terça-feira, 23 de dezembro de 2008

243 Buddha Guttila o Músico


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243
Tive um pupilo...etc.” - Esta história o Mestre contou no Bosque de Bambu sobre Devadatra.

Nesta ocasião os Irmãos diziam a Devadatra: “Amigo Devadatra, o Supremo Buddha é teu professor ; dele aprendeste os Três Pitakas e como produzir os Quatro tipos de Ênstase ; não deves agir como inimigo de teu próprio professor!” Devadatra respondeu : “Por quê amigos – Gautama o Asceta meu professor ? Nem um pouco : não foi por meu próprio poder que aprendi os Três Pitakas e produzi os Quatro Ênstases ?” Ele recusava-se a reconhecer seu professor.

Os Irmãos ficaram falando sobre isto no Salão da Verdade. “Amigo! Devadatra repudia seu professor! Ele tornou-se inimigo do Supremo Buddha ! E que destino miserável caiu sobre ele !” O Mestre chegou e inquiriu sobre o quê conversavam. Eles disseram. “Ah, Irmãos,” disse ele, “esta não é a primeira vez que Devadatra repudia seu professor, mostra-se meu inimigo e acaba em um fim miserável. Foi justo o mesmo antes.” E então contou a seguinte história.

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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu em uma família de músicos. Seu nome era Mestre Guttila. Quando cresceu, profissionalizou-se em todos os ramos da música e sob o nome de Guttila o Músico tornou-se o chefe deles em toda a Índia. Ele não casou mas mantinha seus pais, cegos. [ n. do tr.: Guttila é uma das quatro pessoas que 'em seus corpos terrenos mesmos, atingiram a glória da cidade dos deuses.' ]

Naquele tempo certos mercadores de Benares faziam uma viagem de comércio para Ujjeni. Um feriado foi proclamado ; eles todos se reuniram ; procuraram incensos, perfumes, unções e todo tipo de comidas e carnes. “Paguem o salário,” eles gritaram, “e arranjem um músico !”

Aconteceu que naquele tempo um certo Mūsila era o chefe dos músicos em Ujjeni. Contrataram ele e o fizeram músico deles. Musila tocava violão ; e o afinava no tom mais alto para tocar. Mas eles conheciam o tocar de Guttila o Músico, e a música de Musila parecia arranhar de esteira. De modo que ninguém gostou. Quando Musila viu que não exprimiam nenhum prazer, disse para si mesmo - “Muito agudo, eu suponho,” e afinando o violão num tom médio, assim tocou. Ainda assim permaneceram sentados indiferentes. Pensou ele então, “Suponho que eles não entendem nada disto” ; e fazendo como se ele fosse também ignorante, tocou com as cordas todas soltas. Como antes, eles não deram nenhum sinal. Então Musila pergunta a eles, “Bons mercadores, por quê vocês não gostam da minha música ?”

O quê ! Você está tocando ?” eles gritaram. “Pensávamos que você estava afinando.”
Pois então, vocês conhecem algum músico melhor,” ele perguntou, “ou vocês são muito ignorantes para gostarem da minha música ?”

Os mercadores disseram, “Nós escutamos a música de Guttila o Músico, em Benares ; e a sua parece com a de mulheres cantarolando para fazer bebês dormirem.”

Aqui, peguem seu dinheiro de volta,” disse ele, “não o quero. Apenas levem-me com vocês quando forem para Benares.”

Eles concordaram e levaram ele de volta para Benares com eles ; eles mostraram a casa de Guttila e cada um foi para sua casa.

Musila entrou na moradia do Bodhisatva ; viu o belo violão dele onde estava amarrado : pegou-o e tocou. Com isto os pais anciãos, que não podiam vê-lo porque eram cegos, gritaram -
Os camundongos estão roendo o violão ! Xô! Xô! Os ratos estão mordendo o violão !”

Imediatamente Musila largou o violão e saudou os velhos pais.

De onde você vem? “ eles perguntaram.

Ele respondeu, “Vim de Ujjeni para aprender aos pés de um professor.”

Oh, muito bem,” eles disseram. Ele perguntou onde estava o professor.

Ele está fora, senhor ; mas voltará ho-je,” foi a resposta. Musila sentou e esperou até que ele chegasse ; então após algumas palavras amigáveis, ele contou seu objetivo. Bem o Bodhisatva era hábil em adivinhar a partir das linhas do corpo. Ele percebeu que este não era um bom homem ; então ele recusou. “Vá, meu filho, esta arte não é para você.” Musila então abraça os pés dos pais do Bodhisatva, para que o ajudassem na sua demanda e rogou a eles - “Faça-o me ensinar !” Várias e várias vezes seus pais rogam ao Bodhisatva que faça isto ; até que ele não consegue mais aguentar e faz o quê é pedido. E Musila vai junto com o Bodhisatva para o palácio do rei. 

Quem é este, mestre ?” pergunta o rei, vendo-o.

Um pupilo meu, grande rei !” foi a resposta.

Logo logo ele passa a ser escutado pelo rei.

Bem, o Bodhisatva não lesa seu conhecimento mas ensina seu pupilo tudo que ele mesmo sabe. Isto feito, ele diz, “Seu conhecimento está agora perfeito.”

Pensou Musila, “Agora me profissionalizei na minha arte. Esta cidade de Benares é a cidade principal de toda a Índia. Meu professor está velho ; aqui portanto devo permanecer.” Diz ele então a seu professor, “Senhor, servirei ao rei.” “Bom, meu filho,” respondeu ele, “falarei ao rei sobre isto.”
Ele foi para diante do rei e disse, “Meu pupilo está desejoso de servir sua Alteza. Fixe o salário qual será.”
O rei respondeu, “O salário dele deve ser metade do seu.” E ele voltou e contou isto a Musila. Musila disse, “S'eu receber o mesmo que tu, servirei ; mas se não, então não o servirei.”
Por quê ?” “Diga : não sei tudo que você sabe sabe ?” “Sim, você sabe.” “Então por quê ele me oferece a metade ?”
O Bodhisatva informou ao rei o quê aconteceu. O rei disse, “S'ele é tão perfeito quanto você em sua arte, ele receberá o mesmo que tu.” Esta fala do rei o Bodhisatva contou ao pupilo. O pupilo consentiu na barganha ; e o rei, sendo informado disto, respondeu - “Muito bem. Que dia vocês vão competir, os dois ?” “Que seja no sétimo dia a partir de ho-je, ó rei.”
O rei manda chamar Musila. “Estou entendendo que você está pronto para a disputa com seu mestre ?”
Sim, sua Majestade,” foi a resposta.
O rei tenta dissuadí-lo. “Não faça isto,” ele disse, “não deve nunca existir rivalidade entre mestre e pupilo.”
Calma, ó rei !” gritou ele - “deixe haver uma disputa entre eu e meu professor no sétimo dia ; saberemos qual de nós é mestre em sua arte.”
Então o rei concordou ; e envia o tambor ao redor da cidade batendo com a notícia :- “Escutais! No sétimo dia Guttila o Professor e Musila o Pupilo, se encontrarão às portas do palácio real, para mostrarem suas habilidades. Que o povo da cidade se reúna para ver a habilidade deles !”

O Bodhisatva pensou consigo mesmo, “Este Musila é jovem e novo, eu sou velho e minha força já foi. O quê um homem velho faz não prospera. Se meu pupilo for vencido , não há grande crédito nisto. Se ele me vencer, morte na floresta é melhor que a vergonha que me caberá.” Então para a floresta ele foi mas ficou voltando com medo da morte e indo para a floresta com medo da vergonha. E desse jeito ele passou os seis dias. A grama morreu enquanto ele andava e seus pés fizeram um caminho.
Neste momento, o trono de Sakra ficou quente. Sakra meditou e percebeu o quê acontecia. “Guttila o Músico está sofrendo muita dor na floresta por causa do pupilo. Devo ajudá-lo !” Então ele foi rápido e ficou diante do Bodhisatva. “Mestre,” disse ele, “por quê vais para a floresta ?”
Quem és tu ?” perguntou òutro.
Sou Sakra.”
Então disse o Bodhisatva, “Estou temeroso de ser derrotado por meu pupilo, Ó rei dos deuses ; e por isto fujo para a floresta.” E ele repetiu a primeira estrofe :-

Tive um púpilo, que de mim aprendeu
As melodiosas trovas do violão de sete cordas ;
Ele agora anseia superar em habilidade o professor
Ó Kosiya ! me ajude !

[N. do Tr.: Kosyia quer dizer Coruja,Skr. kauçika, título de Indra, e um dos muitos clãs Indianos que são também nomes de animais.]

Nada tema,” disse Sakra, “sou sua defesa e refúgio :” e ele repetiu a segunda estrofe :-

Nada tema pois te ajudarei na necessidade ;
Pois a honra é a recompensa justa ao professor.
Nada tema! teu púpilo não é rival para ti,
Mas provarás realmente que és melhor pessoa.

Enquanto tocas, deves quebrar uma das cordas do teu violão e tocar só com seis ; e a música será tão boa quanto antes. Musila também deverá quebrar uma corda e ele não será capaz de fazer música com seu violão ; ele então será derrotado. E quando vires que ele está derrotado, deves quebrar uma segunda corda de teu violão, e uma terceira, até a sétima mesmo, e continuarás tocando com nada mais que o corpo ; e com as cordas quebradas o som se espalhará e preencherá toda a terra de Benares pelo espaço de doze léguas.” Com estas palavras ele deu ao Bodhisatva ao Bodhisatva três dados de jogar e continuou : “Quando o som violão tiver preenchido toda a cidade, deves jogar um destes dados para o ar ; e trezentas ninfas descerão e dançarão diante de ti. Enquanto elas dançam atire o segundo dado e trezentas dançarão em frente ao teu violão ; depois o terceiro e entao trezentas mais descerão e dançarão dentro da arena. Eu também haverei de vir com elas ; vá e nada tema !”

De manhã o Bodhisatva voltou para casa. Na porta do palácio um pavilhão foi levantado e um trono colocado à parte para o rei. Ele desceu do palácio e tomou seu lugar no divan no belo pavilhão. Ao redor dele estavam milhares de escravos, mulheres belamente vestidas, cortesãos, brahmins, cidadãos. Todo o povo da cidade se reuniu. No jardim da corte fixaram os lugares em círculos, fila após fila. O Bodhisatva, de banho tomado e ungido, comeu todo tipo de carnes finas ; e de violão na mão sentou esperando em seu lugar. Sakra estava lá, invisível, pousado no ar, cercado de uma grande companhia. Contudo o Bodhisatva o via. Musila também estava lá e sentado em seu assento. Ao redor havia um grande concurso de pessoas.

Primeiro os dois tocaram a mesma peça. Quando ambos tocaram iguais a multidão ficou deliciada e aplaudiu abundantemente. Sakra falou ao Bodhisatva do seu lugar no ar : “Quebre uma das cordas !” disse ele. Então o Bodhisatva quebrou uma corda sonora ; e a corda, apesar de quebrada, soava um som da extremidade quebrada ; parecia música divina. Musila também quebrou uma corda ; mas dela nenhum som veio. Seu professor quebrou a segunda e assim por diante até a sétima corda : ele tocava com o corpo apenas e o som continuava e preenchia a cidade :- a multidão em milhares agitavam e agitavam seus lenços nos ares e aos milhares aplaudiam. O Bodhisatva atirou um dos dados nos ares e trezentas ninfas desceram e começaram a dançar. E quando ele atirou o segundo e o terceiro do mesmo modo, passou a haver novecentas ninfas dançando como Sakra dissera. Então o rei fez um sinal para a multidão ; a multidão se levantou e gritou - “Foi um grande erro querer disputar contra teu professor ! Não conheces tua medida !” Assim gritavam contra Musila ; e com pedras e paus e com o que chegava às mãos, bateram e machucaram ele até a morte e pegando ele pelos pés, o jogaram em um monte de lixo. 

O rei deliciado deu muitos presentes ao Bodhisatva e o mesmo fizeram os da cidade. Sakra do mesmo modo falou agradavelmente com ele e disse, “Sábio Senhor, enviarei daqui a pouco meu auriga Mātali com um carro puxado por um milhar de puro-sangues ; e deverás subir no meu divino carro, puxado por mil corcéis e viajar para o céu ;” e ele assim se foi.

Quando Sakra voltou e sentou em seu trono, feito todo de uma pedra preciosa, as filhas dos deuses perguntaram a ele, “Onde estavas, Ó rei ?” Sakra disse a elas tudo que acontecera e louvou as virtudes e as obras do Bodhisatva. Então as filhas dos deuses disseram,
Ó rei, ansiamos em ver este professor ; traga ele aqui !” 

Sakra chama Mātali. “As ninfas do céu,” disse ele, “desejam ver Guttila o Músico. Vá, faça-o sentar no carro divino e traga-o aqui.” O auriga foi e trouxe o Bodhisatva. Sakra deu a ele saudações amigáveis. “As filhas dos deuses,” disse ele, “desejam escutar tua música, Mestre.”

Nós músicos, Ó grande rei,” disse ele, “vivemos da prática de nossa arte. Por uma recompensa eu tocarei.”
Toque, que eu te recompensarei.”
Não quero nenhuma outra recompensa do que esta : deixe que as filhas dos deuses me digam que atos de virtude as trouxeram para cá ; então eu tocarei.”
Então disseram as filhas dos deuses, “Com prazer te diremos depois que virtudes praticamos ; mas primeiro você toca para nós, Mestre.”
Pelo espaço/tempo de uma semana o Bodhisatva tocou para elas e sua música ultrapassava a música celeste. No sétimo dia ele perguntou às filhas dos deuses sobre suas vidas virtuosas, começando pela primeira. Uma delas, no tempo de Buddha Kassapa, teria dado um manto a um certo Irmão ; e tendo uma existência renovada como uma atendente de Sakra, tornou-se chefa entre as filhas dos deuses, com um séquito de um milhar de ninfas : a ela o Bodhisatva perguntou - “ O quê fizeste em uma existência prévia, que te trouxe para cá ?” O modo desta pergunta e o dom que ela dera estão contados na história de Vimāna : elas dizem como segue :-

Ó deusa brilhante, como a estrêla da manhã,
Soltando tua luz de beleza perto e longe,
De onde vem esta beleza ? de onde esta felicidade ?
De onde todas as bençãos que um coração pode abençoar-se ?
Te pergunto, deusa excelente em poder,
De onde vem esta luz maravilhosa que a tudo invade ?
Quando foste mulher mortal, que fizeste
Para ganhar a glória que te rodeia agora ?

[ A filha dos deuses respondeu :]

Chefe entre homens e chefa entre as mulheres também
Quem dá uma túnica em caridade.
Aquela que dá coisas agradáveis certo é ganhar
Uma casa divina e justa para entrar.
Veja esta habitação, como é divina !
Como fruto de minhas ações boas esta casa é minha:
Mil ninfas prontas no meu chamado ;
Belas ninfas - eu a mais bela delas.
E assim sou excelente de poder;
Daí veio esta luz maravilhosa que a tudo invade !

Outra teria ofertado flores para veneração a um Irmão que anelava ofertas. À outra foi pedido uma grinalda cheirosa de cinco ramos para um santuário e ela deu. Uma outra ofertou doces frutos. Outra, essências finas. Outra deu cinco ramos cheirosos para o santuário do Buddha Kassapa. Outra escutou o discurso dos Irmãos ou Irmãs no caminho, ou tais residiram na casa de alguma família. Outra estava na água e ofereceu água a um Irmão que comera sua refeição em um barco. Outra, vivendo no mundo fez seu dever para com o sogro e a sogra, nunca perdendo a calma. Outra dividia a parte mesmo que recebia e assim comia e era virtuosa. Outra que fora escrava em alguma propriedade, sem raiva e sem orgulho ofertava uma parte da sua porção e nasceu novamente como uma atendente do rei dos deuses. Assim também todas aquelas que estão escritas no livro da história de Guttila-vimana, trinta e sete filhas dos deuses, foram questionadas pelo Bodhisatva cada uma, o que fizera para chegar lá e elas também contaram o que fizeram do mesmo modo em versos.

Escutando tudo isto, o Bodhisatva exclamou : “É bom para mim, em verdade, verdadeiramente é muito bom para mim, ter vindo aqui e escutado como méritos tão pequenos alcançaram grande glória. Portanto, quando eu voltar para o mundo dos homens, darei todo tipo de presentes e realizarei obras boas.” E ele pronunciou esta aspiração :-

Ó, feliz aurora ! Ó, feliz eu devo ser !
Ó feliz peregrinação, onde vejo
Estas filhas dos deuses, divinamente belas,
E ouço suas falas doces ! De agora em diantre juro
Pleno de doce paz, e generosidade,
De temperança e verdade será minha vida,
Até que eu vá para onde não há tristeza.

Então após passarem sete dias, o rei do céu deu ordem a seu auriga Matali e ele sentou Guttila no carro e enviou-o para Benares. E quando ele chegou em Benares, contou ao povo o quê vira com seus próprios olhos no céu. A partir daquele momento o povo resolveu fazer boas ações com todas suas forças.

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Quando o discurso estava terminado, o Mestre identificou o Jataka : “Naqueles dias Devadatra era Musila, Anurudha era Sakra, Ananda era o rei e eu era Guttila o Músico.”















segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

242 Cão tolo...etc.


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242
Cão tolo...etc.” - Esta história o Mestre contou enquanto vivia em Jetavana sobre um cachorro que acostumara a alimentar-se no salão de repouso da torre Ambala.

É dito que desde filhote este cachorro foi lá mantido e alimentado por alguns transportadores d'água. Com o passar do tempo ele cresceu até se tornar um grande cão.

 Certa vez aconteceu de um cidadão o ver ; e o comprou dos transportadores d'água por um manto e uma rúpia ; então, amarrando-o em uma corrente, levou o cachorro embora. O cachorro foi sem resistir, sem fazer barulho e seguiu o novo dono comendo o quê lhe era oferecido. “Ele orgulha-se de mim, sem dúvida,” pensou o homem ; e o deixou livre de laço.

Logo que o cão se viu livre, fugiu e não parou até chegar de volta ao lugar de onde veio.

Vendo-o, os Irmãos cogitavam o quê teria acontecido ; e à noite, quando estavam reunidos no Salão da Verdade, começaram a conversar sobre isto. “Amigo – aí está o cachorro de volta novamente em nosso salão de repouso! Como foi inteligente em se livrar das correntes ! Assim que se livrou, correu para cá de volta !” O Mestre, entrando, perguntou o quê estavam todos conversando, lá sentados juntos. Eles disseram. Ele falou, “Irmãos, esta não é a primeira vez que nosso cachorro foi inteligente em livrar-se de correntes ; ele foi justo o mesmo antes.” E contou a eles um conto do mundo antigo.

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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva nasceu em uma rica família do reino de Kāsi ; e quando ele cresceu, estabeleceu residência própria.

 Havia um homem em Benares que tinha um cachorro que fora alimentado com arroz até ficar gordo. E um certo cidadão que viera a Benares viu o cão ; e ao dono deu uma veste fina e uma moeda de dinheiro pelo cachorro, que ele levou amarrado em uma correia.

Chegando na beira de uma floresta, ele entrou numa cabana, amarrou o cão e deitou para dormir. Naquele momento o Bodhisatva que entrara na floresta vagando, viu o cachorro preso por uma tira de couro ; no que pronunciou a primeira estrofe :-

Cão tolo ! porque não mordes
Esta correia que apertada te amarra ?
Em três tempos você se livra,
Correndo-fugindo alegremente !

Escutando esta estrofe, o Cachorro pronunciou a segunda:-

Resoluto – determinado, eu
Espero minha oportunidade:
Atento, vigio e guardo (watch & ward)
Até que as pessoas durmam.

Assim ele falou ; e quando a companhia estava dormindo, ele rasgou a correia com os dentes e retornou à casa de seu dono em grande alegria.

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Quando este discurso estava terminado, o Mestre identificou o Jataka:- “Os cães eram os mesmos e eu era o homem sábio.”








sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

241 A origem da carne seca






                 ( Veluvana, Bosque de Bambus, Índia )

241
Justo como o Chacal...etc.”- Esta história o Mestre contou enquanto estava no Bosque de Bambu sobre Devadatra.

Devadatra, tendo sido favorecido aos olhos de Ajatasatru, ainda assim não conseguiu manter a reputação e o apoio que recebeu, durar nem um pouco de tempo. Assim que viram o milagre que aconteceu quando Nalagiri foi solto contra o Buddha ( n. do tr.: um grande elefante raivoso foi solto com o propósito de destruir o Budddha mas diante dele apenas fez reverência: Kullavagga VII, 3, 11), a reputação e as ofertas de Devadatra caíram.

Assim um dia, os Irmãos estavam todos falando sobre isto no Salão da Verdade : “Amigo, Devadatra manobrou para ganhar reputação e apoio e ainda assim não conseguiu mantê-los. Isto aconteceu em dias antigos justo do mesmo jeito.” E então ele contou a eles um conto do mundo antigo.

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Certa vez Brahmadatra era rei de Benares ( Varanasi ) e o Bodhisatva era seu capelão ; ele tinha aprendido os três Vedas e os oito ramos do conhecimento. Ele conhecia o encanto intitulado 'Do subjugar o Mundo'. (Bem, este encanto é um que envolve meditação religiosa).

Um dia, o Bodhisatva pensava que recitaria este encanto ; então sentou-se em um lugar separado, sobre uma pedra plana e lá começou a recitá-lo. É dito que este encanto não pode ser ensinado a ninguém sem a utilização de um rito especial ; daí a razão dele recitá-lo no lugar descrito. Aconteceu que um Chacal deitado em uma toca, escutou o encanto no momento em que era recitado e o aprendeu de cor(ação). Nos é dito que este chacal em uma existência prévia foi um brahmin que aprendera o encanto 'Do subjugar o Mundo'.

O Bodhisatva terminou sua recitação e levantou-se, dizendo - “Certamente sei este encanto de cor(ação) agora.” O Chacal então saiu da sua cova e gritou - “Ó brahmin ! Aprendi o encanto melhor que você mesmo !” e fugiu correndo. O Bodhisatva correu atrás e seguiu gritando - “Este chacal fará uma grande besteira – peguem-no, peguem-no !” Mas o chacal sumiu na floresta.

O Chacal encontrou uma fêmea chacal e deu uma mordiscada nela. “O que é isto, senhor ?” ela perguntou. “Você me conhece,” ele perguntou, “ou não?” “Não te conheço.” Ele repetiu o encanto e assim tinha sob as suas ordens várias centenas de chacais e reuniram-se ao seu redor todos os elefantes e cavalos, leões e tigres, porcos e cervos e todas as criaturas de quatro patas ; e tornou-se rei deles com o título de Sabbadatha, ou Todopresa (ou Tododente) e a chacal fêmea foi feita sua consorte. Nas costas de dois elefantes permaneceu um leão e nas costas do leão sentou-se Sabbadatha, o rei chacal, junto com sua consorte a chacal fêmea ; e grande honra era prestada a eles.

Bem, o Chacal era tentado com a grande honraria e tornou-se assoberbado de orgulho e resolveu conquistar o reino de Benares. Assim com todas as criaturas de quatro patas em seu seguimento, chegou próximo a Benares. Sua hoste cobria doze léguas de chão. Da sua posição, enviou mensagem ao rei, “Desista do seu reino, ou lute por ele.” Os cidadãos de Benares, aterrorizados, fecharam seus portões e permaneceram dentro.

Então o Bodhisatva aproximou-se do rei e disse a ele, “Nada tema, poderoso rei ! Deixe comigo a tarefa de brigar com o rei chacal, Sabbadatha. A não ser eu, ninguém é capaz realmente de lutar com ele.” Assim ele deu coragem ao rei e aos cidadãos. “Vou perguntar a ele logo,” ele continuou, “o quê ele fará para tomar a cidade.” Então subiu na torre em um dos portões e gritou - “Sabbadatha, o quê você fará para tomar posse deste reino ?”

Farei os leões rugirem e com o rugido, aterrorizarei a multidão : assim o tomarei posse !”

Ah, então é isto,” pensou o Bodhisatva e desceu da torre. Fez proclamar através do toque do tambor que todos os moradores da grande cidade de Benares, por toda sua extensão de doze léguas, deviam tapar seus ouvidos com farinha. A multidão escutou a proclamação ; eles taparam os próprios ouvidos com farinha, de modo que não podiam escutar o que o próximo falava :- mais, fizeram a mesma coisa com seus gatos e outros animais.

O Bodhisatva subiu então uma segunda vez na torre e gritou “Sabbadatha !”

O quê queres, Brahmin ?” respondeu ele.

Como tomarás posse deste reino ?” o outro perguntou.

Farei os leões rugirem e amedrontarei o povo e o destruirei ; assim o tomarei !” disse ele.
Você não será capaz de fazer os leões rugirem ; estes nobres leões com patas castanhas e jubas peludas, nunca obedecerão ordens de um chacal velho como tu !”

O chacal, obstinado de soberba, respondeu, “Não apenas os outros leões me obedecerão mas mesmo este em cujas costas estou sentado, rugirá sozinho!”

Muito bem,” disse o Bodhisatva, “faça isto se podes.”

Então ele bateu com as patas no leão em que estava sentado, para este rugir. E o leão descansando sua boca nas têmporas do Elefante, rugiu três vezes, sem nenhum titubeio.

 Os elefantes ficaram aterrorizados e deixaram o Chacal cair no chão às suas patas ; eles pisotearam a cabeça dele e o esmagaram em átomos. Lá e então Sabbadatha pereceu. E os elefantes, escutando o rugido do leão, aterrorizaram-se até a morte e ferindo um ao outro, todos pereceram lá. O resto das criaturas, cervos e porcos, até as lebres e gatos, morreram lá e então, todos exceto os leões ; e estes fugiram correndo para a floresta. Havia uma montanha de carcaças cobrindo o chão por doze léguas.

O Bodhisatva desceu da torre e fez com que abrissem os portões da cidade. Através do toque, batida, do tambor proclamou por toda a cidade : “Que todas as pessoas tirem a farinha para fora dos ouvidos e aqueles que desejam carne, que carne comam !” O povo todo comeu aquela carne fresca e o resto secaram e preservaram.

Foi neste momento, de acordo com a tradição, que o povo primeiro começou a secar  carne.

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Justo como o Chacal, cheio de soberba,
Anseia por hoste poderosa por todos os lados,
E todas as criaturas com dentes vindo
Aglomeram-se ao seu redor até que ele ganhe grande fama:

Do mesmo jeito a pessoa que provida com
Grande hoste de gente por todos os lados,
Grande renome ela alcança
Como teve o Chacal em sua soberania.

Naqueles dias Devadatra era o Chacal, Ānanda era o rei e eu era o capelão.”


 [ Cf SN XXII, 77 onde dukkha, anitta, anatta, o discurso de Buddha mesmo é comparado com este rugido de leão que deixam os devas todos, como os animais na cena acima, estatelados, apavorados, aterrorizados ]. 








quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

240 O rei Amarelo...etc.


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240
O rei Amarelo...etc.”- Esta história o Mestre contou no Parque de Jetavana sobre o herético Devadatra.

Devadatra por nove meses tentou levar a cabo a destruição do Buddha futuro e afundou dentro da terra junto ao portão de Jetavana. Então aqueles que habitavam Jetavana e em todo o país ao redor, ficaram deleitados dizendo, “Devadatra o inimigo do Buddha foi engulido pela terra : o adversário está morto e o Mestre tornou-se perfeitamente iluminado !” E escutando estas palavras sendo ditas muitas vezes e frequentemente, o povo de todo o continente da Índia e todos os duendes, criaturas vivas e deuses ficaram igualmente deleitados. Um dia todos os irmãos estavam conversando juntos no Salão da Verdade e assim falavam : “Irmão, desde que Devadatra afundou para dentro da terra, quanta gente está feliz, falando, Devadatra foi engulido pela terra !” O Professor entrou e perguntou, “O quê vocês todos estão conversando, irmãos ?” Eles disseram a ele. Então ele disse, “Esta não é a primeira vez, Ó irmãos, que multidões alegram-se e riem alto com a morte de Devadatra. Muito tempo atrás eles alegraram-se e riram como fazem agora.” E contou a eles um conto do mundo antigo.

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Certa vez reinava em Benares ( Varanasi ) um rei injusto e mau chamado Maha-pingala, o Grande Rei Amarelo, que fazia todo tipo de maldade de acordo com sua vontade e prazer. Arrancando taxas e multas, mutilando muitos e roubando, ele esmagava o povo como se este fosse cana-de-açúcar em um moinho ; era cruel, feroz e violento. Pelas pessoas não tinha nem um grão de piedade ; em casa era duro e implacável com as esposas, filhos e filhas, cortesãos, brahmins e fazendeiros do campo. Ele era como um cisco de poeira que cai no olho, como pedra na sopa, como espinho espetado no calcanhar.

Bem, o Bodhisatva era um filho do rei Maha-pingala. Após este rei reinar por um longo tempo, ele morreu. Quando ele morreu todos os cidadãos de Benares ficaram felizes e riram muito de alegria ; queimaram o corpo dele com um milhar de carretos de lenha e extinguiram o fogo que queimava com milhares de jarros d'água e consagraram o Bodhisatva para ser rei : fizeram com que se tocasse o tambor de alegria nas ruas, pela felicidade de conseguirem um rei reto. Levantaram bandeiras e estandartes, decorando a cidade ; em cada porta foi colocado um pavilhão e espalhado milho e flores, sentavam nas plataformas decoradas debaixo dos pálios finos e comeram e beberam. O Bodhisatva mesmo sentou em um rico divã em um grande estrado elevado, em grande luxo, com o parassol branco aberto acima dele. Os cortesãos e proprietários, os cidadãos e os porteiros permaneceram ao redor do rei.

Mas um porteiro, não distante do rei, estava suspirando e soluçando. “Bom Porteiro,” disse o Bodhisatva, observando-o, “todo o povo está fazendo festa, alegre com a morte de meu pai mas você permanece chorando. Venha, era meu pai bom e gentil contigo ?” E com a pergunta pronuncia a primeira estrofe:-

O Rei Amarelo era cruel com todas as pessoas ;
Agora que está morto todas as pessoas podem respirar novamente.
Ele era, o de olho amarelo, assim tão querido ?
Ou, por quê estais chorando aí, Porteiro ?

O homem escuta e responde: “Não choro por tristeza de estar Pingala morto. Minha cabeça dar-se-ia por satisfeita. Pois Rei Pingala, toda vez que descia do palácio ou subia para dentro, dava-me oito cascudos duros como marteladas de ferreiro na minha cabeça com seu punho. Então quando ele descer para òutro mundo, vai dar oito cascudos na cabeça de Yama, o porteiro dos ínferos como se estivesse batendo em mim mesmo. O povo de lá então gritará - Ele é cruel de mais para nós ! E o mandariam de volta para cima. Temo que ele volte e passe a bater na minha cabeça novamente e por isto é que choro.” Para explicar o assunto ele fala a segunda estrofe :-

O Rei Amarelo não era nada querido :
Temo que ele retorne.
E se ele bater no rei dos Mortos, e então
O rei dos Mortos mandar ele de volta ?

Disse então o Bodhisatva : “O rei foi incinerado com um milhar de carretos de lenha ; o lugar da queima foi empapuçado d'água com milhares de jarros e o chão foi cavado ao redor ; seres que foram para òutro mundo, exceto por força da ressurreição, não voltam para a mesma forma corporal que tinham antes ; nada tema !” e para confortá-lo, repetiu a seguinte estrofe:-

Milhares de carretos de lenha queimaram ele bem,
Milhares de jarros d'água apagaram o que ainda queimava ;
A terra foi cavada e mexida ao redor -
Nada tema – o rei não mais retornará.

Com isto, o porteiro foi confortado. E o Bodhisatva legislou em retidão ; e após dar presentes e outras obras boas, passou sendo tratado de acordo com seus méritos.

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Quando o Mestre terminou este discurso, ele identificou o Jataka :- “Devadatra era Pingala ; e o filho dele era eu mesmo.”








segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

239 Buddha Sapo Verde


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                                ( Veluvana, bosque de bambus, Índia )

239
Quando eu estava na gaiola...etc.”- Esta história o Mestre contou enquanto residia no Bosque de Bambu, sobre Ajatasatru.

Maha-Kosala, o pai do rei de Kosala, quando ele casou sua filha com o rei Bimbisara, deu a ele uma cidade em Kasi para ter algum dinheiro. Após Ajatasatru assassinar Bimbisara, seu pai, a rainha logo logo morreu, por causa do amor que tinha por ele. Mesmo depois da morte da mãe, Ajatasatru ainda gozou dos dividendos desta cidade. Mas o rei de Kosala determinou que nenhum parricida deveria ter uma cidade que era sua por direito de herança e guerreou contra ele. Algumas vezes o tio levava a melhor e outras o sobrinho. Quando Ajatasatru saía vitorioso, levantava a bandeira e marchava pelo país de volta para sua capital em triunfo ; mas quando ele perdia, todo abatido retornava sem deixar ninguém saber.

Aconteceu um dia que a Irmandade sentada falava sobre isto no Salão da Verdade. “Amigo” - assim alguém teria dito - “Ajatasatru fica deliciado quando vence seu tio e quando perde fica deprimido.” O Mestre entrando no Salão, perguntou sobre o quê conversavam desta vez ; e disseram a ele. Ele disse, “Irmãos, esta não é a primeira vez que o sujeito fica feliz quando ganha e miserável quando não ganha.” E ele contou a eles um conto do mundo antigo.

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Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares ( Varanasi ), o Bodhisatva tornou-se um Sapo Verde. Naquele tempo o povo colocava gaiolas de vime em todos os cantos e buracos dos rios, para prender peixes dentro. Em uma das gaiolas havia um grande número de peixes presos. E uma Cobra-d'água, comendo peixe, entrou também na armadilha. Numerosos peixes aglomerados juntos caíram em cima dela mordendo-a, até que ela estava toda coberta de sangue. Vendo que não havia jeito, temendo por sua vida, ela escapou pela boca da gaiola e estirou-se cheia de dor às margens d'água. No mesmo momento, o Sapo Verde dando um pulo, caiu na boca da armadilha. A Cobra, sem saber a quem recorrer, perguntou ao Sapo que via lá, na armadilha - “Amigo Sapo, achas justo o comportamento destes Peixes aí ?” e pronunciou a primeira estrofe:-

Quando estava na gaiola, os peixes me morderam
Eu, apesar de cobra. Sapo Verde, te parece certo ?

O Sapo então responde a ela, "Sim, amiga Cobra, é certo, por que não? Se você come peixe que entra no teu território, os peixes podem te comer quando entras no deles. Na sua própria terra, distrito, campo de alimentação, ninguém é fraco." Assim falando pronunciou a segunda estrofe :-

As pessoas roubam tanto quanto podem açambarcar;
E quando não podem - daí pois o mordido morde !

O Bodhisatva tendo pronunciado sua opinião, todos os peixes, vendo a fraqueza da Cobra, gritaram, ”Vamos pegar nosso inimigo !” e saindo da gaiola a matam lá e então, e depois vão embora.

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Quando o Mestre terminou este discurso, ele identificou o Jataka:- “Ajatasatru era a Cobra-d'água e o Sapo Verde era eu.”