanduka e voou para Benares, onde contou ao Senhor Tesoureiro tudo o quê vira.

“O tratante !” gritou o Tesoureiro, e ordenou que Kalanduka fosse trazido de volta para Benares onde foi colocado novamente na dieta de escravo.

----------------------

Sua lição terminada, o Mestre identificou o Jataka dizendo, “Este Irmão era Kalanduka na estória, e eu o Tesoureiro de Benares.”



quinta-feira, 5 de junho de 2008

126 Buddha Romeu


126
“Nossos fados diversos...etc.” - Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana sobre um brahmin retido pelo Rei de Kosala devido a sua capacidade de dizer se as espadas eram fastas ou nefastas. Nos é dito que quando os ferreiros do rei forjavam uma espada, este brahmin podia só cheirando ela, dizer se era boa ou não. E ele estabeleceu uma norma de só aceitar o trabalho daqueles ferreiros que lhe presenteavam e de rejeitar o trabalho daqueles que o não corrompiam.

Bem um certo ferreiro fez uma espada e a colocou na bainha com pimenta fina e a trouxe deste jeito para o Rei, que logo a passou para o brahmin para testá-la. O brahmin desembainhou a lâmina e a cheirou. A pimenta subiu pelo nariz dele e o fez espirrar e de modo tão violento que ele cortou o nariz no fio da espada.

Este revés do brahmin chegou aos ouvidos dos Irmãos e um dia falavam sobre isto no Salão da Verdade quando o Mestre entrou. Escutando o tema da conversa deles, disse, “Esta não é a primeira vez, Irmãos, que este brahmin corta seu nariz cheirando espadas. O mesmo fado aconteceu com ele em dias idos.” Assim falando, ele contou esta história do passado.

----------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ) ele tinha a seu serviço um brahmin que professava saber dizer se espadas eram fastas ou nefastas e tudo se passa como na História Introdutória. E o rei chamou os médicos e colocou uma falsa ponta no nariz dele pintada habilmente para parecer a todos um nariz verdadeiro, real ; e o brahmin retomou suas obrigações com o rei. Bem, Brahmadatra não tinha filhos só uma filha e um sobrinho, a quem ele nutriu debaixo de seus olhos mesmos. E quando estes dois estavam crescidos, apaixonaram-se um pelo outro. O rei então chamou os conselheiros e lhes disse, “Meu sobrinho é o herdeiro do trono. S'eu lhe der minha filha como esposa, ele será ungido rei.”

Mas, pensando uma segunda vez, ele decidiu já que de todo modo seu sobrinho era como um filho, que seria melhor casá-lo com uma princesa estrangeira, e dar sua filha a um príncipe de outra casa real. Pois, ele pensou, este arranjo lhe daria mais netos e vestiria sua linhagem com cetros de casas reais diferentes. E, após consulta aos conselheiros, ele resolveu separar os dois, e foram conformemente apartados em moradias distintas um do outro. Bem, eles tinham dezesseis anos de idade e estavam muito apaixonados, e o jovem príncipe não pensava em nada além de em como tirar a princesa do palácio do pai. Por fim um plano surgiu de enviar uma mulher sábia para quem deu um punhado de dinheiro.

“E para que é isto ?” ela disse.

Ele então contou a ela sua paixão, e implorou a sábia mulher que transportasse-o até sua querida princesa.

Ela prometeu a ele sucesso e disse que ela diria ao rei que sua filha estava sob influência de feitiço mas que, como o demônio a possuía há muito e ele estava fora de guarda, ela levaria a princesa um dia em uma carruagem ao cemitério com forte escolta armada, e lá em um círculo mágico deitaria a princesa numa cama com um homem morto embaixo, e com cento e oito duchas de água perfumada lavaria o demônio para fora dela. “E quando com este pretexto eu trouxer a princesa para o cemitério,” continuou a sábia mulher, “tenha o cuidado de apenas chegar no cemitério antes de nós em sua carruagem com escolta armada, levando pimenta fina contigo. Chegando ao cemitério, você deixará sua carruagem na entrada, e despachará seus homens para o bosque do cemitério, enquanto você mesmo irá para o topo do monte e deitará como se morto. Então eu chegarei e colocarei uma cama por cima de você na qual deitarei a princesa. Aí chegará o momento quando você deverá espirrar com a pimenta, até ter espirrado duas ou três vezes, e quando você espirrar nós deixaremos a princesa e sairemos correndo. Daí você e a princesa devem se banhar e você deve levá-la para casa contigo.” “Muito bom,” disse o príncipe ; “um artifício excelente.”

Saiu a mulher sábia então até o rei e ele concordou com a ideia dela, como também a princesa quando foi a ela explicado. Quando o dia chegou, a velha mulher contou à princesa a incumbência delas e disse aos guardas na estrada de modo a assustá-los, “Escutem. Debaixo da cama que levantarei haverá um homem morto ; e este homem morto espirrará. E marque bem que, logo que ele tiver espirrado, ele sairá de debaixo da cama e segurará a primeira pessoa que encontrar. Então estejam preparados, todos vocês.”

Bem, o príncipe já havia chegado no lugar e ficou debaixo da cama como combinado.

Em seguida a velha levou a princesa e a deixou em cima da cama, sussurrando para ela não ter medo. Logo o príncipe cheirou a pimenta e ficou espirrando. E assim que começou a espirrar diante da sábia mulher, ela deixou a princesa e com um grande grito saiu correndo, mais rápida que todos. Nenhum dos homens ficou no lugar ; - todos largaram as armas e temeram pela preciosa vida. Daí o príncipe saiu e carregou a princesa para sua casa, e como fora arranjado antes. E a velha mulher foi até o rei e contou a ele o quê aconteceu.

“Bem,” pensou o rei, “eu sempre pretendi ele para ela, e eles cresceram juntos como ghee em pudim de arroz.” Ele então não caiu em paixão mas no curso de tempo devido fez seu sobrinho rei da terra, com sua filha como rainha.

Bem, o novo rei manteve em seu serviço o brahmin que professava saber dizer a têmpera das espadas, e um dia quando estava ao sol, a falsa ponta de nariz do brahmin caiu e perdeu-se. 

E lá ele ficou amparando a cabeça com muita vergonha. “Não se preocupe, não se preocupe,” riu o rei. “Espirrar é bom para uns e mal para outros. Um espirro fez você perder seu nariz ; enquanto eu agradeço ao espirro por ambos meu trono e minha rainha.” Assim falando ele pronunciou esta estrofe:-

Nossos fados diversos, mostram esta moral,
- O quê bem me traz, pode a ti fazer mal .

Assim falou o rei, e após vida gasta em caridade e outras obras boas, ele passou sendo tratado de acordo com seus méritos.

---------------------

Com esta sabedoria o Mestre ensinou a lição que o mundo estava errado em pensar que as coisas são definitivamente e absolutamente boas ou más em todos os casos semelhantemente. Por fim, ele identificou o Jataka dizendo, “O mesmo homem que agora professa saber se espadas são fastas ou nefastas, professava a mesma habilidade naqueles dias ; e eu mesmo era o príncipe que herdou o reino do tio.”

[N. do Tr.: Uma vez que La Fontaine conheceu os Jatakas, por força dos Dois Pássaros, Shakespeare com certeza, também conheceu – 'Romeu e Julieta' aparece aqui em cena, o casamento e a união homem/mulher como uma morte ritual, sacramento.]





125 Buddha e Katahaka


125
“Se ele entre estranhos...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana, sobre um Irmão fanfarrão. A história introdutória sobre ele é como aquela relata no Jataka 80.

--------------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva era um Tesoureiro rico e sua esposa deu à luz um filho seu. E no mesmo dia uma mulher escrava na casa dele pariu um menino e as duas crianças cresceram juntas. E quando o filho do homem rico era ensinado a escrever, o jovem escravo costumava ir levando o material de seu jovem mestre e então aprendeu ele também a escrever. Depois aprendeu dois ou três ofícios e cresceu tornando-se um jovem belo e bem-falante ; e seu nome era Katahaka. Sendo empregado como secretário particular, ele pensou consigo mesmo, “Não ficarei para sempre neste trabalho. Com a menor falta, baterão em mim, me prenderão, marcarão a ferro e me alimentarão com comida de escravo. Lá na fronteira vive um mercador, amigo de meu mestre. Por quê não ir até ele com uma carta parecendo vir de meu mestre, e me passando pelo filho do meu mestre, casar com a filha do mercador e viver feliz para sempre ?”

Então ele escreveu uma carta, dizendo, “O portador desta é meu filho. Seria conveniente que nossas casas se unissem em casamento, e que você oferecesse sua filha a este meu filho e mantivesse o jovem casal junto de ti no momento. Logo que eu puder ir, irei até você.” Esta carta ele selou com o selo particular de seu mestre, e foi para o mercador da fronteira com bolsa cheia, belas roupas, perfumes e semelhantes. E com um arco ficou de pé diante do mercador. “De onde vens ?” disse o mercador. “De Benares.” “Quem é seu pai ?” “O Tesoureiro de Benares.” “E o quê o traz aqui ?” “Esta carta te dirá,” disse Katahaka, entregando-a às mãos dele. O mercador leu a carta e exclamou, “Isto me dá nova vida.” E em sua alegria ofereceu a filha para Katahaka e estabeleceu o jovem casal, que vivia em grande estilo. Mas Katahaka se deu ares, e costumava encontrar defeito nas comidas e nas roupas que a ele eram trazidas, chamando-as de 'provincianas'. “Estes provincianos desorientados,” ele dizia, “não sabem como se vestir. E quanto ao gosto em aromas e guirlandas, eles simplesmente não têm.”

Dando falta do seu escravo, o Bodhisatva disse, “Não vejo Katahaka. Onde ele foi? Encontrem-no.” E saiu o pessoal do Bodhisatva em busca dele, e procuraram para todo lado até que o encontraram. Eles então voltaram, sem Katahaka tê-los reconhecido, e contaram ao Bodhisatva.

“Isto não dará certo,” disse o Bodhisatva escutando as novidades. “Irei lá e o trarei de volta.”

 Então ele pediu permissão ao Rei e partiu com grande séqüito. E as notícias se espalharam para todo lado que o Tesoureiro estava caminhando para a fronteira. Escutando as novas Katahaka ficou pensativo sobre como agiria. Ele sabia que ele mesmo era a única razão para a vinda do Tesoureiro e viu que fugir no momento destruiria toda a chance de retorno. Então decidiu sair para encontrar o Tesoureiro e se conciliar com ele comportando-se como escravo dos velhos tempos. Agindo conforme seu plano , fez que se proclamasse (publicamente) em todas as ocasiões sua desaprovação da lamentável decadência do respeito em relação aos pais que se apresentava com as crianças sentando para comer junto dos pais ao invés de esperarem ao lado deles. “Quando meus pais tomam refeição,” disse Katahaka, “eu trago as tigelas e pratos, a cuspideira, e abano os leques para eles. Tal é minha prática invariavelmente.” E explicou cuidadosamente o dever do escravo para com o mestre, tal como trazer água e servi-lo quando se retira. E tendo então assim instruído o povo em geral, disse a seu sogro um pouco antes da chegada do Bodhisatva, “Escutei que meu pai está vindo para vê-lo. É melhor você se aprontar para recebê-lo enquanto eu vou encontrá-lo na estrada com um presente.” “Faça isto, meu caro garoto,” disse o sogro.

Então Katahaka pegou um presente magnífico e saiu com largo séqüito para encontrar o Bodhisatva, a quem entregou o presente com obediência humilde. O Bodhisatva aceitou o presente de modo gentil e no café-da-manhã tendo feito acampamento retirou-se para fazer suas necessidades. Parando seu séqüito, Katahaka tomou água e aproximou-se do Bodhisatva. O jovem então caiu aos pés do Bodhisatva e gritou, “Oh, senhor, pago qualquer soma que quiseres mas não me exponha.”

“Não tema ser exposto por mim,” disse o Bodhisatva, agraciado com sua conduta obediente e entrou na cidade, onde foi festejado com grande magnificência. E Katahaka permaneceu agindo como seu escravo.

Enquanto o Tesoureiro estava sentado, o mercador da fronteira disse, “Meu Senhor, com o recebimento de sua carta obedientemente dei minha filha em casamento a seu filho.” E o Tesoureiro deu uma resposta adequada sobre 'seu filho' de um jeito tão gentil que o mercador deliciou-se além da conta. Mas a partir daquele momento o Bodhisatva não podia nem olhar para Katahaka.

Um dia o Grande Ser mandou chamar a filha do mercador e disse, “Minha cara, por favor me arranje uma almofada para a cabeça.” Ela fez isto, e ele a agradeceu pelos seus serviços tão necessários, adicionando, “E agora me diga, minha cara, se meu filho é razoável 'in weal & woe' ( na alegria e na tristeza ) e se você está se dando bem com ele.”

“Meu marido tem só um defeito. Ele reclama da comida.”

“Ele sempre teve seus defeitos, minha cara ; mas te direi como parar a língua dele. Te direi um texto que deves aprender com cuidado e repetir para teu marido quando ele reclamar da comida de novo.” E ele a ensinou os versos e logo depois partiu para Benares. Katahaka o acompanhou em parte do caminho, e o deixou após a oferta de presentes valiosos ao Tesoureiro. Do dia da partida do Bodhisatva, Katahaka já passou a ficar mais orgulhoso ainda. Um dia sua esposa preparou um belo jantar e começou a ajudá-lo com uma colher mas foi só colocar a comida na boca que Katahaka começou a resmungar. Aí a filha do mercador lembrou sua lição, repetindo a seguinte estrofe:-

Se ele entre estranhos longe de casa falar grosso,
Voltará seu visitante para retirar tudo dele.
- Venha, coma seu jantar então, Katahaka.

[N. do Tr.: O escoliasta explica que a esposa não entende o significado do verso mas só repete as palavras a ela ensinadas. Quer dizer os gatha (versos canônicos) não são em vernáculo mas em língua culta inteligível apenas ao educado Katahaka e não à mulher, que as repete apenas.]

“Meu caro.” pensou Katahaka, “o Tesoureiro deve ter informado a ela meu nome e contado toda a história.” E a partir daquele dia ele não teve mais ares mas humildemente comeu o quê se colocava diante dele e à sua morte passou, sendo tratado de acordo com seus méritos.

------------------------

Sua lição terminada, o Mestre identificou o Jataka dizendo, “Este Irmão fanfarrão era o Katahaka daqueles dias, e eu o Tesoureiro de Benares.”


quarta-feira, 4 de junho de 2008

124 Buddha Brahmin


124
“Trabalhe, irmão,...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana sobre um bom brahmin pertencente à nobre família de Savatthi que entregou seu coração à Verdade, e, juntando-se à Irmandade, tornou-se constante em todos os deveres. Sem falhas no serviço aos professores ; escrupuloso em matéria de comidas e bebidas ; zeloso na realização das tarefas do cabido (grêmio), banheiro, e assim por diante ; de pontualidade perfeita na observância das quatorze disciplinas maiores e nas oitenta menores ; costumava varrer o mosteiro, as celas, os claustros, e o caminho que levava ao mosteiro, e dava água ao povo sedento. E devido a sua grande bondade o povo dava regularmente quinhentas refeições por dia aos Irmãos ; e grande ganho e honra foi acrescida ao mosteiro, muitos prosperando devido à virtude de um. E um dia no Salão da Verdade os Irmãos caíram na conversa sobre como a bondade daquele Irmão trouxe para eles ganho e honra, e preencheu de alegria muitas vidas. Entrando no Salão, o Mestre perguntou, e escutou qual era o tema da conversa. “Esta não é a primeira vez, Irmãos,” ele disse, “que este Irmão foi correto no preenchimento das tarefas. Em dias idos quinhentos eremitas que saíram para catar frutas foram servidos por frutos que a bondade dele providenciou.” Assim falando ele contou esta história do passado. Cf. Jatakas 52 e 539. 

-----------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu brahmin do Norte, e, crescendo, desistiu do mundo e morava comandando quinhentos eremitas no sopé das montanhas. Naqueles dias houve uma grande seca nos Himalaias e em todo lugar àgua secara e triste stress abateu-se em todas as bestas. Vendo as pobres criaturas sofrendo de sede, um dos eremitas cortou abaixo uma árvore a qual escavou como uma manjedoura ; e esta manjedoura ele encheu com toda água que encontrou. Deste modo deu de beber aos animais. E eles vieram em hordas e beberam e beberam até que o eremita ficou sem tempo de ir catar frutos para ele mesmo. Sem atentar para sua própria fome, ele trabalhou para mitigar a sede dos animais. Pensaram eles consigo mesmos, “Estava tão envolvido este eremita em servir as nossas vontades que não deixou tempo para si mesmo ir catar frutos. Ele deve estar faminto. Em con-córdia que cada um de nós que veio aqui beber traga tantos frutos quanto possa para o eremita.” Isto eles concordaram em fazer, cada animal que veio trouxe mangas e jambos ou fruta pão e semelhantes, até que a oferta deles teria enchido duzentos e cinqüenta carretos ; e houve lá comida para todos os quinhentos eremitas com abundância e com sobra. Vendo isto, o Bodhisatva exclamou, “Assim a bondade de um homem foi o meio de suprimento de comida para todos estes eremitas. Verdadeiramente, devemos ser sempre constantes em agir com retidão.” Assim falando pronunciou esta estrofe:-

Trabalhe, irmão; constante na esperança permaneça;
Não deixe tua coragem murchar ou esvaziar ;
Não esqueça aquele, que em jejum intenso
Colheu frutos para além do que seu coração desejava.

Tal foi o ensino do Grande Ser para o grupo de eremitas.

-----------------------

Sua lição terminada, o Mestre identificou o Jataka dizendo, “Este Irmão era o bom eremita daqueles dias, e eu o mestre dos eremitas.”