segunda-feira, 18 de junho de 2012

446 Buddha Menino


446
Não há bulbos aqui...etc.” - Esta história o Mestre contou em Jetavana sobre um leigo que amparava o pai.

Este homem, aprendemos, re-nasceu em uma família que passava necessidade. Após a morte da mãe, ele costumava levantar cedo de manhã e preparar os gravetos escovas de dentes e àgua para lavar a boca ; depois trabalhando por salário ou arando o campo, costumava procurar mingau de arroz e então alimentar seu pai de modo adequado a seu estado de vida. Disse seu pai a ele, “Meu filho, o que quer que deva ser feito dentro e fora de casa você faz sozinho. Deixe-me encontrar para você uma esposa e ela fará o trabalho de casa para você.” - “Pai,” disse ele, “se mulheres entrarem em casa elas não trarão paz a tua nem à minha mente. Por favor não sonhe com tal coisa ! Enquanto viveres te ampararei ; e quando faleceres, saberei o que fazer.”

Mas o pai chamou uma garota, muito contra a vontade de seu filho ; e ela cuidava do marido e do pai ; mas ela era uma criatura baixa. Bem, seu marido estava satisfeito com ela por cuidar do seu pai ; e o que quer que pudesse encontrar para agradá-la, ele trazia e dava para ela ; e ela mostrava para o sogro. Até que em determinado momento a mulher pensou, “O que quer que meu marido consegue, ele me dá e não passa nada para seu pai. Está claro que ele não liga o mínimo para ele. Devo encontrar um jeito de colocar em desacordo o velho com meu marido e assim colocá-lo para fora de casa.” Então a partir daí começou a esquentar ou esfriar muito àgua para ele e à comida salgava muito ou nada e o arroz ela servia ou muito duro ou papa ; e através deste tipo de coisa fez tudo para provocá-lo. Então, quando ele ficou irado, ela ralhou : “Quem pode cuidar de uma criatura velha desta !” disse ela e incitou a discórdia. E por todo o chão ela cuspia e provocava seu marido - “olha lá !” ela dizia, “o quê teu pai está fazendo ! Estou constantemente pedindo a ele para não fazer isto e ele só fica com raiva. Ou teu pai deixa esta casa ou eu !” O marido então respondeu, “Senhora, és jovem e podes viver onde quiseres ; mas meu pai é um senhor de idade. Se você não gosta dele podes deixar a casa.” Isto a amedrontou. Ela se jogou aos pés do velho e pediu perdão a ele, prometendo não fazer mais aquilo ; e passou a cuidar dele como antes.

O valoroso laico estava tão preocupado com as tagarelices dela que se omitiu de visitar o Mestre e escutar Seu discurso ; mas quando ela voltou a si, ele foi. O Mestre perguntou por quê ele não tinha ido escutar a pregação nestes sete ou oito dias. O homem relatou o quê aconteceu. “Desta vez,” disse o Mestre, “você recusou escutá-la e colocar teu pai para fora ; mas em tempos passados você fez o quê ela mandou ; você o levou para um cemitério e cavou para ele uma cova. Naquela hora quando você estava prestes a matá-lo, eu tinha sete anos de idade e falando sobre a bondade dos pais, evitei o parricídio. Naquele vez você me escutou e cuidaste de teu pai enquanto ele viveu e te tornaste destinado ao paraíso. Te avisei então e te aconselhei a não abandoná-lo quando chegasse em outra vida ; por causa disto você agora recusou fazer o quê a mulher te pediu e teu pai não foi assassinado.” Assim falando, com o pedido do leigo, ele contou uma história do passado.
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Certa vez, quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), havia em uma família de uma certa vila de Kasi um único filho chamado Vasitthaka. Este homem amparava seus pais e após a morte da mãe, cuidava do pai como descrito na introdução. Mas havia uma diferença. Quando a mulher disse, “Olha lá ! O quê teu pai está fazendo ! Estou constantemente pedindo a ele para não fazer isto, e ele só faz se irritar !” ela continuou, “Meu senhor, teu pai é feroz e violento, pois está sempre arranjando briga. Um velho decrépito como este, atormentado pela doença, está fadado a morrer logo ; não posso viver na mesma casa que ele. Ele falecerá por si só antes que passem muitos dias ; bem, leve-o a um cemitério, cave uma cova, jogue ele lá dentro e quebre a cabeça dele com a pá ; e quando estiver morto, ponha terra em cima e o deixe lá.” Por fim, à força desta repetição em seus ouvidos, ele disse, “Esposa, matar uma pessoa é assunto sério : como posso fazer isto ?” “Te direi um jeito,” cotejou ela. - “Diga então.” - “Bem, meu senhor, ao crepúsculo do dia, vá até o lugar em que teu pai dorme ; diga a ele bem alto, para que todos possam ouvir, que um devedor dele está em uma certa vila, que você foi até lá mas que ele não pagou e que se ele morrer o sujeito nunca pagaria nada ; e diga que vocês dois vão dirigir até lá juntos de manhã. Então no momento indicado, levante-se, coloque os animais no carro e o leve ao cemitério. Quando chegar lá, enterre-o numa cova, faça barulho como se tivesse sido roubado, machuque-se, lave a cabeça e retorne.” “Está bem, seguirei este plano,” disse Vasitthaka. Ele concordou com a proposta dela e aprontou o carro para a jornada.

Bem, o pai de família tinha um filho, garoto de sete anos mas sábio e inteligente. O garoto ouviu por acaso o quê sua mãe disse, “Minha mãe,” pensou ele, “é uma mulher ruim e está tentando persuadir papai a matar o vovô. Impedirei meu pai de cometer este assassinato.”
Ele correu rapidamente e deitou ao lado do avô. Vasitthaka, no tempo que a esposa sugeriu, preparou o carro. “Venha, pai, vamos saldar aquela dívida !” disse ele, e colocou seu pai no carro. Mas o menino entrou primeiro de todos. Vasitthaka não pode impedi-lo,e então o levou também ao cemitério com eles. Então, deixando seu pai e o filho juntos num lugar separado, com o carro, ele desceu, pegou a pá e a cesta, e em um lugar escondido deles começou a cavar um buraco quadrado. O menino desceu, o seguiu, e como se ignorasse o que acontecia, começou uma conversa repetindo a primeira estrofe :

Não há bulbos aqui, nem se encontram plantas para cozinhar
Nem erva dos gatos, nem qualquer outra vegetação para comer.
Então pai, por quê este buraco, sem necessidade alguma,
Penetrando no campo da Morte no meio da mata solitária ?

Então seu pai respondeu repetindo a segunda estrofe :

Teu avô, filho, está muito velho e fraco,
Oprimido pela dor de muitas doenças :
Vou enterrá-lo em uma cova ho-je ;
Com tal modo vida não posso deixá-lo ficar.

Escutando isto, o garoto respondeu repetindo meia estrofe:

Tu estás errado em desejar isto,
E tal ato, é gesto cruel.

Com estas palavras, ele pegou a pá das mãos de seu pai e a uma distância não muito grande começou a cavar outra cova.
Seu pai se aproximando perguntou por quê cavava aquele buraco ; ao que ele respondeu terminando a terceira estrofe :

Eu também, quando tu estiveres idoso, meu pai,
Te tratarei como tratas teu pai ;
Seguindo o costume da família
Fundo em um buraco também te enterrarei.

Com isto o pai respondeu falando a quarta estrofe :

Que palavras ásperas para um garoto dizer,
E censurar o pai deste modo !
E pensar que meu próprio filho ralha comigo,
E a seu amigo mais verdadeiro seja indelicado !

Quando o pai falou assim, o sábio menino recitou três estrofes, uma a guisa de resposta e as duas outras como hino santo :

Não sou áspero meu pai nem indelicado,
Não, te vejo com mente amigável :
Mas isto que fazes, este ato de pecado, teu filho
Não terá forças para desfazer, uma vez feito.

Quem quer que, Vasittha, machuque com intenção doente
Sua mãe ou seu pai, inocentes,
Ele, quando o corpo é dissolvido, estará
No ínfero pela próxima vida indubitavelmente.

Quem quer que com bebida e carne, Vasittha,
Sua mãe e seu pai alimente, também
Ele, quando o corpo for dissolvido, irá
Para o céu em sua próxima vida, indubitavelmente.

O pai, após escutar seu filho assim discursar, repetiu a oitava estrofe :

Vejo, que não és nenhum ingrato sem coração, filho,
Mas gentil comigo, Ó meu filho ;
Foi em obediência as palavras de tua mãe
Que pensei em fazer este gesto horrível, abominável.

Disse o rapaz quando escutou isto, “Pai, mulheres, quando um erro é cometido e elas não são censuradas, novamente cometem pecado. Deves dobrar minha mãe, para que ela nunca mais novamente faça um tal ato como este.” E ele repetiu a nona estrofe :

Esta esposa tua, dama de má condição,
Minha mãe, ela que me deu à luz – esta mesma,
Vamos expelir para longe de nossa residência,
Para que não obre dano em ti também.

Escutando estas palavras do sábio menino, satisfeito ficou Vasitthaka, e disse, “Vamos meu filho !” e sentou no carro com o pai e o filho.

Bem, a mulher também, esta pecadora, estava feliz no coração ; pois, pensava ela, aquele desgraçado estava fora da casa agora. Ela emplastou o lugar com estrume seco e cozinhou um pouco de mingau de arroz. Mas enquanto sentada vigiava a estrada pela qual eles voltariam, espreitou eles vindo. “Lá está ele, de volta com o velho desgraçado !” pensou ela, com muita raiva. “UUU, inútil !” gritou ela, “trazendo de volta o desgraçado que levaste contigo !” Vasitthaka não disse nenhuma palavra mas desatrelou o carro. Depois disse, “Miserável, o quê você falou ?” Ele bateu nela e a expulsou porta afora, mandando que ela nunca mais manchasse a porta dele novamente. Depois deu banho no pai e no filho e ele mesmo também se banhou e os três comeram mingau de arroz. A mulher má morou por alguns dia em outra casa.

Então o filho disse ao pai : “Pai, com tudo isto minha mãe ainda não entendeu. Bem, vamos tentar avexá-la. Você espalhe que em tal e tal vila vive uma sobrinha sua, que te ajudará com teu pai e teu filho ; e assim você irá e buscará ela. Então pegue flores e perfumes e entre no carro e dirija pelo campo o dia todo, retornando de noitinha.” E assim ele fez. As mulheres na vizinhança da família contaram à esposa ; -”Você ouviu,” disseram eles, “que teu marido foi pegar outra esposa em tal lugar ?” “Ah, então estou acabada !” cotejou ela, “e não sobrou nenhum lugar para mim !” Mas ela iria perguntar ao filho ; rapidamente ela veio até ele e caiu aos seus pés, chorando - “A não ser você não tenho nenhum outro refúgio ! De agora em diante cuidarei de teu pai e teu avô como cuidaria de um belo santuário ! Deixe-me voltar para casa !” “Sim mãe,” respondeu o garoto, “se você não fizer novamente o quê fizeste, deixarei ; alegre-se !” e quando o pai chegou falou a décima estrofe :

Aquela esposa tua, dama de má condição,
Minha mãe, que me deu a luz – aquela mesma -
Como uma aliá domesticada, em total controle,
Deixe-a retornar, aquela alma pecadora.

Assim falou ele para seu pai e então foi e chamou sua mãe. Ela, estando reconciliada com seu marido e seu sogro, daí em diante ficou comportada e dotada de retidão e cuidava do marido e do sogro e do filho ; estes dois, rigidamente seguindo os conselhos do filho, fizeram ofertas e obras boas e tornaram-se destinados a se juntar às hostes celestes.
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O Mestre, tendo terminado este discurso, declarou as Verdades : ( na conclusão das Verdades, o filho dedicado foi estabelecido na fruição do Primeiro Caminho : ) então identificou o Jataka :- “Naquele tempo, pai, filho e nora eram os mesmos que os de agora e o sábio menino era eu mesmo.”




     

quarta-feira, 13 de junho de 2012

[ n. do tr. : os dois pássaros, auspícios ]

E os dois pássaros no alto d'árvore ? São dois anjos n'árvore da vida já que em ambos os Jatakas, 284 e 445, são vistos como em sonho e em lugares sagrados : o alimento ingerido portanto é a própria doutrina com sua opção entre o alimento espiritual e o material conforme a fala do Buddha no 284 e a imagem do carro também. Segue trecho de um Upanishad - Mundaka Upanishad III,1

Nesta árvore perecível que é o corpo humano, habitam dois pássaros companhias um do outro. Um deles é dependente e controlado pelo outro. É a alma individual, a jiva, que estando cercada pelas limitações de avidya e pelos desejos, alimenta-se dos bons e maus frutos de suas ações. Mas o outro, Brahman, que em sua real natureza é onisciente, livre, e incontaminado, aparece como mera testemunha do que o outro faz e curte, sem ele mesmo fazer ou comer qualquer dos frutos. De fato, apenas seu testemunho torna-se um incentivo suficiente para o outro ser ativo, justo como a presença do rei apenas é suficiente para fazer os súditos ocuparem-se em seus trabalhos. “

Os dois pássaros são os mesmos sendo que um vive no mundo e outro não, um vale cem dinheiros e outro a unção real. A citação cristã que se aproxima é a do Evangelho de s. Mateus 13, 31 - “O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. Embora seja a menor de todas as sementes, quando cresce é a maior das hortaliças e torna-se árvore a tal ponto que as aves do céu se abrigam nos seus ramos.”

A linguagem dos pássaros é a doutrina espiritual sabida, provada, experimentada, em banquete eucarístico : o Jataka guarda inclusive a imagem da semente plantada em solo bom. E o nome do Buddha então é nome de árvore, Niagrodha, árvore com raízes aéreas, celestes. A etimologia de auspícios é ave-spicere, espreitar as aves, o quê soma à interpretação dada e a carrega de significado simbólico ( cf. R. Guenón, Símbolos da Ciência Sagrada, Pensamento, SP. ).

445 Buddha asceta Nigrodha


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          Veluvana / Bosque de Bambus, Índia


445
Quem é este homem...etc.” - Esta história o Mestre contou no Bosque de Bambus sobre Devadatra. Um dia os Irmãos disseram a ele, “Amigo Devadatra, o Mestre te ajudou muito ! Do Mestre, você recebeu suas Ordens, menores e maiores ; você aprendeu as Três Cestas, a voz do Buddha ; você fez com que se levantasse o Ênstase dentro de ti ; a glória e o ganho de Dasabala ( Buddha, “aquele que possui os dez poderes” ) pertence a você.” Com isto ele segurou uma folha de grama, com as palavras, “Não vejo nenhum bem que o asceta Gotama me fez, nem mesmo este tanto !” Eles discutiam isto no Salão da Verdade. Quando o Mestre entrou, perguntou sobre o quê discutiam sentados juntos. Eles disseram. Ele falou, “Irmãos, esta não é a primeira vez mas há muito tempo atrás como agora, Devadatra foi ingrato e traiçoeiro com os amigos.” E ele contou um conto dos dias antigos.

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Certa vez um grande monarca chamado Magadha reinava em Rajagaha. E um mercador desta cidade trouxe para casa, para ser esposa do seu filho, uma filha de mercador de certo país. Mas ela era estéril. Com o passar do tempo menos respeito era prestado a ela por causa disto ; todos falavam para que ela escutasse, assim : “Enquanto há uma esposa estéril na casa de nosso filho, como poderá a linhagem da família ser mantida ?” Como este falatório ficava entrando no ouvido dela, ela disse para si mesma, “Então está bem, vou fingir estar grávida e enganá-los.” E assim ela perguntou a uma boa e antiga ama dela “O quê as mulheres fazem quando estão com criança ?” e sendo instruída no que fazer para preservar o bebê, escondeu quando menstruava ; mostrou desejos por gostos estranhos e amargos ; no tempo em que os braços e as pernas começavam a inchar, ela fez com que se lhe batesse as mãos, os pés e as costas até que crescessem ; todo dia ela fazia bandagem ao redor do seu corpo com trapos e roupas para parecer maior ; enegreceu os bicos dos peitos ; e além daquela ama não deixou ninguém estar presente em seu banheiro. Seu marido também dedicou a ela as atenções próprias do seu estado. Depois de nove meses passados deste jeito, ela declarou ser seu desejo retornar para casa e dar à luz na residência de seu pai. Então despedindo-se dos pais de seu marido, ela montou numa carruagem e com um largo número de ajudantes deixou Rajagaha atrás dela e pegou a estrada.

Bem, viajando na frente dela estava uma caravana ; e ela sempre no horário do café da manhã aproximava-se do lugar onde a caravana tinha acabado de estar. E uma noite, uma pobre mulher deu à luz um filho debaixo de uma árvore banian ; e considerando que sem a caravana ela não poderia seguir mas que se ela vivesse poderia encontrar a criança, o cobriu como estava e o deixou deitado lá, aos pés da árvore banian. E a deidade d'árvore tomou conta dele ; não era uma criança qualquer mas o Bodhisatva mesmo que veio ao mundo daquela forma.

Na hora do café da manhã os outros viajantes chegaram no lugar. A mulher, com sua empregada, separando-separa debaixo da sombra d'árvore banian para fazer suas necessidades, viu um bebê de cor dourada deitado lá. Logo ela grita para a empregada que o objetivo delas foi alcançado ; desata as ataduras das coxas ; e declara que o bebê era dela mesma e que acabou de pari-lo.

Os empregados imediatamente levantam uma tenda para protegê-la e altamente felizes mandam uma carta de volta a Rajagaha. Os pais do marido dela escrevem em resposta que como o bebê nasceu, não há mais necessidade dela ir para a casa dos pais; que ela retornasse. Assim para Rajagaha ela voltou imediatamente. E eles conheceram o bebê : e quando o bebê veio a ser nomeado, o chamaram com o nome do lugar onde nasceu, Nigrodha-Kumara, ou Mestre Banian. Naquele mesmo dia, a nora de um mercador, em seu caminho para a casa dos pais para parir, deu à luz um filho debaixo dos ramos de uma árvore ; e a ele eles chamaram Sakha-Kumara, Mestre Galho. E no mesmo dia, a esposa de um alfaiate empregado deste mercador deu à luz um filho no meio dos pedaços de tecidos dele ; e ele foi chamado Pottika, ou Mexedor de roupa.

O grande mercador mandou chamar estas duas crianças, que nasceram no mesmo dia de Mestre Banian e os criou junto com ele.

Eles cresceram juntos e logo foram para Takkasila ( Taxila ) para completar sua educação. Ambos os filhos dos mercadores tinham dois mil dinheiros ( peças ) para dar ao professor deles como pagamento ; Mestre Banian proviu Pottika de educação debaixo de sua proteção.

Quando a educação deles estava terminada, eles despediram-se de seu professor e o deixaram, com a intenção de aprender os costumes do povo do campo ; e viajando de um lugar para outro, com o tempo chegaram em Benares e deitaram para descansar em um templo. Era o sétimo dia desde que o rei de Benares morrera. Foi feita proclamação pela cidade através do toque do tambor, que de manhã o carro de festa estaria preparado. Os três camaradas estavam deitados debaixo d'árvore dormindo, quando àurora Pottika acordou e sentando-se começou a massagear os pés de Banian. Alguns galos estavam empoleirados nesta árvore e o galo no topo cagou no galo de baixo ( cf. Jataka 284 em que também acontece esta cena ). “O que é isto que caiu em mim ?” perguntou este galo. “Não fique irado, senhor,” respondeu o outro,”foi sem querer.” “Ah, então você pensa que meu corpo é um lugar para seus dejetos ! Você não conhece minha importância, isto está claro !” A isto o outro disse, “Oh, ainda com raiva apesar d'eu dizer que foi sem querer ! E qual é a sua importância, prego ?” - “Quem quer que me mate e coma minha carne receberá mil peças de dinheiros ainda nesta manhã ! Não é algo de que se orgulhar ?” “Bah,” cotejou o outro, “orgulho de algo tão pequeno como isto ! Pois, se alguém me mata e come minha gordura, tornar-se-á rei ainda nesta manhã; aquele que comer minha carne do meio, torna-se comandante-chefe ; e aquele que comer a carne ao redor dos ossos, será tesoureiro !”
Pottika escutou tudo isto. “Mil dinheiros-” pensou ele, “O que é isto ? Melhor ser rei !” Então mansamente subindo n'árvore, ele pegou o galo que empoleirava-se no topo e o matou e o cozinhou em brasas ; a gordura deu a Banian, a carne do meio para Galho e ele mesmo comeu a carne que estava junto aos ossos. Quando eles já tinham comido, disse, “Banian, Senhor, ho-je serás rei ; Galho, Senhor, serás comandante-chefe ; e quanto a mim, sou o tesoureiro !” eles perguntaram como sabia ; ele contou a eles.

Então ao redor da hora do almoço, entraram na cidade de Benares. Na casa de um certo brahmin eles receberam uma refeição de mingau de arroz com ghee e açúcar ; e depois saindo da cidade entraram no parque real.

Banian deitou em uma laje pedra, os outros dois deitaram do lado dele. Então aconteceu que naquele momento estavam justamente enviando a carruagem cerimonial com os cinco símbolos da realeza nela ( espada, parassol, diadema, sandálias e leque )( os detalhes disto serão dados no Jataka 539 sobre o grande Janaka ; deste carro se fala na postagem anterior : Parasara e o carro dos sentidos ). O carro andando e parando, permaneceu pronto para eles entrarem. “Algum ser de grande mérito deve estar presente aqui !” pensou o capelão consigo mesmo. Ele entrou no parque e espreitou o jovem ; e então removendo a coberta de seus pés examinou as marcas sobre eles. “Pois,” disse ele, “ele está destinado a ser Rei de toda a Índia, que seja apenas de Benares !” e ele ordenou que todos os gongos e címbalos fossem tocados.

Banian despertando retirou a coberta de seu rosto e viu uma multidão reunida ao redor dele ! Ele vira e por um momento ou dois fica deitado ; então levanta e senta com as pernas cruzadas. O capelão dobra um joelho dizendo “Divino ser, o reino é teu !” “Assim seja,” disse o jovem ; o capelão o colocou em cima de uma pilha de pedras preciosas e o ungiu rei.

Assim feito rei, ele deu o posto de Comandante-chefe para seu amigo Galho e entrou na cidade com grande pompa ; e Pottika ( depois deste ponto ele é várias vezes chamado Pottiya ) foi com eles.

Desde dia em dia o Grande Ser legislou retamente em Benares.

Um dia a lembrança de seus pais veio à mente dele ; e dirigindo-se a Galho , ele disse, “Senhor, é impossível viver sem pai e mãe ; tome uma companhia de soldados e vá buscá-los.” Mas Galho se recusou ; “Isto não é problema meu,” disse. Então ele pediu a Pottika para fazer isto. Pottika concordou e indo até os pais de Banian, contou a eles que seu filho tornara-se rei e os pedia que fossem até ele. Mas eles declinaram dizendo que tinham poder e riqueza : tanto que bastava, e não iriam. Ele pediu aos pais de Galho também para ir e eles também preferiram ficar ; e quando convidou seus próprios pais eles disseram, “Vivemos da alfaiataria ; é suficiente, bastante,” e recusaram como o resto.

Como ele falhou em atingir seus objetivos, ele retornou à Benares. Pensando que descansaria da fatiga da viagem na casa do Comandante-chefe antes de ver Banian, ele foi para esta casa. “Diga ao Comandante-chefe,” falou ao porteiro, “que seu camarada Pottika está aqui.” O homem fez isto. Mas Galho havia concebido um rancor contra ele porque, cotejando-o, aquele havia dado a seu camarada Banian o reino ao invés de dar para ele mesmo ; então escutando esta mensagem, cresceu sua raiva. “Camarada realmente ! Quem é camarada ? Um caipira doido mal-nascido ! Pegue-no !” Então bateram nele e o chutaram e o castigaram com pontapés, joelhadas e cotovelas e depois pegando-o pelo pescoço o atiraram para fora.

Galho,” pensou ele,”ganhou o posto de Comandante-chefe por minha causa e agora é ingrato, malicioso, me bateu e me jogou para fora. Mas Banian é um sábio agradecido e bom e a ele irei.” Então para a porta do rei ele foi e enviou uma mensagem ao rei que Pottika seu camarada estava esperando na porta. O rei pediu que entrasse e quando o viu se aproximar, levantou-se do assento e foi encontrá-lo e saudá-lo com afeição ; fez com que o barbeassem e cuidassem dele e o adornou com todo tipo de ornamento e deu a ele carnes gostosas de todo tipo para comer ; e isto feito, sentou graciosamente do seu lado e o perguntou sobre seus pais, que como o outro o informou se recusaram a vir.

Bem, Galho pensou consigo mesmo, “Pottika vai me insultar aos ouvidos do rei mas s'eu estiver junto ele não será capaz de falar” ; então ele também foi para lá. E Pottika, na presença dele mesmo, falou ao rei dizendo, “Meu senhor, quando eu estava cansado da viagem, fui à casa de Galho, esperando descansar lá e depois visitá-lo. Mas Galho disse, 'Não o conheço !' e me tratou mal e me atirou para fora pelo pescoço ! Podes acreditar nisto !” e com estas palavras ele pronunciou três estrofes de versos :

'Quem é este homem ? Não o conheço ! E o pai dele, quem ?
Quem é este homem ?' assim Sakha disse : - Nigrodha, que pensas tu ?

Então os homens de Sakha com as ordens de Sakha me deram bofetes na face,
E me pegando pelo pescoço me atiraram para fora do lugar.

Que ato de traição tal não faz um homem mau !
Um ingrato é uma vergonha, Ó rei – e ele é teu camarada também.

Escutando isto, Banian recitou quatro estrofes :

Não conheço, nem nunca ouvi falar por ninguém,
Tal mal como este que contas o qual Sakha te fez.

Comigo e Sakha viveste ; éramos ambos teus camaradas ;
Do império sobre a humanidade nos deste a cada um uma parte :
Conseguimos majestade através de ti, e nenhuma dúvida há nisto.

Como quando uma semente é jogada no forno, torrando e não crescendo ;
Torna-se um homem bom em mau, perecendo igual.

O agradecido, bom e virtuoso tais homens não são como eles ;
Semeados em bom solo em atos de homens bons nunca são atirados fora.

Enquanto Banian recitava tais linhas, Galho ficou parado onde estava. Então o rei perguntou a ele, “Bem, Galho, reconheces esse homem Pottika ?” Ele ficou abobalhado. E o rei deu suas ordens sobre o sujeito nestas palavras da oitava estrofe:

Amarrem este traidor sem valor aí, cujos pensamentos são tão maus ;
Empalem-no ! Pois eu o mataria – sua vida é nada para mim !

Mas Pottika, escutando isto, pensou consigo mesmo - “Que este tolo não morra por minha causa !” e pronunciou a nona estrofe :
Grande Rei, tenha misericórdia ! Vida uma vez ida e difícil trazer de volta :
Meu senhor perdoe e deixe-o viver ! Não quero mal ao miserável.

Quando o rei escutou isto, ele perdoou Galho ; e desejava dar o posto de Comandante-chefe para Pottika mas não o faria. Então o rei deu a ele o posto de de Tesoureiro e com ele todo o árbitro das guildas de mercadores. Antes disto tal ofício não havia mas há desde então. E logo Pottika o Tesoureiro Real sendo abençoado com filhos e filhas, pronunciou a última estrofe para aconselhá-los :

Com o Nigrodha deve-se morar ;
Ficar com Sakha não é bom.
Melhor com Nigrodha morrer
Do que com Sakha tomar fôlego.

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Este discurso terminado, o Mestre disse, “Então, Irmãos, vocês vêem que Devadatra foi ingrato antes,” e depois identificou o Jataka : “Naquele tempo, Devadatra era Sakha, Ānanda era Pottika e eu mesmo era Nigrodha.”



segunda-feira, 4 de junho de 2012

[ n. do tr. : Parasara e o carro dos sentidos ]



Parasara e o carro dos sentidos  ( in Plutarco Védico isbn 978-85-906438-0-7 )

Tanto neste jataka 445 quanto no 539 vemos a cena do carro cerimonial que é solto sem auriga, sem motorista, para sozinho percorrer a cidade atrás de um rei apropriado. A cidade toda vae atrás dele uns querendo impedir o caminho e outros liturgicamente abre m a passagem para que vá sem qualquer intervenção humana e siga livremente. Que carro, carruagem, é este ? Somando às referências que unem oriente e ocidente temos em um relato da história de Roma este mesmo carro que anda solto, sozinho, com vida própria : está na 'Vida de Publícola' de Plutarco e teria ocorrido em meados do séc. VI a.C. . Vejamos então estes parágrafos XIII e XIV :
XIII. Fazia então pela segunda vez Tarquinio guerra na Etruria aos romanos e se diz que aconteceu um portento extraordinário. Reinando ainda Tarquinio, tinha já quase concluído o templo de Júpiter Capitolino e fosse por vaticínio que se fez ou por movimento e ditame próprio, encarregou uns artistas tirrenos da cidade de Veyes de fazer uma carroça de barro que havia resolvido colocar no arremate ( do templo ) e ao cabo de pouco tempo perdeu o reino. Puseram os tirrenos a carroça de quatro cavalos já formada para cozinhar no forno e não aconteceu o que era natural acontecesse com a argila, que era ao entrar contrair-se dissipada a umidade mas se dilatou e se tornou oca, tomando tanto volume e tanta consistência que ainda retirada a cobertura do forno e derrubada as paredes, houve dificuldade para tirá-la. Julgaram os adivinhos que aquilo repesesntava um grande prodígio e que anunciava felicidade e autoridade àqueles em cujo poder estivesse a carruagem ; com o que determinaram os veyanos não entregá-la aos romanos, que a pediam e responderam que pertencia a Tarquinio e não aos que o haviam desterrado. Poucos dias depois tinham os veyanos corridas de cavalos e tudo aconteceu como de costume em tais espetáculos ; porém com o carro vencedor aconteceu que assim que o carreteiro saiu coroado do circo, quando espantados os cavalos, sem nenhuma causa conhecida mas por algum impulso superior ou por boa sorte, deram de correr e escapar para Roma, levando o carreteiro. De nada serviu ele puxar as rédeas e mandá-los parar, porque lhe arrebataram ( o carro ), tendo que ceder e sujeitar-se ao ímpeto, até que chegados ao Capitólio, o jogaram em terra junto à porta que agora chamam Ratumena. Maravilhados e temerosos os veyanos com este acontecimento, permitiram que a carruagem ( de barro ) se devolvesse aos artistas.
XIV. Este templo de Júpiter Capitolino foi voto, promessa, de Tarquinio de Demarato que ofereceu dedicar-lhe estando em guerra com os sabinos ; porém o construiu Tarquinio o Soberbo, filho ou neto do que o votou ( Hércules ao lado de Evandro o árcade foi o primeiro a levantar o altar ali : ofereceu um dos bois de Gerião do seu décimo trabalho, o gado do sujeito que tinha três cabeças na então península ibérica ; no caso as três cabeças como no muro Atlântida mesma representam a estratificação social mesma organizada tradicionalmente ) ( Numa também no alto da colina, ele presidente dos áugures, voltando-se para os pontos cardeais examinava o que pronunciava os deuses por meio dos agouros ou prodígios : as aves davam os agouros : faustos / fastos ou nefastos ). Não chegou a dedicar-lhe mas faltou muito pouco para concluir quando Tarquinio foi deposto. Logo que estava acabado e todo adornado, se acendeu em Publícola o desejo de fazer sua dedicação. O viam com inveja muitos dos principais e as demais honras que havia alcançado e pareciam próprias como legislador ( fez boas leis para a plebe ) mas como general não miravam com tanto encômio ; à dedicação tinha como alheio a ele e instavam Horacio para que disputasse com ele a dedicação. Jogada as sortes Publícola perde e deve sair em uma expedição militar indispensável, decretando-se que fosse Horacio o dedicante, subiram com ele ao Capitolio (...) Nos idos pois de setembro na lua cheia congregados todos no Capitolio, Horacio depois de impor silêncio e praticar as demais cerimônias, chegando até as portas, como é costume, pronunciou as palavras estabelecidas para a dedicação ; mas o irmão de Publícola , Marco, que já estava há um tempo também na porta esperando o momento oportuno : “Cónsul, grito ele, teu filho morreu de uma doença no exército.” Causou isto pesar em todos os circunstantes ; porém Horacio, sem alterar-se nem o mínimo e não dizendo outra coisa que “deixes o morto onde quiseres pois não me abandono ao pranto”, concluiu o que restava da dedicação. Não era certa a notícia mas Marco fingiu para distrair a Horacio ; contudo é muito digna de elogio a serenidade do cónsul, seja por se impor rápido ao engano, seja mantendo-se inalterado com tal nova, dando-lhe crédito.
( No parágrafo seguinte, XV, Plutarco fala das várias construções deste mesmo templo que foi destruído nas guerras civis mas reconstruído por Sila e novamente destruído nos tempos de Vitelio tendo feito o terceiro Vespasiano que teve a sorte de o ver concluído ; mas depois de morto logo foi destruído novamente ; reconstruiu Domiciano pela quarta vez com doze mil talentos só no revestimento à ouro ao que é chamado de outro Midas por querer tornar tudo de ouro. )

Dá para ver claramente que o carro é o mesmo que se movimenta sozinho até no crescer da argila. Como entender esta argila ? A resposta está no Mahabharata em diálogo justamente entre o mesmo grande rei Janaka e o sábio Parasara na Santi parva, seção CCXCII :

Parasara disse, “Aquela pessoa que tendo obtido este carro, isto é, seu corpo dotado de mente, segue, curvando com as rédeas do conhecimento os corcéis representados sob os objetos dos sentidos, deve certamente ser vista como possuidora de inteligência. A homenagem ( na forma de devoção e meditação concentrada no Supremo ) por uma pessoa cuja mente é dependente de si mesma e que jogou fora os meios de vida ( contemptus mundi ) é válida de alto louvor, - esta homenagem, nomeadamente, Ó regenerado, é resultado de instruções recebidas por alguém que teve sucesso em transcender os atos e não obtidas da discussão mútua entre as pessoas em mesmo estado de progresso. Tendo obtido o período de vida determinado, Ó rei, com tal dificuldade, não se deve diminuí-lo ( com a indulgência aos sentidos ). Por outro lado deve-se sempre se empenhar, através de atos corretos, para o próprio avanço gradual. ( ... ) Aquela pessoa que, refletindo com sua mente, Ó rei, e certificando a própria habilidade, realiza atos corretos, certamente obtem o que é para seu benefício. Àgua derramada em vaso não cozido gradualmente diminui e finalmente escapa toda. Se guardada, contudo, em um vaso cozido, permanece sem a quantidade diminuir. Do mesmo modo, atos realizados sem reflexão com a ajuda do entendimento não se tornam bons ; enquanto atos feitos com julgamento permanecem sem diminuir de excelência e geram felicidades como resultado. Se em um vaso que contém água, derrama-se mais água, àgua que originalmente estava lá aumenta em quantidade ; do mesmo modo todos os atos feitos com julgamento, sejam equânimes ou não, só somam as estoque de retidão de alguém.”

A metáfora do vaso é ampla dissertando-se sobre o esmalte de fora e o fogo de dentro, afinal, cozido guarda em si um pouco deste fogo do cozimento . Vemos então que o forno é o forno do julgamento interior, do livre arbítrio que decide a todo momento toda a existência e o carro é o corpo mesmo e seus sentidos. O fato de o grande Janaka ser quem escuta as palavras do sábio Parasara reforça a tese. O fogo do julgamento está claramente na dedicação do templo na fala de Horacio.

Finalmente cabe lembrar que a metáfora do vaso cozido aparece nos odres de couro para botar vinho quando em casa de Levi, Mateus, IHS é interrogado sobre o jejum : ele fala também além dos vinhos novos em odres novos, do Noivo que chega provavelmente no carro apropriado e da roupa nova sem remendo. Antes Ele estivera na casa da sogra de Pedro.

O Fedro dialogando com Sócrates do lado de fora de Atenas junto aos templos de Pan e das Ninfas amplia esta imagem da alma como um carro puxado por cavalos com um auriga que segura uma lâmpada, a mente : o amor  é a luz mesma. A tradução de si-mesmo, self, em grego, auto, esclarece por que move-se sozinho o carro. Vyasa e Markandeya no Mahabharata ampliam a imagem que o Fedro de Plato toma emprestado. É clara a transmissão da Tradição nesta questão. Assim como na República com as castas, raças, classes. A ligação, relação, contato, ocidente oriente, é estarrecedora : juntos desde sempre.

O carro que anda sozinho junto com o cavalo vencedor são imagens do ritual do Asvamedha que vemos realizar-se todo ano em Roma antiga : o cavalo de outubro - G. Dumèzil e a escola de religião comparada estabelecem que o ritual indo-europeu existe no ocidente quanto no oriente: unidade clara. O acontecimento na fundação da república mostra que para além de rituais vazios há uma doutrina viva, desde sempre. 




















sábado, 5 de maio de 2012

444 Buddha asceta Dipayana Negro


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444
Sete dias...etc.” - Esta história o Mestre contou em Jetavana, sobre um certo irmão relapso. A ocasião será explicada no Jataka 531. Quando o Mestre perguntou se este relato era verdadeiro, ele disse, “Irmão, sábios em dias há muito idos, antes que o Buddha surgisse, mesmo homens que tinham entrado na vida religiosa não ortodoxa, por mais de cinquenta anos, andando em santidade sem se importar com isto, com escrúpulos de uma natureza sensível nunca contou a ninguém que foi relapso ; e por quê você que abraçou uma religião como a nossa que leva à salvação e estando em presença de um venerável Buddha que eu sou, por quê declaraste ser relapso diante dos quatro tipos de discípulos ? Por quê não preservaste teus escrúpulos ?” assim falando, ele contou um conto do mundo antigo.
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Certa vez, no reino de Vamsa, reinava em Kosambi ( no Ganges ) um rei chamado Kosambika. Naquele tempo havia dois brahmins em uma certa vila cada um possuindo oitocentos milhões e amigos caros um para o outro ; que, tendo percebido o engano que descansa na luxúria e distribuindo muitos bens em ofertas doadas, ambos abandonam o mundo e no meio de lamento e choro de muitas pessoas, partiram para o Himalaia e lá construíram um eremitério ( hermitage ). Lá por cinquenta anos viveram como ascetas alimentando-se de frutas e raízes da floresta onde tinham a chance de encontrar e colher ; mas entrar em ênstase eles eram incapazes de atingir. 

Depois que estes cinquenta anos passaram eles saíram em peregrinação através do país para conseguir sal e temperos e chegaram no reino de Kāsi. Em uma certa cidade deste reino vivia um dono de casa chamado Mandavya que tinha sido amigo laico no tempo de estudos do asceta Dipayana ( um dos ascetas). A este Mandavya vieram nossos dois amigos ; que quando os viu, arrebatado, construiu para eles uma cabana de folhas e proviu ambos com as quatro necessidades da vida. Três ou quatro estações eles moraram lá e depois despedindo-se dele foram em peregrinação para Benares, onde viveram em um cemitério cultivado de com árvores atimuttaka. Quando Dipayana já tinha ficado lá tanto o quanto quis, voltou a seu velho companheiro novamente ; Mandavya o outro asceta ( que tinha o mesmo nome do dono de casa ) permaneceu morando no mesmo lugar.

Aconteceu de um dia um ladrão que roubara a cidade retornava do ato cometido com uma quantidade de espólio. O proprietário e o vigias levantaram e gritaram “Ladrão!” e o ladrão, perseguido por estes, escapou pelo esgoto e correndo rapidamente pelo cemitério deixou cair um fardo na porta da cabana de folha do asceta. Quando os proprietários viram o fardo na porta eles gritaram, “Ah, você tratante! Ladrão de noite e de dia anda por ahi disfarçado de asceta !” Então, com tapas e socos, o carregaram para diante do rei.

O rei nem investigou mas disse apenas, “Saiam com ele daqui, empalem-no numa estaca !” Levaram-no para o cemitério e o levantaram numa estaca de madeira de acácia ; mas a estaca não machucaria o corpo do asceta. Então trouxeram uma estaca de árvore nimb mas esta também não o furaria : então uma estaca de ferro e nem esta mesmo furaria seu corpo. O asceta cogitava que ato no passado dele poderia ter causado isto e investigou o passado ; então surgiu nele o conhecimento das existências anteriores e com ele investigando o passado viu o quê tinha feito muito tempo atrás ; e era isto – furou uma mosca com uma lasca de ébano.

É dito que numa existência anterior ele foi filho de um carpinteiro. Uma vez ele foi no lugar onde seu pai estava serrando árvores e com uma lasca de ébano furou uma mosca como se empalando-a. E foi justamente este pecado que ele descobriu quando chegou naquele supremo momento. Ele percebeu que aqui então não havia como ficar livre do pecado ; então disse para os homens do rei, “Se vocês querem me empalar , peguem uma estaca de madeira de ébano.” Isto eles fizeram e o espetaram nela e deixaram um guarda para vigiá-lo e saíram.

Os vigias de um lugar escondido observavam todos que vinham para olhá-lo. Então Dipayana, pensando “Faz tempo desde que vi meu camarada asceta,” saiu para vê-lo ; e tendo escutado que ele estava pendurado por todo o dia empalado do lado da estrada, foi até ele e ficando em um dos lados, perguntou o quê ele tinha feito. “Nada,” cotejou ele. “Guardas rancor de alguém ou não ?” perguntou o outro. “Bom amigo,” disse ele, “nem contra aqueles que me prenderam nem contra o rei e não há qualquer rancor em minha mente.” - Se é assim a sombra de alguém tão virtuoso é um prazer para mim,” e com estas palavras sentou embaixo do lado da estaca. Então sobre seu corpo cae gotas de sangue coagulado do corpo de Mandavya ; e estas enquanto caíam sobre a pele dourada e lá secavam, tornavam-se pontos pretos sobre ele ; que deu a ele o nome de Kanha ou Dipayana Negro dahi em diante. E ele ficou sentado lá a noite toda.

Dia seguinte os vigias foram e contaram o acontecido ao rei. “Agi precipitadamente,” disse o rei ; e rapidamente correu para o lugar e perguntou a Dipayana o quê a fez sentar do lado da estaca. “Grande rei,” respondeu ele, “sento aqui para guardá-lo . Mas diga, o quê ele fez, ou o que deixou de fazer, que o trata assim ?” Ele explicou que o assunto não foi investigado. O outro respondeu, “Grande rei, um rei deve agir com circunspecção ; um leigo preguiçoso que ama o prazer não é bom etc ( cf. Jataka 276 ) e com conselhos tais, discursou para ele.

Quando o rei descobriu que Mandavya era inocente, ordenou que a estaca fosse retirada. Mas apesar de tentarem, não saiu. Disse Mandavya, “Senhor, recebi esta desgraça medonha devido a uma falta que aconteceu a muitos anos atrás e é impossível retirar a estaca do meu corpo. Mas se queres poupar a minha vida, traga um serrote e corte dela o pedaço de fora da pele.” Então o rei ordenou que se fizesse isto ; e a parte da estaca de dentro do corpo ficou lá. Pois naquela ocasião prévia dizem que ele pegou um pequeno pedaço de diamante e furou o duto da mosca, de modo que ela não morreu então não até o próprio fim de sua vida ; e dahi também o homem não morreu, dizem.

O rei saudou estes ascetas e suplicou por perdão ; e estabelecendo os dois em seu parque, cuidava deles lá. E a partir deste tempo Mandavya foi chamado Mandavya com a Estaca. E ele viveu neste lugar próximo ao rei ; e Dipayana após curar a ferida de seu amigo asceta voltou para seu amigo Mandavya o dono de casa. Quando eles o viram entrar na cabana de folhas, contaram para seu amigo. Quando ele escutou, ficou feliz ; e com a esposa e criança, pegando abundantes incensos, guirlandas, óleo, e açúcar e coisas semelhantes, foi até a cabana de follhas; saudando Dipayana , lavando e ungindo seus pés e dando a ele de beber, sentou escutando a história de Mandavya da Estaca. Seu filho então, um jovem chamado Yañña-datra, estava jogando com uma bola no fim do caminho coberto. Lá uma serpente vivia em um cupinzeiro A bola do moleque, jogada no chão, rolou por um buraco para dentro do cupinzeiro e caiu em cima da cobra. Sem saber disto, o menino colocou sua mão dentro do buraco. A cobra enraivecida picou a mão dele que caiu desmaiado devido à força do veneno da serpente. Por isto seus pais, encontrando seu filho picado de cobra, o levantaram e levaram para o asceta ; deitando-o aos pés do asceta, eles disseram, “Senhor, pessoas religiosas conhecem amostras e encantos ; por favor cure nosso filho.” - “Não conheço amostras ; e não exerço a medicina.” - “És um homem de religião. Tenha piedade, portanto, Senhor, deste menino e faça o Ato da Verdade.” “Bom,” disse o asceta, “um Ato da Verdade farei.” E colocando as mãos na cabeça de Yañña-datra, ele recitou a primeira estrofe :-

Sete dias sereno no coração
Puro vivi, desejando mérito
Desde então, por cinquenta anos apartado,
Auto-absorvido,declaro,
Aqui, relutante, vivo :
Possa esta verdade produzir uma benção :
Veneno rejeitado, o rapaz reviva !

Logo que feito este Ato de Verdade, para fora do peito de Yañña-datra saiu o veneno e mergulhou no solo. O rapaz abriu os olhos e com um olhar para seus pais, gritou, “Mãe !” e então virou e deitou quieto. Então Dipayana Negro disse para o pai,”Veja, usei o meu poder ; agora é sua tua vez de usar o teu.” Ele respondeu, “Então farei um Ato de Verdade” ; e colocando a mão no peito de seu filho, ele repetiu a segunda estrofe :

Se não ligava a mínima para presentes,
Entretendo todos que eventualmente se apresentavam
Ainda assim o sábio e bom não sabia
Estava meu verdadeiro self restringindo ;
Se relutante dou,
Possa esta verdade uma benção produzir,
Veneno rejeitado, o rapaz reviva !

Após a realização deste Ato de Verdade, para fora de suas costas saiu o veneno e afundou no chão. O rapaz sentou mas não conseguia ficar de pé. Então o pai disse para a mãe, “Senhora, usei o meu poder ; agora é contigo através de um ato de Verdade fazer nosso filho levantar e andar.” Ela disse, “Eu também tenho uma Verdade para falar mas na tua presença não posso falar.” “Senhora,” cotejou ele, “por qualquer e todos os meios faça meu filho inteiro.” Ela respondeu, “Muito bem,” e seu Ato da Verdade é dado na terceira estrofe :

A serpente que te picou ho-je
Naquele buraco, meu filho,
E este teu pai, são, digo,
Em minha indiferença, um :
Possa esta Verdade produzir benção :
Veneno rejeitado, o rapaz reviva !

Logo que feito este Ato de Verdade, então todo o veneno caiu e afundou no chão ; e Yañña-datra levantando-se com todo o corpo purgado do veneno, começou a brincar. Quando o filho tinha deste modo se levantado, Mandavya perguntou o que estava na mente de Dipayana com a quarta estrofe :

Deixam o mundo aqueles que são serenos, contidos,
A não ser Kanha, todos em ânimo nenhum relutante ;
O que te faz recolher, Dipayana, e por quê
Relutante andas no caminho da santidade ?

Para responder isto, o outro repetiu a quinta estrofe :

Deixar o mundo e depois novamente retornar ;
'Um idiota, um tolo !' pode assim se pensar :-
É isto que me faz recolher,
Assim ando santamente, apesar de desejo faltar,
A causa porque faço o bem é esta -
Louvada pelo sábio é a moradia da boa pessoa.
[ n. do tr. : ou neste último verso : 'Religião é o louvor do que é sábio e bom'. Recolher aqui no sentido de recollection, recolhimento. ]

Tendo assim explicado seu próprio pensamento, ele questionou Mandavya ainda novamente na sexta estrofe :

Esta tua casa era como um bar,
Comida e bebida armazenadas em suprimentos :
Sábios, viajantes, brahmins aqui
Sede e fome satisfazendo.
Temes algum escândalo, ainda
Dando apesar de contra tua vontade ?

Então Mandavya explicou seus pensamentos com a sétima estrofe :

Pai e avô foram santos,
Senhores de ofertas, ainda mais livres em dar ;
E eu sigo com todo cuidado
Nosso jeito ancestral de viver ;
Para não ser degenerado
Dou presentes relutantemente.

Após dizer isto, Mandavya, perguntou sua esposa uma questão nas palavras da oitava estrofe :

Quando uma jovem mulher, sem sentidos desenvolvidos,
Te trouxe da tua casa para ser minha esposa,
Tu não me disseste de tua indiferença,
Como sem amor viveste toda tua vida
E por quê, ó senhora de belos membros, ficaste
E viveste comigo deste jeito sem amor ?

E ela respondeu a ele repetindo a nona estrofe :

Não é costume nesta família
Uma esposa casada arranjar um novo companheiro,
Nem nunca será ; e este costume eu
Manterei, para não ser chamada degenerada.
Foi o medo de tal relato que me fez ficar
E viver contigo deste jeito sem amor.

Mas quando isto foi dito, um pensamento passou pela mente dela - “Meu segredo foi contado a meu marido, o segredo nunca contado antes ! Ele ficará irado comigo ; suplicarei perdão na presença deste asceta, nosso confessor.” E ele repetiu a décima estrofe :

Agora que falei o que não devia ser dito :
Pelo bem de nosso filho possa isto ser perdoado.
Nada há mais forte aqui que o amor dos pais ;
Nosso Yañña-datra vive, aquele que estava morto !

Levante-se senhora,” disse Mandavya, “te perdoo. De agora em diante não me trate mal ; nunca te magoarei.” E o Bodhisatva disse dirigindo-se a Mandavya, “Em acumular ganhos mal obtidos e em desacreditar que quando você dava liberalmente, o ato é a semente que traz fruto, nisto agiste errado. No futuro acredite no mérito dos presentes, das ofertas, e dê-lhos.” O outro prometeu isto e por sua vez disse ao Bodhistva, “Senhor, tu mesmo erraste em aceitar nossos dons enquanto andando no caminho da santidade contra tua vontade. Agora de modo a que teus atos possam produzir frutos abundantes, no futuro andes em santidade com coração tranquilo e puro, cheio de alegria enstática.” Então ele despediu-se do Grande Ser e partiu.

Daquele momento em diante a esposa passou a amar o marido ; Mandavya com coração tranquilo deu presentes com fé ; o Bodhisatva, largando a relutância, cultivou a Faculdade enstática e tornou-se destinado ao céu de Brahma.

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Este discurso terminado, o Mestre declarou as Verdades : (agora na conclusão das Verdades o relapso foi estabelecido no fruto do Primeiro Caminho : ) e identificou o Jataka : - “Naquele tempo Ananda era Mandavya, Visakha a esposa, Rahula o filho, Sariputra era Mandavya da Estaca e eu mesmo era o Dipayana Negro.”

 [ a história de Mandavya da estaca encontra-se no Mahabharata, Adi parva, seção CVII : o excesso de rigor com a punição ao rishi por ter matado a mosca resulta em maldição ao deus da justiça, dharma, que por isto, por este excesso, nasce servo, filho da empregada, no caso de  Vyasa, Krishna Dwaipayana, com a empregada apsara do rio Sayavati, nasce portanto Vidura que vimos há pouco em jataka anterior, irmão de Pandu e de Dhritarastra, personagens centrais do Mahabharata.  ]