sexta-feira, 5 de junho de 2009

307 Buddha espírito d'árvore da Judéia



307
“Por quê, brahmin, apesar...etc.” - “O Mestre quando deitado no leito de morte, contou esta história sobre o Ancião Ānanda.
O venerável homem, sabendo que o Mestre neste nesma tarde morreria, disse a si mesmo, “Ainda estou sob disciplina e tenho obrigações a fazer e meu Mestre certamente morrerá e então o serviço que prestei a ele por vinte e cinco anos será infrutífero.” E assim tomado de tristeza apoiou-se na cabeça de macaco que forma o ferrolho [da porta] do depósito do jardim e explodiu em lágrimas.
E o Mestre, sentindo falta de Ananda, perguntou aos Irmãos onde ele estava, e ouvindo do que se tratava , endereçou-lhe as seguintes palavras: “Ananda, você armazenou mérito em abundância. Continue a esforçar-se sinceramente e logo serás livre da paixão humana. Não se aflija. Por que deveriam os serviços que você me prestou até agora serem infrutíferos, visto que os seus serviços anteriores em dias de teus pecados não foram sem prêmio ?” Então ele contou uma lenda do passado.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, o Bodhisatva veio à vida na forma de um espírito de árvore da Júdeia. Bem, naquele tempo todos os habitantes de Benares eram devotos da veneração de tais deidades e constantemente engajados em ofertas religiosas e semelhantes.
E um certo brahmin pobre pensou, “Eu também vou cuidar de alguma divindade.” Então ele encontrou uma grande árvore da Judéia crescendo em um alto morro e varrendo tudo em volta e jogando cascalho , mantinha as raízes macias e livres de grama. Então presenteou-a com guirlanda perfumada com os cinco ramos e acendendo lâmpadas, oferecia flores, perfumes e incenso. E após saudação reverente ele dizia, “Paz esteja contigo,” e seguia seu caminho. No dia seginte veio bem cedo e perguntou sobre como ela estava. Bem, um dia ocorreu ao espírito d'árvore, “Este brahmin é muito atencioso comigo. Vou testá-lo e descobrir por quê ele me venera deste jeito e premiá-lo com seu desejo.” Quando o brahmin veio e varria ao redor das raízes, o espírito aproximou-se dele disfarçado como um ancião brahmin e repetiu a primeira estrofe :-

Por quê , brahmin, apesar de abençoado de razão
Estais a dirigir-se a esta árvore insensata ?
Vã é tua reza, tua gentil saudação também vã,
Desta madeira insensata não ganharás resposta.

Escutando isto o brahmin respondeu com a segunda estrofe :-

Muito tempo neste lugar permaneceu uma famosa árvore ,
Lugar de encontro e moradia de espíritos da floresta ;
Com espanto profundo tais seres venero,
Eles guardam, creio, aqui, um tesouro sagrado.

O espírito da árvore ouvindo estas palavras ficou satisfeito com o brahmin e disse-lhe, “Ó brahmin, nasci como a divindade desta árvore. Nada tema. Vou premiá-lo com este tesouro.” E para assegurá-lo, por grande manifestação de poder divino, permaneceu sentado nos ares na entrada da sua mansão celestial, enquanto recitava mais duas estrofes :-

Ó brahmin, percebi teu ato de amor ;
Um gesto piedoso nunca será infrutífero.
Veja ! Lá onde aquela figueira joga sua ampla sombra,
Sacrifícios devidos e dons antigos foram pagos.
Abaixo daquela figueira descansa enterrado um tesouro,
O ouro desenterre e clame-o como teu prêmio.

O espírito ainda adicionou estas palavras : “ Ó brahmin, tu ficarias cansado se tivesses que desenterrar este tesouro e carregá-lo contigo. Tu portanto siga teu caminho e eu o levarei até tua casa e o depositarei em tal e tal lugar. Então desfrute dele por toda a tua vida e faça ofertas e guarde a lei moral.” E após assim aconselhar o brahmin, o espírito d'árvore, exercitando seu poder divino, transportou o tesouro para a casa do brahmin.
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O Mestre aqui terminou sua lição e identificou o Jataka : “Naquele tempo Ananda era o Brahmin e eu mesmo o espírito d'árvore.”

306 Buddha e a vendedora de jujubas



306
“Que fruta é esta...etc.” - Esta história foi contada pelo Mesre enquanto residia em Jetavana sobre a rainha Mallikā.
Um dia, eles dizem, houve uma disputa na corte entre ela e o rei ( Pasenadi, rei de Kosala ). As pessoas ainda falam disso como 'A querela do harém.' O rei ficou tão irado que passou a ignorar a existência dela. Mallika pensou : “ Imagino que o Mestre não sabe a raiva que o rei está de mim”. Mas o Mestre sabia de tudo e resolveu fazer as pazes entre eles. Assim, cedo pela manhã colocou o manto e tomando a tigela e a capa entrou em Sāvatthi com quinhentos irmãos e foi para a porta do palácio. A rei tomou a tigela dele, trouxe-o para dentro de casa e o colocou numa cadeira apropriada, derramando a Água dos Dons, nas mãos da Irmandade com o Buddha de líder e trouxeram arroz e bolos para comer. Mas o Mestre cobriu sua tigela com as mãos e disse: “Senhor, cadê a rainha?”.
“O quê você tem a ver com ela, Reverendo Senhor ?” ele respondeu. “A cabeça dela ‘tá virada, está intoxicada com as honras que desfruta.”
“Senhor,” ele disse, “depois de você mesmo ter depositado estas honras na mulher, é errado agora afastar-se dela, e não perdoar a ofensa que ela cometeu contra ti.”
O rei escutou as palavras do Mestre e mandou chamar a rainha. E ela serviu o Mestre. “Vocês devem,” ele disse, “viver juntos pacificamente,” e cantando os louvores das doçuras da concórdia, seguiu seu caminho. E a partir daquele dia viveram felizes juntos.
Os Irmãos levantaram uma discussão no Salão da Verdade sobre como o Mestre reconciliou o rei e a rainha com poucas palavras. O Mestre, quando entrou, perguntou o quê os Irmãos conversavam, e ao ser informado disse, “Não apenas agora, Irmãos, mas antes também os reconciliei com poucas palavras de conselho.” E ele contou uma velha história.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, o Bodhisatva era seu ministro e conselheiro temporal e espiritual.
Bem, um dia o rei contemplava a corte (o cortejo, o pátio) do palácio em uma janela aberta. E justo naquele momento a filha de um verdureiro (fruteiro), uma linda donzela na flor da juventude, permanecia com sua cesta de jujubas na cabeça bradando, “Jujubas, jujubas maduras, quem quer comprar jujubas ?” [ n. do tr.: Jujuba é um fruto, etimologia de jujuba é zizyphon (gr.) e ziziphy (lat.), goma arábica, indiana, como tantas coisas que são arábicas]. Mas ela não se aventurava adentrar a corte real , ficando na margem.
E o rei logo que ouviu a voz dela, apaixonou-se e quando ele soube que era solteira, mandou chamá-la e elevou-a à dignidade de rainha principal e depositou nela grande honra. Bem, ela era cara e querida aos olhos do rei. E um dia o rei sentou-se a comer jujubas em um prato dourado. E a rainha Sujātā, quando viu o rei comendo jujubas , questionou-o dizendo, “Meu senhor, o quê estais comendo ?” E ela pronunciou a primeira estrofe :

Que fruta é esta em forma de ovo, meu senhor, tão bela e rubra de cor,
Neste prato dourado diante de ti ? Prego, diga-me, onde elas crescem.


O rei que ficou irado disse, “Ó filha de verdureiro, negociante de jujubas maduras, não reconheces as jujubas, o fruto especial de tua própria família ?” E ele repetiu duas estrofes :-

De cabeça descoberta e roupa velha, minha rainha, não te envergonhavas,
De preencher teu colo com frutos de jujuba e agora perguntas o nome dela ;
Estais consumida de orgulho, minha rainha, não encontrando prazer na vida,
Saia e colha jujubas novamente. Não deves ser mais minha rainha.


Então o Bodhisatva pensou, “Ninguém a não ser eu mesmo, será capaz de reconciliar estes dois. Apaziguarei a cólera do rei e evitarei que coloque ela para fora.” então ele repetiu a quarta estrofe :-

Estes são os pecados de uma mulher, meu senhor, promovidas a alto rank:
Perdoe-a e cesse com tua ira, Ó rei, pois foi tu que a fizeste grande.


Assim o rei com este conselho perdoou a ofensa da rainha e a restaurou a posição anterior. E daí em diante eles viveram juntos felizes.
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O Mestre, sua lição terminada, identificou o Jataka : “Naquele tempo o rei de Kosala era o rei de Benares, Mallika era Sujata e eu mesmo era o Ministro.”



quinta-feira, 4 de junho de 2009

305 Em verdade não há...etc.


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305
Em verdade não há...etc.” - Esta história o Mestre contou enquanto residia em Jetavana sobre a censura ao pecado. As circunstâncias serão estabelecidas no Jataka 459. O que segue é um breve sumário delas.
Quinhentos Irmãos vivendo em Jetavana por volta da meia noite, entram em discussão sobre o prazer dos sentidos. Bem, o Mestre em todas as seis divisões da noite e do dia mantem contínua vigilância sobre os Irmãos, como um caolho guarda seu olho único, um pai seu único filho, ou um iaque seu rabo. À noite, com sua visão sobrenatural em Jetavana, viu estes Irmãos, como estavam, como ladrões que encontraram seu caminho em algum grande palácio real. E abrindo sua câmara perfumada ele chamou Ānanda e o ordenou que reunisse os Irmãos na Casa do Piso Dourado e preparasse uma cadeira para ele na porta desta câmara perfumada. Ānanda fez como ordenado e chamou o Mestre. O Mestre então sentando no lugar preparado para ele, dirigiu-se aos Irmãos coletivamente e disse, “Irmãos, sábios antigos pensavam que não havia tal coisa como segredo no agir errado e portanto refreavam-se dele,” e contou a eles uma história dos tempos antigos.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, o Bodhisatva veio à vida em uma família brahmin e quando já tinha idade, lhe foi ensinada ciência por um professor de fama mundial daquele cidade, que comandava uma classe de quinhentos alunos. Bem, este professor tinha uma filha crescida. E ele pensou : “Testarei a virtude destes jovens e a darei em casamento àquele que exceda em virtude.”
Então um dia ele assim se dirigiu aos pupilos : “Meus amigos, tenho uma filha crescida e tenho a intenção de dá-la em casamento mas preciso de vestidos e ornamentos apropriados para ela. Vocês portanto roubem alguns sem que seus amigos, conhecidos, o percebam e tragam-nos para mim. Aceitarei aquilo que ninguém perceba que foi tomado mas se deixares algo que tragas, ser visto, recusarei.” Eles consentiram dizendo, “Muito bem,” e a partir daquele dia furtaram vestidos e ornamentos sem que seus amigos percebessem e os trouxeram para ele. E o professor arrumou tudo que cada pupilo trouxera, em um lugar separado. O Bodhisatva contudo nada furtou.
Disse então o professor, “Você todavia, meu amigo, nada me trouxe.” “É vero, Mestre,” ele respondeu. “Por quê isto, meu amigo ?” ele perguntou. “Nada aceitas,” ele respondeu, “que não seja pego em segredo. Mas considero que não há tal coisa como segredo em agir errado.”
E para ilustrar esta verdade ele repetiu estas duas estrofes :-

Em verdade não há ato de transgressão, que neste mundo possa esconder-se,
Aquilo que o tolo, um segredo julga, os espíritos da floresta espiam.
Encobrimento em nenhum lugar pode ser encontrado, nem o vazio pode existir para mim,
Mesmo quando nenhum ser é visto, enquanto estou lá, nenhum vazio existe.

O Mestre, agradando-se dos versos disse, “Amigo, não há falta de bens na minha casa, mas ansioso por casar minha filha com uma pessoa de virtude, agi para testar estes jovens. Mas apenas você merece minha filha.” Ele então adornou a filha e a deu em casamento ao Bodhisatva, mas aos outros pupilos ele disse, “Levem de volta tudo que vocês me trouxeram, para as várias casas novamente.”
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Então o Mestre disse, “Foi assim, Irmãos, que os pupilos errados, devido a sua desonestidade, falharam em conquistar esta mulher, enquanto este jovem sábio por sua conduta virtuosa obteve-a como esposa.” E em sua Sabedoria Perfeita ele falou ainda duas outras estrofes :-

Mestres Bastardo, Baixo, Fácil e Alegre,
Com Bravo e Frágil por uma esposa, extraviaram-se ;
Mas nosso Brahmin, contemplando desde jovem a Lei,
Ganhou uma esposa pela coragem em sustentar a Verdade.

[ A Glosa explica que estes eram os nomes dos seis discípulos líderes entre aqueles que cederam à tentação.]

O Mestre, tendo terminado esta solene lição, declarou as Verdades e identificou o Jataka:- Na conclusão das Verdades estes quinhentos Irmãos atingiram Santidade :- “Naquele tempo Sariputra era o Professor e eu mesmo era o Jovem Sábio.”


quarta-feira, 3 de junho de 2009

cabeça de Buddha


Pedra sabão ; séc. XIII ou XIV A.D. (Khmer). Cambodja ; em Trocadero, Paris.

Ushnisha fortemente desenvolvida e a figura de Dhyani Buddha na frente dela. A ushnisha é uma das características físicas do Buddha representando seus poderes sobrenaturais. Algumas vezes a protuberância do Seu crânio aparece como uma chama, flama, simbolizando a fonte e o lugar da luz.

304 Buddha Naga



304
“Ó Daddara, quem... etc.” - Esta história o Mestre contou enquanto residia em Jetavana, sobre um certo companheiro colérico. As circunstâncias já foram relatadas antes. Nesta ocasião quando a discussão surgiu no Salão da Verdade sobre a natureza irada do indivíduo, o Mestre entrou e quando à resposta a sua pergunta foi dito pelos Irmãos o tema da conversa, e mandou chamar o homem e perguntou, “É verdade, Irmão, o quê eles dizem, que és irascível ?” “Sim, meu Senhor, é verdade,” ele respondeu. Então o Mestre disse, “Não apenas agora, Irmãos, mas antigamente também este companheiro foi muito colérico e devido a sua têmpera irada, sábios de dias anteriores, apesar de levarem continuamente vida perfeitamente inocente como príncipes Nāga, tiveram que morar três anos em uma esterqueira suja.” E aqui ele contou uma velha história.
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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, as Nāgas Daddaras moravam no sopé do Monte Daddara na região do Himalaia e o Bodhisatva veio à vida como Mahadaddara, o filho de Suradaddara, o rei daquele país, com um irmão mais jovem chamado Culladaddara. Este último era colérico e cruel e seguia abusando e batendo nas donzelas Naga. O rei Naga, escutando sobre a crueldade dele, deu ordens para que o expulsassem do mundo Naga. Mas Mahadaddara conseguiu de seu pai que o perdoasse e salvou seu irmão da expulsão. Uma segunda vez o rei ficou bravo com ele e novamente foi induzido a perdoá-lo. Mas na terceira vez o rei disse, “Você evitou qu'eu expulsasse este sujeito que-não-serve-para-nada ; agora vocês dois conseguiram ser exilados deste mundo Naga e devem viver por três anos em Benares numa esterqueira.”
Deste modo os mandou para fora do país Naga e eles foram e viveram em Benares. E quando os garotos da vila os perceberam olhando para a comida deles numa vala limite da esterqueira, bateram neles e atiraram paus, torrões de terra e outros 'mísseis' e gritaram, “O que temos aqui – lagartos d'água com cabeças grandes e rabos de agulha ?” pronunciando outras falas abusadas. Culladaddara contudo, devido a sua natureza feroz e colérica, sendo incapaz de aguentar tal desrespeito disse, “Irmão, estes garotos estão zombando da gente. Eles não sabem que somos serpentes venenosas. Não posso tolerar o desprezo deles para conosco. Vou destruí-los com o sopro da minha narina.” E então dirigindo-se a seu irmão, ele repetiu a primeira estrofe :-

Oh Daddara, quem tal insulto pode suportar ?
Ouça, eles gritam ‘pau comedor de sapo na lama’ :
Pensar que estas indefesas e pobres criaturas ousem
Desafiar uma serpente de presas venenosas !

Escutando estas palavras Mahadaddara pronunciou o resto das estrofes :-

Levado em exílio a um porto estranho
Deve-se de abuso recolher uma boa provisão ;
Pois onde seu rank e virtudes ninguém conhece,
Só o tolo cuidaria de mostrar seu orgulho.
Aquele que em casa pode ser uma “luz brilhante”,
Fora, de pessoas de baixo nível, deve sofrer.

Deste jeito eles moraram lá por três anos. Então o pai deles os chamou de volta para casa. E a partir dali o orgulho deles estava abatido.
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Quando o Mestre terminou seu discurso, proclamou as Verdades e identificou o Jataka : - Na conclusão das Verdades o Irmão colérico atingiu a Fruição do Terceiro Caminho : “Naquele tempo o Irmão colérico era Culladaddara e eu mesmo era Mahadaddara.”

[ Cf. Jataka 524 e 545 . No primeiro Buddha é novamente um Naga no mundo dos Nagas e por sua piedade em querer purgar esta existência, sofre do mesmo modo nas mãos dos homens, como neste jataka : lembra aquela serpente de papel levada por baixo por oito pessoas em festas chinesas porque oito pessoas o carregam com varas. No segundo Ele é um ser humano levado ao mundo das Nagas para lá ensiná-las. Depois volta. Não que tenha sido fácil. ]



terça-feira, 2 de junho de 2009

303 Buddha Rishi


303
“Ó monarca, que primeiro...etc.” - Esta história o Mestre contou enquanto residia em Jetavana sobre um cortesão do rei de Kosala. As circunstâncias que sugerem a história já foram relatadas no Jataka 282. Nesta ocasião o Mestre disse, “Vocês não são os únicos que retiram o bem para fora do mal : sábios antigos também tiram o bem para fora do mal.” E ele contou uma história do mundo antigo.
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Certa vez um ministro que ajudava o rei de Benares comportou-se mal no harém real. O rei após testemunhar sua ofensa com os próprios olhos, o baniu para fora do reino. Como ele entrou a serviço do rei de Kosala, chamado Dabbasena, está contado no Jataka 51.
Na presente história contudo, Dabbasena prende o rei de Benares sentado no meio de seus conselheiros e amarrando-o com uma corda no marco da porta, o suspendeu de cabeça para baixo. O rei cultivou sentimentos de caridade para com o príncipe rebelde e por um processo de completa absorção entrou em estado de meditação mística e rompendo os laços sentou de pernas cruzadas nos ares. O príncipe rebelde foi atacado com uma febre dolorosa no corpo e com um grito de “Queimo, queimo,” rolava e rolava no chão. Quando ele questionou a razão disto, seus cortesãos responderam, “É porque o rei que suspendestes de cabeça para baixo no marco da porta é um homem santo e inocente.” Então ele disse, “Vão rapidamente e libertem-no.” Seus empregados vão e encontram o príncipe sentado de pernas cruzadas nos ares, voltam e contam a Dabbasena. Este então segue a toda velocidade e prostando-se diante dele pede o seu perdão e repete a primeira estrofe:-

Ó monarca que primeiro em teu reino habitas,
Deliciando-se de benção por poucos mortais vista,
Como é que estando debaixo de torturas Infernais
Calmo e de semblante tranqüilo ainda estais ?

Escutando isto o Bodhisatva repetiu o resto das estrofes :-

Antes era minha reza primeira , ir para o Céu
Não mais estar ausente das filas dos ascetas,
Mas agora que tal glória me foi dada,
Por que estaria de cara amarrada ?

O fim está realizado, minha tarefa feita,
O príncipe antes inimigo não mais estranho,
Mas agora que a fama que tanto ansiei está ganha,
Por quê estaria de semblante diferente ?

Quando alegria torna-se tristeza, e bem mal,
Almas pacientes até prazer podem arrancar da dor,
Mas não conhecem tal distinção de sentimento,
Pobres mortais quando atingem o calmo Nirvana.

Escutando isto Dabbasena pediu desculpa ao Bodhisatva e disse, “Legisle sobre teu povo e eu afastarei os rebeldes de ti.” E após punir o mau conselheiro ele seguiu seu caminho. Mas o Bodhisatva transmitiu seu reino para os ministros e adotando a vida ascética de um Rishi tornou-se destinado a nascer no mundo de Brahma.
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Quando o Mestre terminou este discurso, ele identificou o Jataka : “Naquele tempo Ananda era Dabbasena e eu mesmo era o rei de Benares.”




segunda-feira, 1 de junho de 2009

302 Os presentes dados...etc.


302
“Os presentes dados...etc.” - Esta história o Mestre contou enquanto residia em Jetavana sobre o Ancião Ananda. As circunstâncias que sugerem a história já foram dadas. “Em dias anteriores também,” disse o Mestre, “homens sábios agiram com o princípio de que um gesto de bondade merece outro em troca.” E com isso ele contou a eles uma história dos tempos antigos.
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Certa vez quando o Bodhisatva reinava em Benares e exercia sua legislação com justiça e equidade, ele fazia ofertas e guardava a lei moral.
Estando preocupado em por fim a alguns distúrbios na fronteira ele partiu com um largo exército mas sendo derrotado ele montou em seu cavalo e fugiu até alcançar uma certa vila na fronteira. Bem, lá moravam trinta súditos leais que reuniam-se muito cedo, no meio da cidade, para transações comerciais na praça. E neste momento o rei montado em seu cavalo coberto com carapaça e esplendidamente equipado, adentrou na praça pelo portão da vila. O povo ficou aterrorizado e dissendo, “O quê pode ser isto ?” todomundo fugiu para sua casa. Mas havia um homem que sem fugir para sua própria casa, veio dar boas vindas ao rei. E dizendo ao estranho que o rei, ele escutara, veio para a fronteira, inquiriu quem era e se realista ou rebelde. “Sou a favor do rei, Senhor,” ele respondeu. “Então venha comigo,” ele disse e levou o rei para sua própria casa e o fez sentar em sua cadeira. Então o homem disse para sua esposa, “Minha querida, lave os pés deste nosso amigo ;” e quando ela já tinha isto feito, ele ofereceu a melhor comida que pode e preparou-lhe uma cama, pedindo que descansasse um pouco. Assim o rei deitou. Então seu hospedeiro tirou àrmadura do cavalo, soltou-o, deu-lhe água para beber e grama para comer e esfregou óleo nele. Deste jeito cuidou do rei por três ou quatro dias e o rei disse, “Amigo, agora eu vou partir,” e novamente fez todo o serviço necessário para o rei e para o cavalo. O rei depoisque se alimentou, ao partir disse, “Sou chamado Grande Cavaleiro. Nossa casa é no centro da cidade. Se fores lá para qualquer negócio, entre pela porta da direita e pergunte ao porteiro onde mora o Grande Cavaleiro e acompanhe-o e venha em nossa casa.” Com estas palavras ele partiu.
Bem, o exército, não encontrando orei, permaneceu acampado fora da cidade mas quando o viram, saíram para encontrá-lo e o escoltaram até sua casa. O rei entrando na cidade parou na entrada do portão e chamando o porteiro ordenou à multidão que se afastasse e disse, “Amigo, um certo homem que vive numa vila da fronteira virá aqui, ansioso por nos ver, e perguntará onde fica a casa do Grande Cavaleiro. Pegue-o pela mão e traga-o à nossa presença e assim receberás mil dinheiros.”
Mas como o homem não vinha, o rei aumentou o imposto da vila em que morava. Contudo apesar do imposto estar elevado, ainda assim ele não veio. Então o rei aumentou os impostos uma segunda e uma terceira vez, e ainda assim ele não veio. Os habitantes da vila então reuniram-se e disseram ao homem : “Senhor, desde quando o Cavaleiro veio até aqui, somos tão oprimidos com impostos que não podemos nem levantar a cabeça. Vá ver o Grande Cavaleiro e convença-o a liberar um pouco a carga.”
“Está certo, eu irei,” ele respondeu, “mas não posso ir de mãos vazias. Meu amigo tem dois filhos : então aprontem ornamentos e arranjem roupas para eles e para a esposa dele e para meu amigo também.”
“Muito bem,” eles disseram e arrumaram tudo como um presente.
Então ele pegou ambos, este presente e um bolo feito em sua casa. E quando chegou na porta da direita perguntou ao porteiro onde ficava a casa do Grande Cavaleiro. O porteiro respondeu, “Venha comigo e eu te mostrarei,” e tomando-o pela mão e chegando na porta do rei enviou uma mensagem, “O porteiro chegou e trouxe com ele o homem que mora na vila na fronteira.” O rei escutando isto, levantou-se de seu assento e disse, “Deixem meu amigo e todos que vieram com ele entrar.” Então ele seguiu na direção dele para recebê-lo e abraçá-lo e depois de perguntar se sua esposa e filhos estavam bens, tomou pela mão, subiu no alambrado e o sentou no trono real debaixo do parassol branco. E chamou sua esposa principal e disse, “Lave os pés de meu amigo.” E ela lavou os pés dele. O rei aspergia água de uma tigela dourada, enquanto a rainha lavava os pés dele e os ungia com óleo de essências. Então o rei perguntou, “Você nos trouxe algo de comer ?” E ele respondeu, “Sim, meu senhor,” e tirou os bolos da bolsa. O rei colocou-os em um prato dourado e mostrando grande favor para com ele disse, “Comam o quê meu amigo trouxe,” e deu um pouco para a rainha e para os ministros, e ele mesmo também comeu. O estranho então entregou o outro presente. E o rei para mostrar que o aceitava, retirou suas vestes de seda e colocou o conjunto de roupas que o outro trouxera para ele. A rainha também, tirou seu vestido de seda e ornamentos e colocou o vestido e os ornamentos que ele trouxera para ela. O rei depois ofereceu comida própria de rei e ordenou a um dos conselheiros, dizendo, “Vá e veja que a barba dele seja aparada como a minha e que ele seja banhado em água perfumada. Depois vista-o em roupa de seda válida cem mil dinheiros e adornando-o em estilo real, traga-o aqui.” Isto foi feito. E o rei com o toque do tambor através de toda a cidade reuniu seus conselheiros e colocando uma tira / corda vermelha pura através do parassol branco, deu a ele metade do seu reino. A partir daquele dia eles comeram, beberam e moraram juntos e tornaram-se amigos firmes e inseparáveis.
O rei então mandou chamar a família e a esposa do homem e fez com que se construísse uma casa para eles na cidade e legislaram o reino em perfeita harmonia. Os cortesãos então ficaram irados e disseram ao filho do rei, “Ó príncipe, o rei deu metade do reino para um certo dono de casa. Ele come e bebe e mora com ele, e nos ordena que saudemos os filhos dele. Que serviço ele prestou ao rei, não sabemos. O quê o rei pensa ? Nos sentimos envergonhados. Fale com o rei.” Ele prontamente concordou em fazer tal e falou as mesmas palavras para o rei e disse, “Ó grande rei, não aja assim.”
“Meu filho,” ele respondeu, “sabes onde fiquei depois que fui derrotado em batalha ?”
“Não sei meu senhor,” ele disse.
“Fiquei morando,” disse o rei, “na casa deste homem e quando recuperei a saúde, retornei e reinei novamente. Como portanto não deveria conceder honra ao meu benfeitor ?”
E então o Bodhisatva continuou dizendo, “Meu filho, quem quer que dê presente a um que não o valha e ao que merece nada dê, este homem quando cai em infortúnio não encontra ninguém que o ajude.” E para indicar a moral, pronunciou estes versos :-

Os presentes dados a um tolo ou a um ladrão,
Na aflita necessidade não trará amigo para salvação :
Mas graça e delicadeza mostrada ao bom
Na aflita necessidade te trará ajuda oportuna.
Dons às almas que nada valem são gastos em vão,
Teu serviço, o menor que seja, ao bom, é ganho :
Uma nobre ação ainda que solitária,
Rende ao doador o valor de um trono :
Como fruto abundante de uma pequena semente,
Fama eterna brota de um ato de boa mente.

Escutando isto nem os conselheiros nem o jovem príncipe tiveram o quê responder.
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O Mestre seu discurso terminado, assim identificou o Jataka : “Naquele tempo Ananda é que morava na vila na fronteira, enquanto eu mesmo era o rei de Benares.” Cf. Jataka 157.