terça-feira, 11 de março de 2008

72 Buddha Elefante



72 “Na ingratidão mais falta,...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto no Bosque de Bambu sobre Devadatra. Os Irmãos sentados no Salão da Verdade, diziam, “Senhores, Devadatra é um ingrato e não reconhece as virtudes do Abençoado.”

 Retornando ao Salão, o Mestre perguntou qual o tema da conversa, e disseram. “Esta não é a primeira vez, Irmãos,” ele disse, “que Devadatra mostra-se um ingrato ; ele foi justo o mesmo em dias idos, e ele nunca conheceu minhas virtudes.” E assim falando, com o pedido deles, ele contou esta história do passado.

----------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva foi concebido em uma aliá (elefanta) no Himālaias. Quando nasceu, ele era todo branco, como uma poderosa massa de prata. Como bolas de diamantes eram seus olhos, como uma manifestação dos cinco brilhos; vermelha sua boca, como roupa escarlate ; seu tronco como prata salpicada de ouro vermelho ; e suas quatro patas como que pintadas com laca. Assim, sua pessoa, adornada com as dez perfeições, era de beleza consumada. Quando crescido, todos os elefantes dos Himālaias em um só corpo o seguiam como líder. Enquanto residia nos Himālaias com um séqüito de 80.000 elefantes, ele ficou consciente de que havia pecado na horda. Então, destacando-se do resto, viveu em solidão na floresta e a bondade da sua vida lhe valeu o nome de Bom Rei Elefante.

Bem, um mateiro de Benares veio aos Himālaias, e entrou na floresta em busca de implementos ao seu ofício. Perdendo o caminho e o rumo, vagou para cá e para lá, esticando os braços de desespero e choro, com o medo da morte diante dos olhos.

Escutando os gritos humanos, o Bodhisatva foi movido por compaixão e resolveu ajudá-lo na necessidade. E assim aproximou-se do ser humano. Mas ao ver o elefante, o mateiro fugiu correndo apavorado. Vendo ele fugir, o Bodhisatva ficou parado, e isto fez o homem parar também. Então o Bodhisatva novamente avançou, e o mateiro fugiu, parou outra vez quando o Bodhisatva parou. Daí a verdade se revelou ao homem que o elefante parava enquanto ele mesmo fugia, e só avançava quando ele estava parado. Conseqüentemente ele conclui que a criatura não tencionava machucá-lo mas ajudá-lo. Então com valentia ficou parado na sua vez. E o Bodhisatva aproximou-se e disse, “Por quê, amigo ser humano, vagas por aí chorando ?”

“Meu senhor,” respondeu o mateiro, “perdi meu caminho e minha direção e temo perecer.”
Então o elefante levou o ser humano para sua própria morada, e lá o acolheu por alguns dias, regalando-o com frutas de vários tipos. Então, dizendo, “Não tema, amigo humano, levarei você de volta aos lugares dos humanos,” o elefante sentou o mateiro nas costas e o trouxe de volta com ele para onde os seres humanos moravam. Mas o ingrato pensou consigo mesmo, que, se questionado, deveria ser capaz de revelar tudo. Então, enquanto viajava nas costas do elefante, ele marcava os montes e as árvores. Por fim o elefante o trouxe para fora da floresta e o colocou na auto estrada para Benares, dizendo, “Aí está seu caminho, amigo humano : nada diga a ninguém, sejas questionado ou não, sobre o lugar em que vivo.” E com esta despedida o Bodhisatva fez seu caminho de volta para sua morada.

Chegando em Benares, o homem veio, no curso de suas andanças pela cidade, ao bazar dos trabalhadores em marfim, onde viu marfim sendo trabalhado em diversas formas e tamanhos. E ele pergunta aos artesãos se dariam algo por uma presa de elefante vivo.
“Por quê fazes tal pergunta ?” foi a resposta. “Uma presa de elefante vivo vale grande quantia mais que de elefante morto.”

“Ah, então trarei a vocês algum marfim,” ele disse, e saiu partindo para a morada do Bodhisatva com provisões para a jornada e com serra amolada. Sendo questionado o quê o trazia de volta, ele queixou-se que estava numa tal aflição que não tinha como sobreviver. Portanto vinha para pedir um pedaço da bela presa do elefante para vender como sustento ! “Certamente ; te darei uma presa inteira,” disse o Bodhisatva, “se tiveres boa serra para cortá-la.” “Ah, eu trouxe uma serra comigo senhor.” “Então serre minhas presas, e leve-as contigo,” disse o Bodhisatva. E ele dobrou os joelhos até deitar-se no chão como um boi. O mateiro então serrou ambas as presas principais do Bodhisatva ! Quando elas já estavam cortadas, o Bodhisatva tomou-as na sua tromba e assim dirigiu-se ao ser humano, “Não pense, amigo humano, que é porque não prezo as presas nem as aprecio que as dou a ti. Mas mil vezes, cem mil vezes, me são mais caras as presas da onisciência que pode compreender todas as coisas. E portanto possa este meu presente destas me trazer onisciência.” Com estas palavras, ele deu o par de presas ao mateiro como preço da onisciência.

E o ser humano as levou e as vendeu. E quando já tinha gasto o dinheiro, ele voltou ao Bodhisatva, dizendo que as duas presas apenas renderam o suficiente para pagar velhas dívidas, e pedindo o resto do marfim do Bodhisatva. O Bodhisatva consentiu e desistiu do resto do seu marfim após tê-lo cortado como antes. E o mateiro foi embora e vendeu este também. Retornando novamente, ele disse, “De nada adiantou, meu senhor ; não consigo sustento. Então dê-me os tocos das presas.”

“Assim seja,” respondeu o Bodhisatva ; e ele sentou como antes. Então aquele vil tratante, trepando no tronco do Bodhisatva, aquele sacro tronco que era como prata em cordas, e escalando as têmporas da futuro Buddha, que eram como o cume nevado do Monte Kelāsa,- chutou as raízes das presas até que elas saíssem da carne. Então ele serrou os tocos e seguiu seu caminho. Mas logo que o tratante saiu da vista do Bodhisatva, a sólida terra, inconcebível em sua vasta extensão, que pode suportar o peso do Monte Sineru e seus picos circundantes, com toda a sujeira e impureza insípida do mundo, agora rompia-se separando-se numa fenda bocejante,- como se incapaz de suportar o peso de tal fraqueza ! E direto, chamas do mais baixo Ínfero envolveu o ingrato, embrulhando-o ao redor como numa mortalha do destino, e levou-o embora. E enquanto o vil era engulido pelos intestinos da terra, a Fada da árvore que morava naquela floresta fez a região ecoar com estas palavras:- “Nem mesmo o presente do império do mundo pode satisfazer o mal agradecido e o ingrato !” E na estrofe seguinte a Fada ensinou a Verdade:-

Na ingratidão, mais falta, quanto mais se tem;
Nem todo o mundo satisfaz seu apetite.

Com tais ensinamentos a Fada da árvore fez a floresta re-ecoar. Quanto ao Bodhisatva, viveu o resto de seus dias, passando por fim sendo tratado de acordo com seus méritos.

--------------------------

Disse o Mestre, “Esta não é a primeira vez, Irmãos, que Devadatra mostrou-se ingrato; ele foi justo o mesmo em dias idos.” Sua lição terminada, ele identificou o Jātaka dizendo, “Devadatra era o ser humano ingrato daqueles dias, Sāriputra a Fada da árvore, e eu mesmo Bom Rei Elefante.”




segunda-feira, 10 de março de 2008

71 Buddha Professor em Taxila



71 “Aprendas tu deste...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana, sobre o Ancião chamado Tissa filho do Escudeiro. Tradição diz que um dia trinta jovens nobres de Sāvatthi, amigos entre si, tomaram perfumes e flores e hábitos, e partiram em larga comitiva para Jetavana, para ouvir o Mestre pregar. Chegados em Jetavana, sentaram um pouco pelos vários recintos – no recinto de árvores Pau-ferro, no recinto de Salgueiros, e assim por diante,- até que à tardinha o Mestre passou do seu quarto perfumado de doces fragrâncias para o Salão da Verdade e sentou-se na linda cadeira-Buddha. Então, com seus seguidores, estes homens entraram na Salão da Verdade, fizeram ofertas de perfumes e flores, inclinaram-se até os pés dele – estes pés abençoados gloriosos como flores de lótus abertas, que traziam impressos na sola a Roda ! - e sentaram-se, escutando a Verdade. Então veio à mente deles, “Tomemos votos, já que entendemos a Verdade pregada pelo Mestre.” Conformemente, quando o Abençoado deixou o Salão, eles aproximaram-se dele e com a obediência devida pediram para serem admitidos à Irmandade. Ganhando o favor de seus professores e diretores foram plenamente recebidos na Irmandade, e depois de cinco anos de residência com professores e diretores, tempo em que aprenderam de cor(ação) as duas Sumas, o quê é próprio e impróprio, aprenderam os três modos de expressar gratidão e costuraram e tingiram hábitos. Nesta fase, desejosos de abraçar a vida ascética, obtiveram consentimento dos professores e diretores, e aproximaram-se do Mestre. Inclinando-se diante dele sentaram-se, dizendo, “Senhor, estamos confusos com a roda da existência, desanimados com o nascer, decair, adoecer e morrer; dê-nos um tema, em que pensando possamos livrar-nos dos elementos que causam a existência. O Mestre revirou na cabeça os trinta e oito temas de meditação, dentre estes selecionou um adequado, que expôs a eles. E então, após tomarem o tema com o Mestre, eles inclinaram-se e com uma despedida cerimoniosa passaram da presença dele para suas celas, e depois de encararem professores e diretores saíram com tigela e hábito para abraçarem a vida ascética.

Bem, entre eles havia um Irmão chamado Ancião Tissa filho do Escudeiro, homem fraco e irresoluto, indeciso, escravo dos prazeres do paladar. Pensou ele consigo mesmo, “Nunca serei capaz de viver na floresta, esforçar-me com esforço estrênuo, vigoroso, e subsistir com comida de oferta. Qual o bem da minha ida? Voltarei.” E então ele desistiu, e após acompanhar estes Irmãos um pouco no caminho, deu a volta. Quanto aos outros Irmãos, chegaram no curso da sua peregrinação em coleta através de Kosala, a uma certa vila na fronteira, do lado da qual em um lugar florestal passaram a estação das Chuvas, e em esforço e empenho durante três meses conseguiram o germe do Discernimento e ganharam Arahat(idade), o quê fez a terra gritar de alegria. No final da estação das Chuvas, após celebrar o festival Pavāranā, eles saíram então para anunciar ao Mestre as consecuções que ganharam , e, chegando no curso devido à Jetavana, deixaram as tigelas e hábitos, prestaram visita aos professores e diretores, e, ansiosos para verem o Abençoado , foram até ele e com obediência devida sentaram-se. O Mestre saudou-os gentilmente e eles anunciaram ao Abençoado as consecuções que ganharam , recebendo dele louvor. Escutando o Mestre falar em louvor deles, o Ancião Tissa filho do Escudeiro encheu-se de desejo de viver a vida de recluso ele também. Da mesma maneira, aqueles outros Irmãos pediram e receberam a permissão do Mestre para retornarem a residir naquele mesmo lugar na floresta. E com devida obediência eles foram pra suas celas.

Bem, Ancião Tissa filho do Escudeiro naquela noite mesma, inflado no desejo ardente de iniciar suas austeridades de uma vez, e enquanto praticando com zelo e ardor excessivo os métodos do recluso e dormindo em postura ereta ao lado de sua cama de tábua, logo após a vigília do meio da noite, virou e caiu, quebrando o fêmur ; e com as duras dores que seguiram, como os Irmãos tiveram que cuidar dele, foram impedidos de ir.

Assim, quando eles apareceram na hora para ver o Buddha, ele perguntou a eles, se não tinham pedido no dia anterior a licença para partir naquele dia.
“Sim, senhor, pedimos; mas nosso amigo Ancião Tissa filho do Escudeiro, enquanto ensaiava os métodos de um recluso com muito vigor mas fora de hora, caiu e quebrou a coxa; daí porque nossa partida foi frustrada.” “Esta não é a primeira vez, Irmãos,” disse o Mestre, “que o erro deste homem levou-o a empenhar-se com zelo fora de hora, e daí atrasado a partida de vocês ; ele fez atrasar a partida no passado também.” E, em seguida, com o pedido deles, ele contou esta história do passado.

----------------------------

Certa vez em Takkasilā ( Taxila ) no reino de Gandhāra o Bodhisatva era um professor famoso com 500 jovens brahmins de pupilos. Um dia estes pupilos saíram para a floresta para catar lenha para o mestre, e ocuparam-se em catar lenha. Entre eles havia um companheiro preguiçoso que aproximou-se de uma grande árvore da floresta, que ele imaginava estar seca e podre. Então com indulgência ele pensou que poderia tirar uma soneca primeiro, e ao fim subir na árvore quebrar uns galhos e levar para casa. Conformemente, ele esticou seu manto e dormiu em cima, roncando alto. Todos os outros jovens brahmins estavam já no caminho de casa quando, com suas lenhas amarradas em feixe, encontraram o dorminhoco. Chutando-o nas costas até acordar, deixaram-no e seguiram caminho. Ele se espreguiçou e se coçou por um tempo. Então, ainda meio sonolento, começou a subir na árvore. Mas um ramo que estava arrancando quebrou repentinamente; e enquanto saltava atingiu-o em um olho. Colocando uma das mãos no olho machucado, juntou lenha verde com a outra. Descendo então, amarrou seu feixe, e após correr para casa com ela, atirou a lenha verde no topo dos outros feixes.

Naquele dia mesmo aconteceu de uma família do campo convidar o mestre para visitá-la de manhã, de modo que podiam dar uma festa brahmin. E deste modo o mestre reuniu os pupilos, e, falando a eles da jornada que fariam à cidade de manhã, disse-lhes para não jejuar. “Façam um pouco de mingau de arroz de manhã cedo,” ele disse; “e comam-no antes de sair. Lá será dada comida a vocês e uma porção para mim. Trazeis para casa com vocês.”

Então acordaram cedo de manhã e levantaram uma empregada para ela fazer o café da manhã deles. E ela saiu para pegar lenha para o fogo. A lenha verde estava no topo da pilha, e ela com esta acendeu seu fogo. E ela soprava e soprava, mas não conseguia acender o fogo, e por fim o sol já nascera. “Já é dia claro agora,” eles disseram, “está tarde para partir.” E foram para o mestre.

“O quê, ainda não foram, meus filhos?” disse ele. “Não, senhor ; não fomos.” “Por quê, prego?” “Porque tal preguiçoso, quando estávamos catando lenha, deitou para dormir debaixo de uma árvore na floresta ; e para disfarçar o tempo perdido, ele subiu na árvore com tal pressa que machucou o olho e acabou trazendo um lote de lenha verde, que jogou no topo da pilha de lenha nossa. Então, quando a empregada que ia cozinhar nosso mingau de arroz, foi até a pilha, pegou a lenha dele, pensando claro que estaria seca ; e não conseguiu acender fogo nenhum antes de nascer o sol. E foi isto que impediu nossa partida.”

Escutando o quê o jovem brahmin fez, o mestre exclamou que o quê fez um tolo, causou todo o dano, e repetiu esta estrofe:-

Aprendas tu deste que arrancou lenha verde,
Que tarefas adiadas produzem lágrimas no fim.

Tal foi o comentário do Bodhisatva sobre a matéria a seus pupilos ; e no fim de uma vida em caridade e outras boas obras ele passou sendo tratado de acordo com seus méritos.

----------------------

Disse o Mestre, “Esta não é a primeira vez, Irmãos, que este homem frustrou a partida de vocês ; ele fez o mesmo no passado também.” Sua lição terminada, ele mostrou a conexão e identificou o Jātaka dizendo, “O Irmão que quebrou a coxa era o jovem brahmin daqueles dias que machucou o olho; os seguidores do Buddha eram o resto dos jovens brahmins; e eu mesmo era o brahmin mestre deles.”








sábado, 8 de março de 2008

70 Buddha Sábio da Pá



70 “A conquista...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana, sobre o Ancião chamado Citrahattha – Sāriputra. É dito que ele era jovem de uma boa família de Sāvatthi ; e um dia, no seu caminho para casa vindo de arar, ele passou no mosteiro. Aí ele recebe da tigela de um certo Ancião um pouco de comida boa, rica e doce, que o fez pensar consigo mesmo, - “Dia e noite fico trabalhando com as mãos nas mais diversas tarefas, e nunca provei comida tão gostosa. Devo me tornar Irmão !” Então ele se uniu à Irmandade, mas após seis semanas de zelosa dedicação ao alto pensar, caiu sob domínio das Luxúrias e saiu fora. Seu estômago mostrando-o novamente que era muito, o fez voltar a se juntar à Irmandade, e estudar o Abhidharma ( n. do tr.: o terceiro e o último dos Pitakas, Tri Pitakas ). Desse jeito, seis vezes ele saiu e voltou novamente; mas quando pela sétima vez ele se tornou um Irmão, ele aprendeu todos os sete livros do Abhidharma, e cantando muito a Doutrina dos Irmãos, ganhou Discernimento e atingiu a Arahat(idade).

 Bem, seus amigos entre os Irmãos zombavam dele, dizendo,- “Pode, senhor, as Luxúrias cessarem de brotar dentro de teu coração ?” “Senhores,” foi a resposta, “de agora em diante estou além da vida mundana.” Ele tendo assim ganho Arahat(idade), a conversa elevou-se no Salão da Verdade, como segue:- “Senhores, apesar de estar desde sempre destinado a todas as glórias da Arahat(idade), ainda assim seis vezes Citrahattha-Sāriputra renunciou à Irmandade ; verdadeiramente, o estado de inconverso é ruim.”

Retornando ao Salão, o Mestre perguntou sobre que falavam. Tendo escutado, ele disse, “Irmãos, o coração mundano é leve e difícil de curvar ; coisas materiais atraem-no e o seguram ; quando uma vez seguro assim, ele não pode ser liberto num instante. Excelente é a mestria num tal coração ; uma vez manejado, traz alegria e felicidade:-

É bom domar um coração teimoso e delicado,
Levado pela paixão. Uma vez domado, o coração carrega benção.

Foi pela razão desta teimosa qualidade do coração, contudo, que, por causa de uma boa pá que não conseguia ele mesmo jogar fora, que o sábio e bom de dias passados seis vezes reverteu para o mundo, para fora, por pura cobiça ; mas na sétima ocasião ele ganhou Insight e domou sua cupidez.” E assim falando, ele contou uma história do passado.

------------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva veio à vida novamente como um jardineiro, e cresceu. ‘Sábio da Pá’ era seu nome. Com sua pá limpava um pedaço de terra, plantava, e fazia crescer ervas, curcubitáceas (abóbora, cabaça, etc), legumes, e outros vegetais, com a venda dos quais vivia vida contrita. Pois, a não ser sua pá, nada mais, no mundo tinha ! Resolvendo um dia largar o mundo pela vida religiosa, ele escondeu sua pá e tornou-se recluso. Mas o pensar em sua pá elevou-se em seu coração e a paixão da cobiça o dominou, de modo que por causa de sua cega pá reverteu ao mundo. Isto aconteceu de novo e de novo ; seis vezes ele escondeu a pá e tornou-se recluso,- só para novamente renunciar a seus votos. Mas na sétima vez ele se lembrou como a pá cega causou que errasse repetidas vezes ; e decidiu-se a atirá-la no grande rio antes de se tornar recluso novamente. Então levou a pá para a praia do rio, e, para que não visse onde iria cair, e voltasse para pescá-la fora novamente, ele girou a pá três vezes ao redor da cabeça pelo cabo e a lançou com a força de um elefante no meio da corrente, fechando os olhos bem enquanto isto fazia. Então, alto soou seu grito de exultação, um grito como rugido de leão, - “Conquistei ! Conquistei !”

Bem, justo naquele momento o Rei de Benares, no seu caminho para casa de apaziguar desordem na fronteira, banhara-se naquele mesmo rio, e dirigia em todo esplendor seu elefante, quando escutou o grito de triunfo do Bodhisatva. “Aí esta um homem,” disse o rei, “que está proclamando que conquistou. Cogito quem ele conquistou. Vão, tragam-no aqui.”

Assim o Bodhisatva foi trazido diante do rei, que disse a ele, “Meu bom homem, eu mesmo sou conquistador ; acabei de ganhar uma batalha e vitorioso volto para casa. Me diga a quem conquistaste.” “Senhor,” disse o Bodhisatva, “mil, sim, cem mil, de tais vitórias como a vossa são vãs, se não tens vitória sobre as Luxúrias dentro de ti. Foi conquistando a cobiça dentro de mim que conquistei minhas Luxúrias.” E enquanto falava, olhou o grande rio, e devidamente concentrando toda sua mente na ideia da água, ganhou Insight. Então pela virtude do seu novo poder transcendental agora ganho, elevou-se no ar, e, sentado lá, instruiu o Rei na Verdade com esta estrofe:-

A conquista que por vitórias posteriores
Deve ser sustenta, ou leva depois a derrota,
É vã ! Conquista verdadeira dura eternamente!

No momento mesmo que escutava a Verdade, luz brilhou na escuridão do rei, e as Luxúrias de seu coração foram apagadas ; o coração curvou-se para a renúncia ao mundo ; e lá e então a cobiça pelo poder real , saiu dele. “E para onde vais agora?” disse o rei ao Bodhisatva. “Para os Himālaias, senhor; para lá viver vida de anchorita (anacoreta).” Então, eu também me tornarei um anacoreta,” disse o rei ; e partiu junto com o Bodhisatva. E lá com o rei partiu junto todo o exército, todos os brahmins e donos de casa, e todo o povo comum, - em uma palavra, toda a hoste que lá se reunira.

Novidades chegaram em Benares de que seu rei, ao escutar a Verdade pregada pelo Sábio da Pá, ficou satisfeito de viver vida de anacoreta e seguiu com toda a hoste. “E o quê faremos aqui ?” gritou o povo de Benares. E daí, saíram da cidade, que media vinte quilômetros, todos os habitantes, um séqüito de vinte quilômetros, com quem o Bodhisatva seguiu para os Himālaias.

Então o trono de Sakra, Rei dos Devas, ficou quente debaixo ( n. do tr.: apenas os méritos de uma boa pessoa lutando contra a adversidade podem assim aparecer ao assento-misericordioso do Arcanjo ). Procurando, ele viu que o Sábio da Pá engajara-se na Grande Renúncia. Notando o tamanho do séqüito, Indra passou a pensar em como abrigar todos. E mandou chamar Viśvakarma, o arquiteto dos Devas, e falou assim:- “O Sábio da Pá está engajado na Grande Renúncia, e devemos encontrar abrigo para ele. Vá você aos Himālaias, e lá ao nível do chão modele com poder divino um abrigo de eremita cinqüenta quilômetros de comprimento e vinte de largura.” “Será feito, senhor,” disse Viśvakarma. E saiu fora ; e fez o que foi ordenado.

(O que segue é apenas um sumário ; detalhes serão dados no Jātaka 509, que trata também da Grande Renúncia, e une-se a este.) Viśvakarma fez com que surgisse um eremitério nos domínios dos eremitas ; retirou todas as fadas, bestas barulhentas e pássaros ; e fez em cada ponto cardial um caminho largo justo para uma pessoa passar de cada vez. Isto feito retirou-se para seu próprio domicílio. O Sábio da Pá com sua hoste popular veio para os Himālaias e entrou nos domínios que Indra lhe deu  e tomou posse da casa e da mobília que Viśvakarma criou para os eremitas. Primeiro de tudo, ele mesmo renunciou ao mundo, e depois fez o povo renunciá-lo. Depois repartiu a propriedade entre eles. Abandonaram toda soberania, que rivalizava com a de Sakra mesmo ; e todos os trinta quilômetros da propriedade foram preenchidos. Com a realização devida de todos os outros ritos que conduzem ao Insight, o Sábio da Pá desenvolveu a perfeita boa vontade dentro de si, e ensinou o povo como meditar. Por meio do qual todos ganharam as Consecuções, e asseguraram sua entrada depois no Reino de Brahma, enquanto todos os que os ministravam qualificaram-se para entrar depois no Reino dos Devas.

----------------------

“Assim, Irmãos,” disse o Mestre, “o coração, quando paixão segura ele, é difícil de soltar-se. Quando os atributos da cobiça brotam dentro dele, estes são difíceis de rechaçar, e mesmo pessoas sábias e boas como acima rende-se ignorantes.” Sua lição terminada, ele pregou as Verdades, ao final das quais alguns ganharam o Primeiro, outros o Segundo e alguns o Terceiro Caminho, enquanto outros ainda atingiram Arahat(idade). Depois o Mestre mostrou a conexão e identificou o Jātaka dizendo, “Ānanda era o rei daqueles dias, os seguidores do Buddha eram os seguidores, e eu mesmo o Sábio da Pá.”




quinta-feira, 6 de março de 2008

69 Sariputra Cobra



69 “Humilhada ficaria...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana sobre Sāriputra, o Capitão da Fé. Tradição diz que naqueles dias quando O Ancião usava comer bolos, veio um povo e trouxe uma quantidade destes bolos para a Irmandade. Após todos os Irmãos estarem saciados, ainda sobrou muito ; e os que ofereciam disseram, “Senhores, peguem alguns também para os que estão fora na cidade.”

Junto então um jovem que era co-residente do Ancião, estava fora na cidade. Para ele foi pega uma porção ; mas, como ele não voltava, e acontecia de passar a hora ( n. do tr.: isto é, aproxima-se o meio-dia, após o qual comida não era permitida ), esta porção foi dada ao Ancião. Quando esta já tinha sido comida pelo Ancião, chega o jovem. Conformemente o Ancião explica o caso a ele, dizendo, “Senhor, comi os bolos separados para você.” “Ah !” foi a resposta, “todos nós adoçamos a boca.” O Grande Ancião ficou envergonhado.

“De agora em diante,” ele exclamou, “voto nunca mais comer bolos novamente.” E a partir daquele dia, diz a tradição, o Ancião Sāriputra nunca mais nem tocou em bolo ! Este voto se tornou sabido na Irmandade, e os Irmãos sentavam falando dele no Salão da Verdade. Disse o Mestre, “De que falais, Irmãos, aí sentados?” Quando disseram a ele, ele disse, “Irmãos, quando Sāriputra desiste de uma coisa, nunca volta a ela novamente, mesmo que sua vida esteja em jogo.” E assim falando, ele contou esta história do passado.

-----------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu numa família de médicos hábeis em curar mordidas de cobras, e quando ele cresceu, praticava isto como meio de vida.

Bem, aconteceu de um camponês ser mordido por uma cobra ; e sem demora seus parentes mandaram buscar o doutor. Disse o Bodhisatva, “Devo extrair o veneno com os antídotos usuais ou pegar a cobra e mandá-la sugar seu próprio veneno para fora da ferida ?” “Pegar a cobra e mandá-la sugar seu próprio veneno para fora.” Então ele fez com que se pegassem a cobra e perguntou a criatura, dizendo “Você mordeu este homem ?” “Sim, mordi,” foi a resposta. “Bem então, sugue seu veneno de volta da ferida novamente.” “O quê ? Tomar de volta o veneno que verti ?” gritou a cobra ; “nunca fiz e nunca vou fazer.” Então o doutor mandou acender um fogo com lenha, e disse à cobra, “Ou sugue de volta para fora o veneno ou vai para dentro do fogo.”

“Mesmo que as chamas sejam meu fado, não tomarei de volta o veneno que já verti,” disse a cobra, e repetiu esta estrofe:-

Humilhada ficaria, se um veneno que soltei
para salvar minha vida, engolisse de volta !
Melhor acolheria a morte do que a vida ganha numa fraqueza.

Com estas palavras, a cobra direcionou-se para o fogo ! Mas o doutor barrou o caminho dela, e retirou o veneno com amostras e encantos, de modo que o indivíduo ficou bom de novo. Depois ele apresentou os Mandamentos para a cobra, e a libertou, dizendo, “De agora em diante não machuque mais ninguém.”

------------------

E o Mestre continuou dizendo, - “Irmãos, quando Sāriputra separa-se de alguma coisa, ele nunca a toma de volta, mesmo com a vida em risco.” Sua lição terminada, ele mostrou a conexão e identificou o Jātaka dizendo, “Sāriputra era a cobra daqueles dias e eu mesmo o médico.”









quarta-feira, 5 de março de 2008

68 Buddha e o casal brahmin



68 “À pessoa em quem tua mente descansar,...etc.” – Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Añjanavana, sobre um certo brahmin. Tradição diz que quando o Abençoado com seus discípulos entrava na cidade de Sāketa, um velho brahmin daquele lugar, que estava saindo, encontrou com ele no portão. Caindo aos pés do Buddha, e segurando-o pelos tornozelos, o velho homem gritou, “Filho, não é dever das crianças cuidarem dos pais na velhice ? Por quê pois não nos deixaste te ver todo este tempo ? Finalmente te vejo ; venha, deixe tua mãe te ver também.” Assim falando, levou o Mestre para a casa dele; e lá o Mestre sentou na cadeira preparada para ele com seus discípulos ao redor. Então veio a esposa do brahmin, e ela também caiu aos pés do Abençoado, gritando, “Meu filho, onde estiveste todo este tempo ? Não é dever das crianças confortarem os pais na velhice?” Daí, ela fala aos filhos e filhas que o irmão deles chegou, e manda-os saudarem o Buddha. E na sua alegria o casal ancião mostrou grande hospitalidade aos convidados. Após a refeição, o Mestre recitou ‘aos velhos’ o Sutra relativo a anciedade ( n. do tr.: Jarā-sutra do Sutra-nipāta ) ; e, quando ele terminou, ambos o marido e a mulher, o esposo e a esposa, ganharam fruição do Segundo Caminho. Então levantando-se do seu lugar, o Mestre voltou para Añjanavana.

Em reunião no Salão da Verdade, os Irmãos passaram a falar deste assunto. Apressaram-se em dizer que o brahmin sabia que Suddhodana era o pai, e Mahāmāyā a mãe, do Buddha ; apesar disto, ele e sua esposa clamaram ser o Buddha filho deles, - e isto teve assentimento do Mestre. O quê significa tudo isto ? Escutando eles falarem, o Mestre disse, “Irmãos, o par ancião estava certo em me chamarem filho deles.” E assim falando, ele contou esta história do passado.

-----------------------

Irmãos, em idades passadas este brahmin foi meu pai em 500 sucessivos nascimentos, meu tio da mesma maneira, e em mais 500 meu avô. E em 1.500 nascimentos sucessivos sua esposa foi respectivamente minha mãe, minha tia, e minha avó. Então fui criado em 1.500 nascimentos por este brahmin, e em 1.500 por sua esposa.

E com isto, tendo contado destes 3.000 nascimentos, o Mestre, como Buddha, recitou esta estrofe:-

À pessoa em quem tua mente descansar, com quem teu coração
agradar-se no primeiro olhar, - coloque nela tua crença.

-----------------

Sua lição terminada, o Mestre mostrou a conexão e identificou o Jātaka dizendo, “Este brahmin e sua esposa eram o marido e a esposa em todas estas existências, e eu a criança.”

Jātaka  237 // com versos canônicos diferentes sendo a mesma conta, a mesma história.



67 Buddha rei de Benares


                                                  
67 “Um filho é fácil de achar...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana, sobre uma certa mulher camponesa.

Pois aconteceu certa vez em Kosala que três homens aravam nas bordas de uma certa floresta, e que ladrões que assaltassem o povo e escapassem por aquela floresta. As vítimas vieram, no curso de uma busca infrutífera pelos bandidos, até onde os três homens aravam.  “Aí estão os ladrões da floresta, disfarçados como pais de famílias,” eles gritaram, e arrastaram o trio como prisioneiros até o Rei de Kosala. Bem, logo em seguida veio ao palácio do rei uma mulher em altos choros pedindo por “aquilo com que me cubro.” 

Escutando o choro dela, o rei ordenou que lhe dessem um lençol ; mas ela recusou, dizendo que não era aquilo que dizia. Então os empregados do rei vieram de volta e disseram a ele que a mulher não queria roupas mas um esposo. Então o rei fez com que trouxessem a mulher para diante dele e perguntou a ela se realmente queria dizer um esposo.

“Sim, senhor,” ela respondeu ; “pois um marido é a real coberta de uma mulher, e àquela que falta um esposo – mesmo que se vista com roupas caras de mil dinheiros – está na realidade nua e desprovida. “

(E para reforçar esta verdade, o Sutra seguinte deve ser recitado:-

Como reinos sem rei, como rios secos,
Assim nua e desprovida é vista uma mulher.
Em quem, tendo ainda 10 irmãos, falta um companheiro.)

Agraciado com a resposta da mulher, o rei perguntou qual a relação dela com os prisioneiros. E ela disse que um era seu marido, outro seu irmão, e outro seu filho. “Bem, para marcares minha gratidão,” disse o rei, “te darei um dos três. Qual você escolhe ?” “Senhor,” foi a resposta dela, “se eu viver, posso ter outro marido e outro filho; mas como meus pais estão mortos, nunca conseguirei outro irmão. Dê-me então meu irmão, Senhor.” Agraciado pela mulher, o rei liberta os três homens ; e assim esta mulher foi o meio de salvação destas três pessoas do perigo.

Quando o assunto chegou ao conhecimento da Irmandade, louvavam a mulher no Salão da Verdade, quando o Mestre entrou. Escutando qual o tema da conversa, ele disse, “esta não é a primeira vez, Irmãos, que esta mulher salva estes três do perigo ; ela fez o mesmo em dias passados.” E, assim falando, ele contou esta história do passado.

------------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), três homens aravam na borda da floresta e acontece tudo como acima.

Sendo perguntada pelo rei qual dos três ela escolheria, a mulher disse, “Não pode sua majestade dar-me os três?” “Não,” disse o rei, “não posso.” “Bem, se não posso ter todos os três, dê-me meu irmão.” “Leve seu esposo ou seu filho,” disse o rei. “Que importa um irmão?” “Os dois anteriores posso prontamente substituir,” respondeu a mulher, “mas um irmão nunca !” E assim falando repetiu esta estrofe:-

Um filho é fácil de encontrar; um marido também
Uma ampla escolha amontoa-se nos negócios públicos.
Mas onde encontrará, minhas dores, outro irmão?

“Ela está mais do que certa,” disse o rei, agraciado. E ordenou que os três homens fossem soltos da prisão e entregues a mulher. Ela tomou os três e seguiu seu caminho.

----------------------

“Então vocês vejam, Irmãos,” disse o Mestre, “que esta mesma mulher uma vez antes salvou estes mesmos três homens do perigo.” Sua lição terminada, ele fez a conexão e identificou o Jātaka dizendo, “A mulher e os três homens de ho-je eram a mulher e os homens daqueles dias idos ; e eu era então o rei.”








segunda-feira, 3 de março de 2008

66 Buddha e Coração Gentil



66
“Até Coração-gentil ser minha...etc.”- Esta história foi contada pelo Mestre enquanto em Jetavana, sobre concupiscência. Tradição diz que um jovem nobre de Sāvatthi, escutando a Verdade pregada pelo Mestre, deu seu coração à Doutrina das Três Joias. Renunciando o mundo pela vida de Irmão, elevou-se em andar nos Caminhos, praticar meditação e nunca afrouxava na ponderação do tema que tinha escolhido para pensar. Um dia, enquanto estava na jornada de coleta de oferta em Sāvatthi, viu um mulher bem vestida, e, por prazer, quebrou a mais alta moralidade e olhou para ela ! A paixão foi atiçada, instigada dentro dele e ele se tornou como uma figueira derrubada por machado. Deste dia em diante, no vai e vem da paixão, o palato da sua mente, com também do seu corpo, perdeu todo o gosto ; como uma besta bruta, não tinha alegria na Doutrina, e deixou unhas e cabelos crescerem e seu hábito ficou sujo.

Quando seus amigos entre os Irmãos deram-se conta do seu lamentável estado de mente, disseram, “Por quê, senhor, seu estado é outro do que era?” “Minha alegria se foi,” ele disse. Então eles o levaram até o Mestre, que perguntou a eles por quê traziam aquele Irmão lá contra a vontade dele. “Porque, senhor, a alegria dele se foi.” “Isto é verdade, Irmão?” “É , Abençoado.” “Quem te causou este problema?” “Senhor, estava na coleta na rua quando, violando a mais alta moralidade, olhei uma mulher ; e a paixão surgiu dentro de mim. Daí que vem o problema.” Disse o Mestre então, “É maravilha pouca, Irmão, que quando, violando moralidade, você olhe por prazer, um ser excepcional, sejas agitado de paixão. Pois, em tempos passados, mesmo aqueles que ganharam os cinco Altos Conhecimentos e as oito Consecuções, aqueles que pelo poder do Insight temperaram suas paixões, cujos corações estavam purificados e com os pés que podiam andar nos céus, sim, mesmo Bodhisatvas, por olhar violando moralidade um ser excepcional, perdeu seu insight, foi atiçado de paixão, e chegou a grande sofrimento. Pouco importa ao vento que pode virar Monte Sirenu, um montículo qualquer não maior que um elefante; pouco importa a um vento que pode desenraizar uma poderosa árvore Jambu, um arbusto na face de uma montanha ; e pouco importa a um vento que pode secar um vasto oceano, um pequeno lago. Se paixão pode alimentar loucura em Bodhisatvas de luz suprema e mente pura, deve a paixão ser inferiorizada diante de ti ? Pois, mesmo seres puros são extraviados pela paixão, e aqueles avançados nas mais altas honras, são humilhados.” E assim falando, ele contou esta história do passado.

--------------------------

Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, o Bodhisatva nasceu numa rica família brahmin no país Kāsi. Quando estava crescido e tinha terminado sua educação, renunciou todas as Luxúrias, e, abandonando o mundo pela vida de eremita, foi viver nas solidões dos Himālaias. Lá com o preenchimento devido de todas as formas preparatórias de meditação, ele ganhou com o pensar abstrato os Altos Conhecimentos e as Consecuções enstáticas ; e assim vivia a vida em benção do Insight místico.

Falta de sal e vinagre o trouxeram um dia a Benares, fazendo moradia nos jardins do rei. Dia seguinte, depois das necessidades corporais, vestiu a roupa vermelha de casca de árvore que comumente vestia, jogando por cima do ombro uma pele negra de antílope, amarrou seus cachos num coque no topo da cabeça, e com uma canga amarrou duas cestas que colocou nos ombros, e saiu em jornada de coleta de oferta. Seguindo o caminho chegou no portão do palácio, e sua aparência impressionando ao rei, foi até ele levado. Então o asceta sentou num sofá esplendoroso e foi alimentado com as comidas mais finas. E quando ele agradeceu ao rei, foi convidado a morar no jardim. O asceta aceita a oferta, e por dezesseis anos mora no jardim, exortando os da casa do rei e comendo de sua carne.

Bem veio um dia em que o rei teve que ir para as fronteiras apaziguar um levante. Mas, antes dele partir, encarregou sua rainha, cujo nome era Coração-gentil, em prestar serviços ao homem santo. Assim, após a partida do rei, o Bodhisatva continuou a ir quando queria ao palácio.

Um dia a Rainha Coração gentil preparou uma comida para o Bodhisatva ; mas como ele atrasava em chegar, ela foi para seu toilette. Após banhar-se em água-perfumada, ela vestiu-se esplendorosamente, e deitou, esperando ele chegar, num pequeno sofá de um quarto espaçoso.

Acordando do rapto do Insight, e vendo como estava atrasado, o Bodhisatva se transportou pelos ares até o palácio. Escutando o farfalhar da roupa de árvore, a rainha levantou-se apressada para recebê-lo. Na pressa do levantar, a túnica dela caiu, de modo que a beleza dela foi revelada ao asceta enquanto entrava pela janela ; e àquela vista, violando Moralidade ele olhou com prazer a beleza da rainha. Acesa foi luxúria em seu coração ; ele ficou como árvore derrubada por machado. De uma só vez todo Insight saiu dele, e tornou-se como corvo com asas cortadas. Pegando a comida ainda de pé não comeu mas saiu, todo tremendo de desejo, do palácio para sua tenda no jardim, deitou-se debaixo da cama de madeira e lá ficou por sete dias inteiros presa da fome e da sede, escravizado de amor pela rainha, seu coração em chamas de paixão.

No sétimo dia, o rei voltou de pacificar a fronteira. Depois de passar em procissão solene ao redor da cidade, entrou no palácio. Então, querendo ver o asceta, foi para o jardim, e lá na cela encontrou o Bodhisatva deitado na cama. Pensando que o santo homem estava doente, o rei, após esvaziar a cela, perguntou, enquanto batia nos pés do sofredor, o que o machucava. “Senhor, meu coração esta em cadeias de luxúria ; esta é minha única dor.” “Paixão por quem ?” “Por Coração gentil, senhor.” “Então ela é sua ; dou ela para você,” disse o rei. Então foi com o asceta para o palácio, e pedindo à rainha que se vestisse com esplendor, deu ela ao Bodhisatva. Mas, enquanto estava dando ela, o rei privadamente encarregou-a de tentar ao máximo salvar o santo homem.

“Não tema, senhor,” disse a rainha ; “vou salvá-lo.” Então com a rainha saiu o asceta do palácio. Quando eles já tinham passado o grande portão, a rainha gritou que eles deveriam ter uma casa para morar ; e deviam voltar para pedir ao rei uma. Então voltaram e pediram ao rei uma casa para viver, e o rei deu a eles uma moradia caída em que passantes usavam de dormitório. Para esta casa o asceta levou a rainha ; mas ela categoricamente recusou-se a entrar, por causa do estado de sujeira em que estava.

“Que farei?” ele gritou. “Pois limpe-a,” ela disse. E ela o enviou ao rei para buscar um enxadão e uma cesta para remover a sujeira, e catar emboço para as paredes, de estrume. Isto feito, ela o fez arranjar uma cama, um banco, um tapete, e moringa e copo, enviando-o cada vez para uma coisa. Depois, ela o envia para pegar água e milhares de outras coisas. Saiu então ele atrás da água, e encheu os potes, e colocou água para o banho, e fez a cama. E, quando ela sentou com ele na cama, ela o tomou pelas costeletas e o puxou para ela até estarem face a face, e disse, “Esqueceste que és homem santo e brahmin?”

Ali ele voltou a si mesmo após seu intervalo de loucura insana.
(E aqui deve-se repetir o texto que começa, “Assim os obstáculos da Luxúria e do Anseio são chamados Ruins porque brotam da Ignorância, Irmãos; aquilo que brota da Ignorância cria Escuridão.”)

Então tendo ele voltado a si mesmo, pensou como crescendo e crescendo, este desejo fatal o condenaria depois aos Quatro Estados de Punição (n. do tr.: ínferos, criação bruta, reino fantasma e reino ruim). “Neste dia mesmo,” ele gritou, “ devolverei esta mulher ao rei e voarei para as montanhas !” Então ficou com a rainha diante do rei e disse, “Senhor, não quero mais sua rainha ; e era apenas por ela que os anseios nasceram dentro de mim.” E assim dizendo, repetiu esta estrofe:-

Até Coração gentil ser minha, um só desejo
Eu tinha, - ganhá-la. Quando sua beleza
Me pertencia, senhor, desejo amontoou atrás de desejo.

Daí em diante seu poder de Insight perdido, voltou. Elevando-se da terra e sentando-se no ar, ele pregou a Verdade ao rei ; e sem tocar na terra passou pelos ares até os Himālaias. Nunca mais voltou aos caminhos dos homens ; mas cresceu em amor e caridade até, com Insight inquebrável, passar para um novo nascimento no Reino de Brahma.

------------------------

Sua lição terminada, o Mestre pregou as Verdades, no final das quais aquele Irmão ganhou Arahat(idade). Mostrou também o Mestre a conexão e identificou o Jātaka dizendo, “Ānanda era o rei naqueles dias, Uppala-vannā era Coração gentil, e eu o eremita.”