segunda-feira, 4 de junho de 2012

[ n. do tr. : Parasara e o carro dos sentidos ]



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Parasara e o carro dos sentidos

Tanto neste jataka 445 quanto no 539 vemos a cena do carro cerimonial que é solto sem auriga, sem motorista, para sozinho percorrer a cidade atrás de um rei apropriado. A cidade toda vae atrás dele uns querendo impedir o caminho e outros liturgicamente abre m a passagem para que vá sem qualquer intervenção humana e siga livremente. Que carro, carruagem, é este ? Somando às referências que unem oriente e ocidente temos em um relato da história de Roma este mesmo carro que anda solto, sozinho, com vida própria : está na 'Vida de Publícola' de Plutarco e teria ocorrido em meados do séc. VI a.C. . Vejamos então estes parágrafos XIII e XIV :
XIII. Fazia então pela segunda vez Tarquinio guerra na Etruria aos romanos e se diz que aconteceu um portento extraordinário. Reinando ainda Tarquinio, tinha já quase concluído o templo de Júpiter Capitolino e fosse por vaticínio que se fez ou por movimento e ditame próprio, encarregou uns artistas tirrenos da cidade de Veyes de fazer uma carroça de barro que havia resolvido colocar no arremate ( do templo ) e ao cabo de pouco tempo perdeu o reino. Puseram os tirrenos a carroça de quatro cavalos já formada para cozinhar no forno e não aconteceu o que era natural acontecesse com a argila, que era ao entrar contrair-se dissipada a umidade mas se dilatou e se tornou oca, tomando tanto volume e tanta consistência que ainda retirada a cobertura do forno e derrubada as paredes, houve dificuldade para tirá-la. Julgaram os adivinhos que aquilo repesesntava um grande prodígio e que anunciava felicidade e autoridade àqueles em cujo poder estivesse a carruagem ; com o que determinaram os veyanos não entregá-la aos romanos, que a pediam e responderam que pertencia a Tarquinio e não aos que o haviam desterrado. Poucos dias depois tinham os veyanos corridas de cavalos e tudo aconteceu como de costume em tais espetáculos ; porém com o carro vencedor aconteceu que assim que o carreteiro saiu coroado do circo, quando espantados os cavalos, sem nenhuma causa conhecida mas por algum impulso superior ou por boa sorte, deram de correr e escapar para Roma, levando o carreteiro. De nada serviu ele puxar as rédeas e mandá-los parar, porque lhe arrebataram ( o carro ), tendo que ceder e sujeitar-se ao ímpeto, até que chegados ao Capitólio, o jogaram em terra junto à porta que agora chamam Ratumena. Maravilhados e temerosos os veyanos com este acontecimento, permitiram que a carruagem ( de barro ) se devolvesse aos artistas.
XIV. Este templo de Júpiter Capitolino foi voto, promessa, de Tarquinio de Demarato que ofereceu dedicar-lhe estando em guerra com os sabinos ; porém o construiu Tarquinio o Soberbo, filho ou neto do que o votou ( Hércules ao lado de Evandro o árcade foi o primeiro a levantar o altar ali : ofereceu um dos bois de Gerião do seu décimo trabalho, o gado do sujeito que tinha três cabeças na então península ibérica ; no caso as três cabeças como no muro Atlântida mesma representam a estratificação social mesma organizada tradicionalmente ) ( Numa também no alto da colina, ele presidente dos áugures, voltando-se para os pontos cardeais examinava o que pronunciava os deuses por meio dos agouros ou prodígios : as aves davam os agouros : faustos / fastos ou nefastos ). Não chegou a dedicar-lhe mas faltou muito pouco para concluir quando Tarquinio foi deposto. Logo que estava acabado e todo adornado, se acendeu em Publícola o desejo de fazer sua dedicação. O viam com inveja muitos dos principais e as demais honras que havia alcançado e pareciam próprias como legislador ( fez boas leis para a plebe ) mas como general não miravam com tanto encômio ; à dedicação tinha como alheio a ele e instavam Horacio para que disputasse com ele a dedicação. Jogada as sortes Publícola perde e deve sair em uma expedição militar indispensável, decretando-se que fosse Horacio o dedicante, subiram com ele ao Capitolio (...) Nos idos pois de setembro na lua cheia congregados todos no Capitolio, Horacio depois de impor silêncio e praticar as demais cerimônias, chegando até as portas, como é costume, pronunciou as palavras estabelecidas para a dedicação ; mas o irmão de Publícola , Marco, que já estava há um tempo também na porta esperando o momento oportuno : “Cónsul, grito ele, teu filho morreu de uma doença no exército.” Causou isto pesar em todos os circunstantes ; porém Horacio, sem alterar-se nem o mínimo e não dizendo outra coisa que “deixes o morto onde quiseres pois não me abandono ao pranto”, concluiu o que restava da dedicação. Não era certa a notícia mas Marco fingiu para distrair a Horacio ; contudo é muito digna de elogio a serenidade do cónsul, seja por se impor rápido ao engano, seja mantendo-se inalterado com tal nova, dando-lhe crédito.
( No parágrafo seguinte, XV, Plutarco fala das várias construções deste mesmo templo que foi destruído nas guerras civis mas reconstruído por Sila e novamente destruído nos tempos de Vitelio tendo feito o terceiro Vespasiano que teve a sorte de o ver concluído ; mas depois de morto logo foi destruído novamente ; reconstruiu Domiciano pela quarta vez com doze mil talentos só no revestimento à ouro ao que é chamado de outro Midas por querer tornar tudo de ouro. )

Dá para ver claramente que o carro é o mesmo que se movimenta sozinho até no crescer da argila. Como entender esta argila ? A resposta está no Mahabharata em diálogo justamente entre o mesmo grande rei Janaka e o sábio Parasara na Santi parva, seção CCXCII :

Parasara disse, “Aquela pessoa que tendo obtido este carro, isto é, seu corpo dotado de mente, segue, curvando com as rédeas do conhecimento os corcéis representados sob os objetos dos sentidos, deve certamente ser vista como possuidora de inteligência. A homenagem ( na forma de devoção e meditação concentrada no Supremo ) por uma pessoa cuja mente é dependente de si mesma e que jogou fora os meios de vida ( contemptus mundi ) é válida de alto louvor, - esta homenagem, nomeadamente, Ó regenerado, é resultado de instruções recebidas por alguém que teve sucesso em transcender os atos e não obtidas da discussão mútua entre as pessoas em mesmo estado de progresso. Tendo obtido o período de vida determinado, Ó rei, com tal dificuldade, não se deve diminuí-lo ( com a indulgência aos sentidos ). Por outro lado deve-se sempre se empenhar, através de atos corretos, para o próprio avanço gradual. ( ... ) Aquela pessoa que, refletindo com sua mente, Ó rei, e certificando a própria habilidade, realiza atos corretos, certamente obtem o que é para seu benefício. Àgua derramada em vaso não cozido gradualmente diminui e finalmente escapa toda. Se guardada, contudo, em um vaso cozido, permanece sem a quantidade diminuir. Do mesmo modo, atos realizados sem reflexão com a ajuda do entendimento não se tornam bons ; enquanto atos feitos com julgamento permanecem sem diminuir de excelência e geram felicidades como resultado. Se em um vaso que contém água, derrama-se mais água, àgua que originalmente estava lá aumenta em quantidade ; do mesmo modo todos os atos feitos com julgamento, sejam equânimes ou não, só somam as estoque de retidão de alguém.”

A metáfora do vaso é ampla dissertando-se sobre o esmalte de fora e o fogo de dentro, afinal, cozido guarda em si um pouco deste fogo do cozimento . Vemos então que o forno é o forno do julgamento interior, do livre arbítrio que decide a todo momento toda a existência e o carro é o corpo mesmo e seus sentidos. O fato de o grande Janaka ser quem escuta as palavras do sábio Parasara reforça a tese. O fogo do julgamento está claramente na dedicação do templo na fala de Horacio.

Finalmente cabe lembrar que a metáfora do vaso cozido aparece nos odres de couro para botar vinho quando em casa de Levi, Mateus, IHS é interrogado sobre o jejum : ele fala também além dos vinhos novos em odres novos, do Noivo que chega provavelmente no carro apropriado e da roupa nova sem remendo. Antes Ele estivera na casa da sogra de Pedro.

O Fedro dialogando com Sócrates do lado de fora de Atenas junto aos templos de Pan e das Ninfas amplia esta imagem da alma como um carro puxado por cavalos com um auriga que segura uma lâmpada, a mente : o amor  é a luz mesma. A tradução de si-mesmo, self, em grego, auto, esclarece por que move-se sozinho o carro. Vyasa e Markandeya no Mahabharata ampliam a imagem que o Fedro de Plato toma emprestado. É clara a transmissão da Tradição nesta questão. Assim como na República com as castas, raças, classes. A ligação, relação, contato, ocidente oriente, é estarrecedora : juntos desde sempre.

O carro que anda sozinho junto com o cavalo vencedor são imagens do ritual do Asvamedha que vemos realizar-se todo ano em Roma antiga : o cavalo de outubro - G. Dumèzil e a escola de religião comparada estabelecem que o ritual indo-europeu existe no ocidente quanto no oriente: unidade clara. O acontecimento na fundação da república mostra que para além de rituais vazios há uma doutrina viva, desde sempre. 


















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