quarta-feira, 23 de junho de 2021

[ n. do tr.: Vayu = Timoleon ]

 


              Plutarco Brahmin


           Vayu = Timoleon

         Vayu, vento, ar; prana ou sopro vital ( “a raiz ‘an' se encontra com a mesma significação no grego ‘anemos’ ‘sopro’ ou ‘vento’ e no latim ‘anima’ alma cujo sentido próprio e primitivo é exatamente o de ‘sopro vital’” ); com maiúscula o deus do vento ; o mesmo que Hiranyagarbha, Sutratma e Sutra – a primeira manifestação de Brahma no universo relativo cujo corpo é o agregado de todos os corpos sutis e cuja mente o agregado de todas as mentes.     

              No Shiva Purana em seu volume IV, Vaya Vyasasamhita, pg. 1786, há uma descrição de Vayu : “Vayu o discípulo de Brahma, senhor de autocontrole que percebe tudo diretamente ; em cujo comando estão sempre os quarenta e nove Maruts ; que sustenta os corpos de todos os seres vivos incitando-os perpetuamente através de seus próprios funcionários Prana e os outros ; que está dotado com as oito glórias ; que suporta o mundo com suas mãos santas ; que nasceu de Akasha ; que possui as duas qualidades do toque e do som e a quem os filósofos chamam de causa material do princípio ígneo, do fogo.”

            Na fisiologia antiga além do inspirar e expirar haviam mais três sopros sendo cinco no total e sendo Prana o principal, como chefe de um exército mesmo daí a referência aos Maruts, que são sopros, ventos. Os cinco são prana, apana, vyana, udana e samana.  Os dois primeiros, que são para dentro, se opõe como ação e reação e enquanto prana sobe, apana desce e vyana se coloca entre estes dois como sopro difuso, por todo corpo em toda direção. Udana é para fora, expiração e para cima, causa do crescimento. E samana o sopro da digestão que distribui igualmente (sama) para todo o corpo os sucos, sumos, da alimentação. 

              Sísifo, famoso por sua mitologia, é rei de Corinto, a cidade dos coríntios e filho de Eólo, o vento, que ajudou Ulisses a voltar para casa prendendo os ventos em tonéis mas que deviam ficar fechados e os companheiros de Ulisses abriram todos, pensando ser vinho e espalharam os ventos.  Corinto também é de Medeia e Jasão que na nave Argo viajaram unindo oriente e ocidente: governaram a cidade por um tempo. Belerofonte que cavalgava Pégaso, é neto de Sísifo. A cidade de Argos está próxima, junta mesmo. Perseus a governou.  Corinto é também a cidade dos jogos ístmicos (do istmo que une o sul e o norte da Grécia) em homenagem à nutriz de Dionisos / Baco / Iaco : Ino que com seu filho Melicertes  jogam-se no mar fugindo da perseguição de Hera: Ino transforma-se em Leucotea, a Tartaruga e Melicertes é recuperado por um golfinho e vira Palaemon: obra do deus que os protege.

           Tanto na mitologia de Dionisos quanto na de Perséfone, há a ideia da ressurreição: Deméter procura a filha desaparecida e a descobre no reino dos mortos, raptada por Hades, rei dos mortos. A mãe Terra briga para que a filha ressuscite, volte à vida e consegue: qual semente que morre para poder dar fruto, 30, 60, ou 100, segundo o evangelho de IHS XTO. Tanto nos mistérios de Elêusis quanto no cristianismo vemos a imagem da espiga em sua sacralidade: spica a alfa da constelação de Virgem. Já Dionisos é despedaçado ainda criança pelos Titãs mas seu coração é salvo pelos deuses e ressuscita.

          Já vimos no capítulo Nícias = Shiva que a história deste último, com seu terceiro olho, também tem o tema da ressurreição e justamente, qual Perséfone, de uma moça, Sati, filha de Daksha que ao fazer um sacrifício exclui Shiva e Sati devota deste incendeia-se, em autocombustão, yoguine mesma, revoltada com o pai, ato que destrói a sacrifício deste. Ela morre e ressuscita no Himalaia como Parvati que será esposa de Shiva.

         Teria que haver um Zeus com terceiro olho para consolidar a unidade védica oriente e ocidente que defendemos, expomos, descobrimos. E ele existe justamente na acrópole de Argos no monte Larisa: segue a descrição de Pausânias:

                    “No pico do Larisa está um santuário sem teto de Zeus Larisaian ; a estátua de madeira não está mais na base. Mas um santuário interessante de Athena está lá também. Entre as dedicações está um Zeus de madeira com os dois olhos com os quais nascemos e também com um terceiro na testa. Eles dizem que este Zeus era a imagem ancestral que estava no jardim aberto de Príamo filho de Laomedon, e quando Troia foi tomada pelos Gregos foi para este altar deste deus que ele fugiu. Quando dividiram os espólios, Sthenelos filho de Capaneus, ficou com a imagem e assim ela veio a descansar aqui. Pode-se explicar os três olhos deste jeito: Zeus é rei no céu pelo reconhecimento humano universal e um verso de Homero também dá ao senhor do mundo subterrâneo o nome de Zeus:

                  Zeus debaixo da terra e a grande Perséfone (Il. 9, 457);

     enquanto Ésquilo dá o nome de Zeus ao deus do mar. Então a pessoa que fez esta estátua, quem quer que tenha sido, fez Zeus com três olhos como um e o mesmo deus que legisla nestas três esferas.” (II, 24,5).

       A morte e a ressurreição aproximam as duas religiões antigas e aquela da qual a cidade de Corinto participa é a da ilha da Sicília, terra de Perséfone, penhor de seu casamento, lugar em que foi raptada, sendo Siracusa fundada por Corinto e responsável pela liberdade na ilha.

         Responsável pela liberdade porque a ilha foi escolhida pela Academia de Atenas de Platão no séc. IV a.C. como o lugar para um governo filosófico. As cartas de Platão para Dionísio, o jovem e para Dion, ambos de Siracusa, sobreviveram a destruição do tempo e ainda podem ser lidas. O primeiro entendeu em parte o ideal filosófico e o segundo entendeu tudo e conseguiu implantar este ideal na capital e na ilha conforme vemos na ‘vida de Dion’ de Plutarco que explicitamente diz que a vitória de Dion era a vitória da Academia de Atenas, de tanto que ele estava imbuído, unido a esta. Mas houve traição que, diz-se, foi traição a própria deusa padroeira da ilha e Dion foi executado e a sua família jogada no mar igual a mitologia de Dionísio: haveria portanto uma aproximação entre a mitologia e a história, a ideal religioso e o filosófico que não estão distantes, muito pelo contrário.

      A ilha é tomada por várias tiranias que a partir de Siracusa espalham-se e cabe a Corinto salvá-la. Embaixadores são enviados e Timoleon é o general escolhido para defender a liberdade na terra da deusa mãe que morta precisa ressuscitar, receber novamente o espírito da liberdade. O sopro, espírito, pneuma (gr.), ruah (hebr.), deve aparecer de algum modo na Vida de Timoleon, de Plutarco de modo a unificar as duas histórias, mitologias. E aparece na conclusão explicando as obras de Timoleon no cap., paragr., XXXV seguindo a citação:

               “Desenraizou pois Timoleon as tiranias e deu fim às guerras... a ilha tornou-se aprazível e Agrigento e Gela repovoaram-se e antigos cidadãos voltaram. Assim buscando não somente segurança e repouso depois de tais agitações, aos que nela se estabeleciam mas proporcionando muitas outras coisas e dando-lhes alento foi de seus cidadãos visto e venerado como fundador. O mesmo era o sentimento de todos em relação a ele e nem no término de uma guerra nem na formação de uma lei nem no estabelecimento de uma colônia nem uma ordenação de um governo parecia ter-se acertado se ele não intervinha e se como aperfeiçoador de uma obra não contribuía a adorná-la somando certa graça que sobressai e como que divina.” 

             Plutarco portanto está ciente do paralelismo e em negrito vemos a comparação com Vayu justamente o alento, sopro, vento, espírito que na carta aos Coríntios, s. Paulo tanto ressalta junto com a ideia de hierarquia que em várias camadas, de-graus, níveis, ranks, estratos, carismas, sacramentos e virtudes formam o corpo, humano também, imagem da Igreja. Tanto Plutarco quanto s. Paulo, contemporâneos e conterrâneos, porque escreveram em grego, têm consciência de Corinto e sua história. Segue a citação de s. Paulo nas suas cartas aos Coríntios para entendermos a ideia de espírito em questão:

          3,16s  Não sabeis que sois um templo de Deus e que o espírito de Deus habita em vós ?  Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e este templo sois vós.   

          6,19s  Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do E.S. (Espírito Santo) que está em vós e que recebestes de Deus ? ... e que portanto não pertenceis a vós mesmos ?  Alguém pagou alto preço pelo vosso resgaste; glorificai portanto a Deus em vosso corpo. // em 7,23. 

         12,4s  Há diversidade de dons mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios mas o Senhor é o mesmo ; diversos modos de ação mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. A um o Espírito dá mensagem de sabedoria, a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito; a outro o mesmo Espírito dá a fé; a outro ainda o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro poder de fazer milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em línguas; a outro ainda o dom de as interpretar. Mas é o único e mesmo Espírito que isso tudo realiza, distribuindo a cada um os seus dons, conforme lhe apraz.  Com efeito o corpo é um e não obstante tem muitos membros mas todos os membros do corpo apesar de serem muitos, formam um só corpo. Assim acontece com Cristo. Pois fomos todos batizados num só Espírito para ser um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres e todos bebemos de um só Espírito. O corpo não se compõe de um só membro mas de muitos. Se o pé disser: ‘Mão eu não sou logo não pertenço ao corpo’ nem assim deixará de fazer parte do corpo. E se a orelha disser: “Olho eu não sou logo não pertenço ao corpo’ nem assim deixará de fazer parte do corpo. Se o corpo todo fosse olho onde estaria a audição? Se fosse todo ouvido onde estaria o olfato? Mas Deus dispôs cada um dos membros do corpo segundo a sua vontade. Se o conjunto fosse um só membro, onde estaria o corpo?   Há portanto muitos membros mas um só corpo. Não pode o olho dizer à mão: ‘Não preciso de ti’; nem tampouco pode a cabeça dizer aos pés: ‘Não preciso de vós’. (...) Ora vós sois o corpo de Cristo e sois os seus membros, cada um por sua parte. E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são, em primeiro lugar, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, doutores Vem a seguir os dons dos milagres, das curas, das assistências, do governo e o de falar diversas línguas. Porventura são todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos realizam milagres? Todos têm o dom de curar? Todos falam línguas? Todos as interpretam? ”.  (segue hino à Caridade).

      Na segunda carta aos Coríntios 3,17 há mais : “Pois o Senhor é o Espírito e onde se acha o Espírito do Senhor aí está a liberdade.” 

                  A linha que por dentro de todas as contas, as mantêm unidas em um colar, o sopro vital em suas diferentes fases que listamos acima, tem sua analogia com os diferentes níveis que constituem a Igreja, em que a imagem do Barco, Nave, também se inclui com seus diferentes membros constituindo esta hierarquia. Ou como n’ Arca de Noé o mundo mesmo em seus três andares, níveis, degraus. A mesma disputa entre as partes do corpo que s.Paulo ressalta aparece nos Upanishads entre os sentidos e o sopro, prana, para saber quem é o principal.        

                Esta insistência de falar sobre o Espírito aos Coríntios é porque a cidade é de Eólo, o vento, Sísifo seu filho, Belerofonte seu neto: na acrópole de Corinto como em outras da região, havia a ‘hipocrene’, fonte, rio nascido, dos pés de Pégaso o cavalo alado, nela Atena o domesticou e selou. O castigo mesmo, famoso, de Sísifo é imposto como pena por ter esta água abundante regando sua cidade. Esta fonte chama Peirene de onde a etimologia da palavra ‘perene’ posto que ainda hoje àgua jorra e flui das ruínas desta cidade grega. Na Samaria a samaritana junto ao poço de Iacó pede a IHS que lhe dê àgua viva e IHS lhe diz em resposta: ‘Deus é espírito’.

             Dá para fazer o paralelo Iesus / Iason (Jesus / Jasão), onde a nave Argos com todos os heróis gregos, Heracles incluso, seria a Igreja, Barco, Nave.  Nela estava o velocino, tosão, pele do carneiro de ouro que levou, salvou, voando pelos ares, Frixus e Helles, caindo esta última no mar justamente no Helles-ponto, Frixus chegando e sacrificando o carneiro na Media, terra da Medeia que volta junto levando o velocino de ouro com a nave Argo; volta com todos do oriente para o ocidente. Os coríntios, a quem s.Paulo prega, têm esta mitologia na cabeça, nas estátuas, nas histórias. 

              A ideia é de que os ventos, sopros, vayus, com Prana como sopro chefe, formam a fisiologia humana, as partes do sopro, segundo a ciência antiga. Nesta mesma ciência antiga, este prana, espírito, segundo os oito acessórios da Yoga (oito partes, oito faculdades, oito membros) deve ser controlado, direcionado, para que a mente entre em samadhi, transe: desde já, àgua que jorra, dos pés de Pégaso ou do poço de Iacó / Iaco.

         No Yoga Sutras de Patañjali temos em seu capítulo primeiro a dissertação sobre isto, qual seja, o estado de transe, samadhi, que permite à mente entender, compreender todos os níveis da realidade, estado que necessariamente deve ser atingido para a realização, a libertação, a iluminação, a meta desta ciência antiga. Esta ciência não é necessariamente experimental, empírica, materialista, mas é essencialmente espiritual: a meta do conhecimento não é uma realização material, experimental e daí existente mas realiza-se espiritualmente.

        Os oito acessórios, membros, partes, faculdades, da Yoga são: yama, nyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana, samadhi : os cinco primeiros exteriores e os três últimos interiores compondo uma unidade, os três últimos, chamada samyama : concentração, meditação e transe (ou contemplação) respectivamente.  

            Yama é restrição: não matar, não roubar, não mentir, não cobiçar.

           Nyama é observância, de limpeza, contentamento, purificação, estudo e ‘fazer do Senhor o motivo de todas as ações’ ‘samadhi siddhi Ishvara pranidhanat’ a consecução do transe fazendo do Senhor o motivo de todas as ações (II, 45) - os outros membros acessórios, partes, não ficam inúteis, sem uso, com o transe atingido mas ‘a mesma coalhada que serve ao ser humano serve também ao sacrifício’ significando isto que os outros acessórios são condições e preparativos para esta consecução.

            Asana é postura, as posturas da hatha yoga que todos fazem; ‘postura é quando não há mais movimento do corpo e assim cessa a perturbação dos pares de opostos’ frio e calor, tristeza e alegria, etc.

          Pranayama é o controle da respiração; tatah ksiyate prakasa avaranam então é destruído o que cobre a luz (II,52) – ‘pelo panorama máyaco do desejo, a Essência, que é luminosa por natureza, é coberta, e o mesmo é direcionado para o vicio’, com pranayama, esta cobertura, véu, é destruída. Dharanasu cha yogyata manasah, e a aptidão da mente para a concentração (II,53).

          Pratyahara/Abstração é aquela pela qual os sentidos não entram em contato com seus objetos e seguem a natureza da mente (II,54).

          Dharana/Concentração é a permanência da mente, Desah-bandhah Chittasya Dharana (III,1), ‘Concentração significa a mente tornar-se ligada em tais lugares como a esfera do umbigo, a lótus do coração, a luz no cérebro, a ponta do nariz, a ponta da língua, e outras tais partes do corpo’. Mas a permanência pode ser também estar ligada no monossílabo sagrado que é o nome de Deus mesmo, AUM ou em outro tema de concentração.

          Dhyana/Meditação é a continuação do esforço mental para entender, Tatra pratyaya ekatanata dhyanam (III,2), ‘meditação é a continuidade, i.e., o fluxo imutável, do esforço mental para entender o objeto de meditação’ – vemos aqui nossa água que corre, flui, contínua, em uma direção única, ekatanata.

         Samadhi/Contemplação ‘o mesmo quando brilhando com a luz do objeto apenas e destituído, como se fosse, de si mesmo’ (III,3) - é o transe. ‘Treta ekatra samyamah, os três juntos são samyama’ (III,4) – concentração, meditação e transe. ‘Tad jayat prajña lokah, atingindo isto vem a visibilidade do conhecimento’ (III,5) atingindo este samyama vem a visibilidade do conhecimento-em-transe. Este samyama, que vemos aqui confunde-se com prajña, é o fluxo imperturbável, imutável, o transe água viva.

       ‘Vayu dotado com as oito glórias’, conforme vimos acima na citação do Shiva purana, seria então Vayu dotado com estes oito acessórios, partes, membros. 

         De djhanas e samadhi, Buddha fala bastante nos Nikayas todos (diga-se de passagem, traduzidos para o português por Michael Beisert e acessível gratuitamente em acessoaoinsight.net na internet que junto com os Jatakas, vidas passadas de Buddha em vidasdebuddha.blogspot.com compõe bastante texto canônico buddhista gratuito, livre, de graça, na rede: nada custa). E a descrição tanto de Buddha quanto de Patañjali, é de um fluxo imperturbável, fluxo imutável, qual água que flui. 

        Em Chandogya Upanishad VII,1: “Apesar do mundo estar amarrado apertado por todos os lados pelos fortes laços do desejo que são paradoxalmente tão delicados quanto as fibras de caule de lótus, é ao mesmo tempo seguro e suportado por Prana que é não apenas imanente no mundo como uma linha em contas mas  também o envolve por fora. É este Prana que é conhecido  como Prajñatma por conta da suposta identificação da upadhi de prana como prajña com o Atman ...”.

Texto que comprova nossa tese de aproximar prana e prajña. 

          Recorrendo a Ananda Coomaraswamy, o grande historiador da primeira metade do séc. XX, temos: “No Rig-Veda o ato da criação é referido sob nenhum aspecto mais fundamental do que aquele da soltura das Águas (apah) que foram confinadas dentro de profundezas ocas (kha) da rocha ou Montanha (asmi, adri, budhna, himavat) onde Vrtra as segura. Quando as Águas são figurativamente chamadas de Vacas, então a Montanha é o curral de pedra no qual elas estão aprisionadas. A soltura, libertação, das Águas ou das Vacas é também o Encontro da Luz Escondida. A Rocha é do mesmo modo o lugar de nascimento de Agni (RV II,12,3) e deste lugar ele consegue seus cavalos ctônicos (budhnya) e outros tesouros (RV VII,6,7 e X,8,3). O poço inexaurível, aí, jorra o Rio da Vida, Saraswati...” (cf. Rig Veda I,56,5 ; I,62,3 ; I,130,3 ; II,12,3 ; II,15,3 ; IV,3,11 ; V,41,12 ; X,89,4 ; X,113,4). “Se fosse necessário justificar a designação de Saraswati ou as vezes Asmanvati (obviamente um nome essencial da corrente, fluxo, que flui da Rocha, asmano hy apah prabhavanti, SB, IX,1,2,4 = srnvantu apah...adreh RV V,41,12), como o Rio da Vida (ou no plural quando as sete irmãs são mencionadas) pode haver referência a tais expressões como ‘ as Águas molharam (ensoparam)(sarayanta) as terras gastas (dhanvani), RV IV,17,2 – o tema do Graal – e mais especificamente ‘A ti, Saraswati, angélica, pertence toda vida angélica, conceda-nos progênie ( toc visva... RV II,41,17); novamente a qualidade da maternidade é constantemente atribuída a todos ou qualquer dos ‘Rios’.” (pg 118).  Imagem da criação e a libertação do rio da vida junto da árvore da vida.

              Mais adiante o mesmo autor diz : “A palavra ‘giri’ (A.A.II,1,8) traduzida acima por ‘garganta’(n.) leva a si mesma a uma exegese mais ampla. Keith a traduz por ‘lugar de esconder’ (de Brahma) e em uma nota diz muito acertadamente que ‘é chamado ‘giri’ porque ‘prana’ está engolido e escondido pelos outros sentidos’

(nota: Os ‘outros sentidos’ (vista, ouvido, etc.) identificados com o giri de Brahma são extensões ou envios, remessas, (Mund. Up. II,1,8 ; Kaus. Up. III,5) do Sopro central (pranah) ou espírito (atman) do qual eles se originam e para o qual eles retornam...). Em uma nota em A.A. II, 2,1, ele adiciona, ‘O sol e prana são usualmente identificados, um sendo a representação ‘adhidaivatam’, o outro a ‘adhyatman’. O primeiro atrai a visão, o último impele o corpo’. É de fato dentro de nós que a deidade está ‘escondida’ (...) lá que o Védico ‘rsayah’ buscado pelos seus rastros, lá no coração que o ‘Sol escondido’ (...) é para ser ‘encontrado’, ‘pois este em nós mesmos está escondido (...) estas deidades (os sopros); (...) com ‘giri’ (radical gir, ‘engolir’) comparar ‘grha’ (radical grah, ‘agarrar’); ambos implicam lugares fechados, refúgios, um ser dentro de alguma coisa. Ao mesmo tempo ‘giri’ é ‘montanha’; e ‘garta’ (da mesma raiz) ambos ‘assento’ e ‘grave’ (túmulo)( pode-se ser engolido por ambos). As semânticas são paralelas no ger. Berg, ‘montanha’ e seus cognatos Eng. barrow, (1) monte e (2) ‘monte fúnebre’, ‘burgh’ cidade, ‘borough’ e finalmente ‘bury’ ; cf. Skr. Stupa, (1) cume, elevação e (2) monte fúnebre. Nós somos então, a ‘montanha’ na qual deus está ‘enterrado’ justo como numa igreja ou stupa e o mundo mesmo, são Seu túmulo e a ‘caverna’ (nota grande sobre os poderes da alma enterrados qual branca de neve e os sete anões) na qual Ele desce para nosso despertar (MU II, 6). O que tudo isto leva a ter em mente, que ambos os Maruts e os brotos de Soma são equacionados com os ‘sopros’ (SB IX,3,1,7 etc), é a probabilidade que giri no Rigveda apesar de traduzível por ‘montanha’ é realmente antes ‘caverna’ (guha) que ‘montanha’ e ‘giristha’ ‘na montanha’ antes de sobre ela...” (pg. 385s).  

       Temos, portanto, estabelecida que a imagem d’água que jorra do monte, livre, de presa, contida, que estava, é imagem do ser humano atingindo o transe enstático, extático, chamado também de insight místico, samyama, samadhi, após o controle da respiração e da abstração dos sentidos, pranayama e pratyahara respectivamente. E assim o fluir do rio Saraswati, o fluir da contemplação, da meditação.

        A citação do Shiva Purana acima diz que Vayu ‘nasce de Akasha’. Este último seria o quinto elemento, o éter, ou espaço, comum na cosmologia oriental e ocidental síntese de todos os elementos.  Novamente recorramos a Ananda Coomaraswamy para entendermos o que é esta origem do sopro, espírito, no éter - segue a citação:

                “Kha, do grego Khaos, é geralmente ‘cavidade’ e no Rigveda particularmente o buraco no cubo da roda através do qual o eixo roda (Monier-Willians). A.N. Singh mostrou conclusivamente que no uso matemático Indiano, corrente durante os primeiros séculos do Cristianismo, ‘kha’ significa ‘zero’; Suryadeva, comentando sobre Aryabhata, diz que, ‘os ‘khas’ referem-se a vazios (khani sunya upa laksitam)... assim Khadvinake entende os dezoito lugares explicados por zeros’. Entre outras palavras que denotam zero estão sunya, akasha, vyoma, antariksha, nabha, ananta e purna. Somos imediatamente atingidos pelo fato que as palavras sunya, ‘vazio’ e purna, ‘plenum’, tem uma mesma referência; a implicação sendo que todos os números estão virtualmente ou potencialmente naquilo que é sem número; expressando isto como uma equação temos que 0 = x-x, é aparente que zero está para número como possibilidade está para atualidade. Novamente, o emprego o termo ‘ananta’ com a mesma referência implica uma identificação do zero com infinito; o começo de todas as séries sendo assim o mesmo que seu fim. Esta ideia última, devemos observa, encontra-se já na literatura metafísica antiga, por exemplo, RV IV, 1,1, onde Agni é descrito como ‘escondendo ambos os seus fins, términos’ (‘guhamano anta’); AB, III,43, ‘o Agnistoma é como uma roda de charrete, sem fim (‘ananta’)’ ; JUB, I,35,’O Ano é sem fim (‘ananta’), seus dois términos (‘anta’) são Inverno e Primavera... assim também o canto é sem fim (‘anantam saman’).” (pg 249)

   Mais adiante o mesmo autor continua : “O cubo da roda então, ‘kha’ ou ‘nabli’, da roda do mundo é visto como receptáculo ou fonte de toda ordem, ideias formadoras e bens : por exemplo, II,28,5, rdhyama te varuna khan rtasya, ‘possamos, Ó Varuna, ganhar o teu eixo, cubo, da Lei’ ; VIII, 41,6 onde Trita Aptya ‘todos os oráculos (kavya) estão colocados como que no cubo dentro da roda (‘cakre nablir iva’)’; IV,28, onde Indra abre os cubos ou rochas fechados ou escondidos (apihita...khani no verso 1, apihitam asna no verso 5) e assim liberta os Sete Rios da Vida. Em V,32,1, quebra e abre a Fonte da Vida (‘utsam’), isto é novamente um esvaziamento para fora dos vazios (‘khani’) onde os dilúvios encadeados são libertados. De acordo com uma formulação alternativa, todas as coisas são pensadas ‘ante principium’ como fechadas dentro e ‘in principio’ como procedendo de, um chão comum, rocha ou montanha (budhna, adri, parvata, etc) : este chão, é pensado como uma ilha descansando dentro do mar indiferenciado da possibilidade universal (X,89,4...). Isto significa que a priori espaço não dimensionado (kha, akasha,etc) está na base e é a mãe do ponto, antes deste último ter uma origem independente; e isto de acordo com a ordem lógica de pensamento, que procede da potencialidade ao ato, do não ser para o ser. Este chão ou ponto é, de fato, a ‘rocha das idades’ (asmany anante, I,130,3; acyutam, VI, 17,5). Aqui ‘ante principium’ Agni descansa oculto (guhan santam, I, 141,3,etc) como Ahi Budhnya, ‘no chão do espaço, escondendo ambos seus términos’...”. (pg 252).

            Outra referência, desta vez dos Upanishads, BU (Brhradanyaka Upanishad) III,7s quando Yajñavalkya (o grande autor do Satapatha Brahmana) responde a Uddalaka Aruni conhecido como Gautama. Segue a citação:

                        “Certa vez, o Gandharva questionou Patañcala se ele conhecia bem aquele Sutra (Linha) que segura todos os seres e todos seus nascimentos presente e futuro, como uma linha que mantem juntas as contas de uma guirlanda. ‘Não senhor, não conheço este sutra’ respondeu o kapya. (...) ‘Vayu é este Sutra; pois por seu poder são seguros todos os seres e seus nascimentos. Daí porque, Ó Gautama, quando uma pessoa morre, isto é, quando Vayu a deixa, todos seus membros se tornam sem força. Sendo sutil igual akasha, ele é o suporte da terra e dos outros seres: ele é mesmo o ‘Lingadeha’, o corpo sutil consistindo dos cinco elementos, dez órgãos dos sentidos, prana e antahkarana; resumindo ele consiste em ambos o cosmos e o acosmos. (...). Há, Ó Yajñavalkya, o mundo celestial acima na parte de cima do hemisfério qual ovo que forma este universo; abaixo no hemisfério inferior deste há a terra; e entre as duas metades há a região intermediária. Agora, diga-me o que é aquilo no qual tudo que está acima, abaixo e no meio assim como também tudo que aconteceu no passado, está acontecendo no presente e acontecerá no futuro está inteiramente contido’. Yajñavalkya respondeu, ‘Tudo isto que você descreveu, Ó Gargi, não é outro que o Sutra sobre o qual já te falei. Como a terra n’água, ele está contido no não manifesto Akasha e reside lá apenas, durante todos os três tempos, isto é durante os períodos de originação, continuação e dissolução.’”.

                 Em IV,1 e 3 continua: “Prana significa portanto que a divindade de Vayu (vento) é o corpo de pranas (órgãos dos sentidos) e que akasha é o suporte dele.” E segue uma bela passagem sobre samsara: “Consistente com isto, foi então explicado que justo como as aparências de uma serpente, uma miragem e da prata estão super impostas a corda, ao deserto e à concha, respectivamente, do mesmo modo o conjunto do samsara está super imposto ao Atman por conta das upadhis do antahkarana, etc, devido à ignorância.”       

              Há ainda uma última citação em CU (Chandogya Upanishad) IV,10 :

      “Então aproximando-se Upakosala, lhe disseram que Prana é Brahman, ‘ka’ é Brahman e ‘kha’ é Brahman. (...) ‘ka’ significa felicidade que dura apenas por um momento e ‘kha’ que significa akasha é um elemento inconsciente. (...) justo como o adjetivo ‘azul’ na frase ‘lótus azul’ exclui todas as lótus vermelhas, assim ‘kha’ como adjetivo de ‘ka’ exclui outros tipos de felicidade que são causadas pelo contato da mente com os sentidos e seus objetos. Portanto entenda que o que chamamos de ‘kha’ é o mesmo que ‘ka’. Do mesmo modo quando ‘ka’ (felicidade) se torna o adjetivo de ‘kha’ (akasha) ele exclui o akasha inconsciente do conteúdo de ‘kha’. Isto significa que quando a felicidade está alojada no (não consciente) akasha, ela é Brahman; ou, o que é a mesma coisa, quando o não elemento, não inconsciente akasha (kha) é suportado por felicidade (ka) ele é Brahman. Aqui pode-se dizer que se ambas as afirmações significam uma e a mesma coisa, uma delas apenas “ou ‘ka é kha’ ou ‘kha é ka’” será suficiente. A outra afirmação é supérflua. Mas, como é demonstrado acima, devemos excluir portanto ambos os prazeres sensíveis empíricos assim como o akasha inconsciente (...)”.   No Grego mantem-se a comparação pois Chaos, espaço escancarado (que em latim fará hio, de onde hiato), boquiaberto, abismo, também significa nobre, venerável, formando o radical de Chara, alegria, prazer, de onde vem Chariatides e a Caridade mesma.  

                    Ainda em Yoga sutras III,40 é dito que em akasha reside todos os poderes de escutar e todos os sons e a ausência de obstrução é uma indicação também de akasha, que é provado a tudo penetrar, tudo permear.

           

                  Este processo fisiológico e espiritual estaria contido dentro da Vida de Timoleon de Plutarco que teria consciência do paralelismo com o deus védico Vayu chamando a ambos de alento, apropriadamente, como vimos antes. A linha, sutra que junta todas as contas de uma guirlanda, colar, aparece de algum modo? Sim aparece. Primeiro no capítulo VIII quando vemos as sacerdotisas de Prosérpina/Perséfone seguindo a expedição em um barco próprio só delas. À noite rasga-se o céu e aparece sobre a nave principal uma grande coluna de fogo resplendente e que se fixou no ponto da Itália para onde se dirigiam, levantada uma tocha, qual dos mistérios e seguindo o mesmo curso, o fogo do céu indicando que as deusas protegiam a expedição.  A coluna de fogo é a linha, sutra, que atravessa toda a realidade do corpo, mundo, sendo o princípio/fim de todas as coisas. A mesma coluna não guiava Israel/Iacó/Iaco pelo deserto?  

      A segunda vez que aparece a linha é no capítulo XII logo em seguida quando já desembarcados em Adrano acontece das armas do templo da cidade se mexerem sozinhas e a estátua onde elas se apoiavam suar, soltar suor, automatismo atribuído a estátuas e armas comum na antiguidade; o automatismo aconteceu quando Timoleon correndo, junto com os seus, para enfrentar o inimigo, ao invés de parar para descansar abraça o escudo e continua a correr sem descansar e ganha a batalha por isto. É o Prana principal, o sopro primeiro seguido dos outros sopros em seguida: o abraçar o escudo no peito, na região da caixa toráxica indica isto. O automatismo é a linha: Pinóquio de Collodi divulgou o tema: somos marionetes manipuladas por Deus. Uma linha nos puxa para cima e por ela somos arrastados a fazer a vontade de Deus.

       No capítulo XI anterior temos uma imagem de akasha, o suporte do sopro, o princípio/fim de todas as coisas: a palma da mão para cima é o princípio, começo, origem, enquanto a palma da mão para baixo é o fim, término, destruição. Um cartaginês ameaça Andrômaco, aliado dos gregos, com estes gestos das mãos mas nada consegue. A imagem é a mesma dos Upanishads na citação de Yajñavalkia com o Ovo em seus dois hemisférios superior e inferior e uma região intermédia - céu, terra e atmosfera – akasha, o éter, o espaço, estaria por dentro e por fora, antes e depois do surgimento do mundo, ovo.  

      Outras imagens do akasha, éter, aparecerão como no capítulo XVI quando em Adrano em um sacrifício num templo, dois inimigos o querem assassinar mas um deles é morto por um terceiro e o vivo conta tudo: “maravilharam-se com a destreza com que a Fortuna move umas coisas por meio de outras e reunindo-as e combinando a todas, desde longe se serve das que parecem mais distantes e não tem nada de comum entre si, fazendo com que o fim de umas seja o princípio de outras.” Então foi considerado homem sagrado que realizava a vontade dos deuses, vingador da Sicília. O que prova que o que fizeram a Dion e sua família está na mente do Povo, sua morte e ressurreição qual outro Dionisos, morte da liberdade destruída, sufocada e apagada pela tirania. 

          Os capítulos de XIII-XV tratam do destino de Dionisio, o jovem que fica do lado dos gregos e de Timoleon, entregando a acrópole para os coríntios enquanto os cartagineses ficam com a cidade baixa. Dionisio vai para Corinto e fica vivendo numa taberna como a mais simples das pessoas simples: fala-se então muito da roda da fortuna que eleva as pessoas para o mais alto e depois as faz descer para o mais baixo. Seria um dos sopros com o pessoal da acrópole e os que chegam de barco formando outro sopro (capítulos XVII-XIX).

         A tomada da Siracusa é um passeio em que se vê a falta de obstáculo que caracteriza o akasha e sua permeabilidade, tudo permeando, por fora e por dentro, conforme as referências anteriores – segue citação do capítulo XXI : “Timoleon se apresenta dia seguinte e dividido em três partes o exército, ocupa Siracusa; de maneira que quando em Corinto se duvidava se a armada havia aportado, no mesmo momento receberam a notícia da chegada e da vitória; tão prosperamente ocorreram os sucessos e tanto se agradou a fortuna em somar a presteza ao brilhantismo daquelas façanhas.” 

          No capítulo anterior, XX, temos o último sopro, samana, da digestão, quando em trégua e paz nas belas praias de Siracusa soldados gregos de ambos os lados pescam enguias e comem juntos, colocando dúvidas em Magón cartaginês, este foge sem lutar: quando chega em Cartago o crucificam. 

         No XXII-XXIV vemos que Siracusa então está uma ‘terra gasta’, desolada pelas construções dos tiranos e por suas estátuas; diz-se então que a queda de Dion foi por ter preservado ambos, razão de seu insucesso enquanto Timoleon chama os siracusanos para as destruírem, aplanarem e levantarem prédios públicos significando que a liberdade está acima do despotismo, com as estátuas sendo julgadas e leiloadas. A praça pública então está tomada de animais selvagens de tão abandonada que estava – é esta terra que será tomada pelo rio da vida que sai da árvore da vida no meio do monte da vida. O repovoamento a partir de Corinto é anunciado por toda a Grécia e Ásia terminando com as tiranias na Sicília e com os tiranos indo para a metrópole Corinto.  Aqui estamos na abstração e na concentração prontos para entrar em samadhi, transe, samyama e em seu fluxo imutável, o que acontece nos capítulos seguintes.

             No capítulo XXV alguma passagem de Plutarco indica que Timoleon está fora de si neste momento, entrando em transe, em samadhi, em samyama? Sim, Plutarco diz que dizia-se que Timoleon delirava. Os cartagineses vieram em massa com um exército de 70.000 infantes, cartagineses, é dito, de Amílcar e Asdrúbal, chegam junto do rio Cremiso/Crimeso e trava-se a batalha com Timoleon saindo de Siracusa com apenas 5.000 infantes e o general tinha então 70 anos: estava doido? Perdeu os sentidos? Está fora de si? Entrou em transe?

            No XXVI acontece então o episódio d’Árvore da vida: “Subiam um monte, do alto do qual veria-se os inimigos, quando encontraram um carreto de aipos / salsão. Os soldados acharam mal sinal, pelo uso de coroar por piedade os monumentos dos mortos com aipo e daí o provérbio de quem está gravemente enfermo que está pedindo aipo. Querendo pois afastá-los de semelhante superstição e dissipar sua desconfiança, parando a marcha falou Timoleon: “Que antes da vitória a coroa lhes vinha por si mesma às mãos deles porque os coríntios coroam com aipo àqueles que vencem nos Jogos Ístmicos, tendo esta planta por uma insígnia sagrada e própria de seu país.” Pois então era de aipo a coroa dos jogos Ístmicos como agora o é a dos nemeos (de Nemeia) e não muito antes havia sido de pinho.” Todos os soldados então se coroam e aparecem duas águias, uma segurando uma serpente e outra gritava alto. Imagem de dhyana, jhana, meditação,  com a coroa sagrada na cabeça justificando plenamente a tese. 

       Segue capítulo XXVII onde a nata dos cartagineses em brancos escudos e armaduras atravessam em carros o rio, compacta, unida e os estrangeiros das demais nações, empreendiam a passagem em desordem e confusão. Mirou os inimigos divididos pelo rio e dividiu o exército mas deu uma parada e gritou muito alto para acertar o ataque “pareceu que sua voz foi mais forte e penetrante que de ordinário bem fosse porque naquele conflito e naquele calor se acrescentasse efetivamente a voz ou porque algum gênio, segundo então muitos o creram, o ajudasse a gritar e gritasse com ele”.  Esta aparição do som duas vezes seguidas (neste grito e com àguia) é explicada por A. Coomaraswamy : “As inumeráveis alusões Védicas à descoberta do Sol ou Fogo, perdido nas Águas, nas Profundezas (guha) ou na Escuridão (tamas) – e.g. Rgveda V,40,6 – se referem primariamente ao escurecimento da Luz antecedente à Aurora de um ciclo-do-mundo e à descoberta desta Luz por meio de hinos ou ritos cantados ou realizados por Anjos ou homens. Naturalmente ritos análogos são realizados e os mesmos hinos são cantados aurora de cada dia, ou durante um eclipse para o retorno da luz escondida. Não se deve deixar de ver que as Águas, as Profundezas e a Escuridão são também as Profundezas do Coração e que para aquele que entende os mesmos hinos e ritos são meios para a visão interior daquele Sol Superno do qual o brilho e a escuridão são sem sucessão nem sujeitas a qualquer acidente do tempo (pg 91).”  Soma-se a  isto a proximidade de akasha com o som com vimos no Yoga sutras.  

           Segue a imagem do transe, samadhi, no capítulo XXVIII:

     “Aos golpes de lança aguentaram bem as couraças de ferro e os escudos largos mas depois na luta com espada, o peso que os cartagineses carregavam os fizeram afundar n’água porque passa a chover torrencialmente e na cara dos cartagineses e nas costas dos gregos, relâmpagos sem fim, granizos, estrondos nos céus e nas armas, vento, chuva espessa, muito barulho não se escuta as ordens, os cartagineses pesados e os gregos lisos e rápidos, os primeiros se caíam era impossível se levantar da muita lama. O rio enche e transborda. Morreu muito cartaginês e não líbio, númida ou espanhol: a batalha que mais cartagineses morreram.”  

           No capítulo XXIX fala-se da distinção dos vencidos: poucos despojos de ferro e bronze e muito despojo de ouro e prata! Eis o tesouro escondido e liberado. As couraças mais bonitas foram enviadas para Corinto.

              No capítulo XXXVI (depois do XXXV com a conclusão em que aparece Timoleon como alento) temos a comparação com Pelópidas, Agesilao e Epaminondas, generalatos com dificuldades e esforços e o de Timoleon com facilidade e esplendor adicionados. “Edificou ao lado de sua casa um templo ao Khaos (Acaso, igual a akasha e encontrando neste a sua real explicação)(sucesso imprevisto) em que fez sacrifício e à casa mesma a consagrou ao gênio.” Ficou em Siracusa com a família e foi feliz para sempre. Logo depois esta cidade produziria Arquimedes, o grande cientista.

             Yama e Nyama apareceriam nos capítulos III-VI onde se conta como Timoleon tinha um irmão tirânico ao qual ele salva numa guerra protegendo-o com seu corpo e este mesmo irmão ao não largar a tirania é morto por Timoleon o que faz com que a família e a mãe lhe fechem as portas e assim “vive anos em lugares solitários passando uma vida infeliz e inquieta nas mais desertas solidões”, o que indica a purificação e limpeza de modo que diz Plutarco : “Desta maneira se os juízos não dominam as ações, tomando segurança e força da razão e da filosofia, flutuam e são facilmente transtornados por qualquer elogio ou repreensão, destituídos do fundamento do discurso, razão, próprio.” que seria o estudo. É então que ocorre sua indicação no meio da assembleia “inspirada quiçá por algum deus.” Neste momento Plutarco compara Timoleon com Focion ateniense e com Aristides locrio nesta luta solitária para manter a razão e a liberdade.

 

Bibliografia 

Plutarco, Vida de Timoleon, em Vidas Paralelas, tradução de Antonio Sanz

            Romanillos, Jose Ortiz y Sanz e Jose M. Riaño, Aguilar, Madri, 1973.

Ananda Coomaraswamy, Perceptions of The Vedas, Manohar & IGNCA, New    

             Delhi, Índia, 2000.

Shiva Purana, vol.4, Motilal Barnasidass Publishers, Delhi, 1970, Índia.

Patañjali, Yoga Sutras, com comentário de Vyasa e glosa de Vachaspati Misra  

            traduzido por Rama Prasada e introdução de Rai Bahadur Srisa Chandra  

            Vasu, MMPublishers, 1.a edição 1912, 3.a 1982, New Delhi, Índia.

V.H.Date, Upanishads Retold, MMPublishers, 2 vol., New Delhi, Índia,1999.

René Guénon, L’Homme et son devenir selon le Vedanta, Ed. Traditionneles, Paris,

                   1984.

A Bíblia de Jerusalém, Paulus, SP, 1985.

Pausanias, Guide to Greece, 2vol, trad. Peter Levi, Penguin Books, London,

                      England, 1979.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

506 Buddha Rei Serpente Campaka

   



           



                           Imagem do jataka 506, de Ajanta, rei serpente Campeyya / Campeyaka / Campaka está a esquerda da imagem com suas cristas quais cabeças de serpente e explica ao rei humano porque é melhor ser humano que ser-pente ; às margens do rio Campa, na Índia.   lique na imagem para vê-la ampliada : encontro da imagem com seu texto.  

   506

        “Quem é como, etc” - Esta história o Mestre contou enquanto residia em Jetavana sobre os votos de dia de jejum. O Mestre disse, “É bem feito, Irmãos leigos, que vocês guardem os votos de dia de jejum. Sábios antigos do mesmo modo renunciaram mesmo à glória de se Rei Serpente e viveram sob estes votos.” Então com o pedido deles ele contou uma história do passado. 

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         Certa vez, quando Anga era rei do reino de Anga e Magadha rei em Magadha, entre os dois reinos de Anga e de Magadha estava o rio Campa, onde havia um lugar em que serpentes residiam e neste lugar dominava o rei serpente Campeyya.

      

             Algumas vezes Rei Magadha tomava o campo de Anga, outras vezes Rei Anga tomava Magadha. Um dia Rei Magadha, tendo lutando uma batalha contra Anga e levado a pior, montou seu corcel e fugiu, perseguido pelos guerreiros de Anga.  Quando ele chegou no rio Campa, ele estava na cheia. Mas ele disse, “Melhor morrer afogado neste rio que morrer nas mãos de meus inimigos!” Então homem e cavalo mergulharam na corrente.

         

                Bem, o rei serpente Campeyya construiu para si debaixo d’água um pavilhão em joias ; e lá naquele momento no meio da sua corte ele festejava. Mas o rei e seu cavalo mergulharam no rio justamente em frente ao Rei Serpente. A serpente, vendo este magnífico monarca, concebeu amizade por ele. Levantando do seu assento, fez o rei sentar no seu próprio trono, ordenando-lhe que nada temesse e perguntou por que ele mergulhava n’água.  O rei contou a ele tudo como se passara. Então disse a serpente, “Nada tema, Ó grande rei ! Farei de você mestre de ambos os reinos.”  Assim ele o consolava e por sete dias mostrou a ele grande honra.   No sétimo dia ele e o Rei Magadha deixaram o palácio da serpente. Então pelo poder do Rei Serpente, Rei Magadha  apossou-se do Rei Anga e o matou e reinou sobre os dois reinos juntos.  A partir daquele momento houve uma firme aliança entre ele e o Rei Serpente. Ano após ano ele fazia um pavilhão em joias ser construído às margens do rio Campa e oferecia tributo ao rei Serpente de grande custo : o Rei Serpente saía com um largo séquito de seu palácio e recebia o tributo e todo o Povo contemplava a glória do Rei Serpente. 

        

                  Naquele tempo o Bodhisatva era alguém de uma família pobre e costumava descer como pessoal do rei para a margem do rio.  Lá vendo a glória do Rei Serpente, cobiçou-a ; e com este desejo morreu, e sete dias após a morte do rei serpente Campeyya, o Bodhisatva, tendo feito ofertas e vivido vida virtuosa, veio à existência no palácio dele sobre o leito real : seu corpo era como uma grande grinalda de jasmin. Quando viu isto, ficou cheio de remorso. “Como consequência das minhas boas ações”, cotejou ele, “armazenei poder nos seis principais mundos dos sentidos ( seis devalokas ), qual milho armazenado no celeiro. Mas vejam, aqui nasci nesta forma réptil ; que me importa a vida !”  E assim ele pensamentos de colocar um fim a si mesmo. Mas uma jovem fêmea serpente, chamada Sumana, vendo-o, deu a direção para os outros, “Este deve ser Sakra, forte em poderes, nascido aqui entre nós !”  Então eles todos vieram e fizeram oferendas para ele, com todo tipo de instrumentos musicais em suas mãos. Seu palácio da serpente  tornou-se como se fosse o palácio de Sakra, o pensamento de morte o deixou : ele  largou sua forma de serpente  e sentou no sofá , magnífico em vestes e adornos. A partir daquele momento grande foi sua glória e legislou sobre as serpentes. Outra vez ele se arrepende, pensando, “O que me importa esta forma réptil ? Viverei sob votos de jejum e deste lugar me sacudindo me libertarei, para entre os seres humanos irei e aprenderei as Verdades e darei um fim ao sofrimento.” Mas depois ele ainda permaneceu naquele mesmo palácio, preenchendo os votos de jejum e quando a jovem fêmea das serpentes vinha apara próximo dele alegremente vestida, ele geralmente violava sua lei de virtude. Depois disto ele saiu do palácio para o parque mas elas o seguiram aí também e seu voto foi quebrado como antes. Então ele pensou : “Devo deixar este palácio e ir para o mundo dos seres humanos e lá devo viver sob os votos de jejum.” Assim então nos dias de jejum ele saiu do palácio e deitou no topo de um cupinzeiro ao lado da autoestrada não distante de uma vila na fronteira. Ele disse, “Aqueles que desejam minha pele ou qualquer parte de mim, deixem eles pegarem ; ou se qualquer um me fizer serpente dançante, deixe-os me fazer tal.”   Assim ele rendeu seu corpo como um presente e contraindo sua crista ele deitou lá observando os votos de dia de jejum. 

          

           Aqueles que iam e vinham na autoestrada viram ele, o veneraram com incensos e perfumes. E os moradores daquela vila da fronteira, considerando-o ser um rei serpente de grande poder, levantaram um pavilhão acima dele, espalharam areia ao redor dele, veneravam com perfumes e coisas cheirosas. Bem então o Povo começou a querer filhos através da ajuda dele, tendo fé no Grande Ser e venerando-o.  O Grande Ser guardou lá os votos de jejum do décimo quarto e décimo quinto dias da meia lua, deitado em cima do cupinzeiro ; no primeiro dia da metade lunar e retornaria para seu palácio ; e enquanto ele assim preenchia seus votos, o tempo passava.

 

               Um dia sua consorte Sumana falou com ele assim : “Meu senhor, você tem o costume de ir entre os seres humanos para guardar seus votos de jejum. O mundo dos seres humanos é perigoso, cheio de medo.  Suponha que algum perigo acontecesse contigo, me diga agora por qual sinal saberei sobre este perigo.”  Então o Grande Ser levou-a para o lado de um lago afortunado e disse, “Se alguém me bater ou me machucar, àgua deste lago tornar-se-á turva. Se um pássaro roc me carregar, àgua desaparecerá. Se um encantador de serpente me apanhar, àgua tornar-se-á da cor do sangue.”   Estes três sinais explicados para ela, ele saiu de seu palácio para guardar o décimo quarto dia, foi e deitou no cupinzeiro, iluminando o cupinzeiro com o brilho de seu corpo.  Branco era seu corpo qual uma espiral de pura prata, qual bola de lã vermelha era sua cabeça : bem, neste Jataka o corpo do Bodhisatva era grosso como cabeça de arado, no Jataka Bhuridatra ( 543 ) grosso  como uma coxa, no Jataka Sankhapala ( 524 ) redonda grande qual uma canoa. 

 

         Naqueles dias havia um jovem brahmin de Benares que veio à Takkasila ( Taxila ) para estudar aos pés de um professor mundialmente renomado, de quem aprendeu o encanto que comanda todas as coisas de sentidos, sensos.  Indo para casa através daquela estrada, o que podia ele ter visto se não o Grande Ser. “Esta cobra pegarei,” ele pensou, “e viajarei através da cidade e dos campos e a metróle real, fazendo-a dançar e arrecadando grandes lucros.”  Então ele arranjou ervas ‘máyacas’ e repetindo o encanto ‘máyaco’ abordou a serpente.  Logo que escutou o som deste encanto, o Grande Ser sentiu seus ouvidos como que furados por lascas em fogo, sua cabeça como que quebrada com um golpe de espada. “O que temos aqui !”  pensou ele ; colocando para fora sua cabeça, viu o encantador de serpente. Então pensou, “Meu veneno é poderoso e se estiver irado e soprar o sopro pelas narinas o corpo dele será dividido e espalhado como um punhado de palha ; e então minha virtude será quebrada.  Nem olharei para ele.”  Fechando seus olhos escondeu a cabeça dentro da crista. O brahmin encantador de serpente comeu uma erva , repetiu seu encanto, cuspiu sobre a serpente : pela virtude da erva e do encanto, onde quer que o cuspe caísse surgia bolhas. Então o homem o pegou pela cauda , arrastou-o e o estendeu em toda sua extensão : com uma barra pé de cabra ele o espremeu até ficar fraco, então pegando-o pela cabeça esmagou com força. O Grande Ser abriu sua larga boca ; o homem cuspiu nela e devido à erva e ao encanto quebrou seus dentes ; a boca estava cheia de sangue.  Mas o Grande Ser temia mais quebrar sua virtude, que suportou todo este tormento e nunca nem mesmo abriu os olhos para vê-lo.  Então o homem disse, “Vou enfraquecer esta serpente real !”  Da cauda até a cabeça ele espremeu o corpo da serpente como se fosse quebrar seus ossos até virar pó.  Então o envolveu no que chamam roupa envelope, deu-lhe o que chamam esfrega roupa, pegou-o pelo rabo e deu-lhe o golpe do algodão, como o chamam ( estes parecem ser termos técnicos ). O corpo do Grande Ser estava todo coberto de sangue e ele sentia muita dor.  Vendo que a serpente estava fraca agora, o homem fez um cesto de vime no qual colocou a serpente. Então o carregou para a vila e o fez fazer performance para a multidão.  Negro ou azul ou o que mais, figura redonda ou figura quadrada, pequeno ou grande – o que quer que o brahmin desejasse o Grande Ser faria, dançando, espalhando sua crista como centenas ou como milhares ( isto é, pela sua velocidade de movimento aparecendo com milhares de cristas ). O Povo ficou tão agraciado que deu muito dinheiro : em um dia ele conseguiu mil rúpias e coisas de valor ouras mil rúpias.   No princípio o homem tinha intenção de deixá-lo ir livre quando já tivesse ganho mil peças de dinheiro ; mas quando a conseguiu, ele pensou, “Em uma vila pequena da fronteira  ganhei tudo isto : de reis e cortesãos quanta riqueza não ganharei !”  Então comprou um carreto e uma carruagem, no carreto colocando seus pertences enquanto sentava na carruagem.  Assim com um bando de ajudantes ele atravessava vila e cidade, fazendo a performance do Grande Ser e seguiu com a intenção de mostrá-lo ao Rei Uggasena em Benares ( Varanasi ); e depois então o deixaria ir. 

 

              Ele costumava matar sapos e dá-los à serpente real.  Mas a serpente toda vez recusava comer, de modo que nada podia ser morto para ela.  Então o homem deu a ele mel e milho torrado. Mas o Grande Ser recusou comer estes também ;  pois ele pensou, “Se comer comida, ficarei nesta cesta até morrer.” 

 

     No período de um mês o brahmin chegou em Benares ( Varanasi ). Lá ele ganhou muito dinheiro fazendo a performance da serpente nas vilas além dos portões. O rei também o chamou e pediu para ver a performance :  o homem prometeu para de manhã, que era o último dia da meia lua.  Então o rei enviou um  tambor batendo ao redor da cidade com a proclamação que de manhã uma cobra real dançaria no palácio da corte ; que o Povo então se reúna em multidões para vê-la. Dia seguinte o jardim da corte do palácio estava adornado e o brahmin chamado. Ele trouxe o Grande Ser em uma cesta em joias num tapete bonito, que colocou no chão e ele mesmo tomou um assento.  O rei desceu do pavimento de cima e sentou em seu assento real no meio de uma grande reunião do Povo. O brahmin tirou para fora o Grande Ser e o fez dançar. O Povo não conseguia ficar parado : milhares de lenços balançavam nos ares ; uma chuva de joias dos sete tipos caíram sobre o Bodhisatva. 

 

             Era agora lua cheia desde que a Serpente foi pega : e por todo este tempo ela não comeu nada.  Agora Sumana começou a pensar - “Meu querido marido demora a chegar. Faz um mês desde que ele não voltou : qual será o problema ?”  Então ela foi e olhou no lago afortunado : vejam, àgua estava vermelha qual sangue !  Então ela soube que ele devia ter sido pego por um encantador de serpentes.  Saiu do palácio e foi até o cupinzeiro ; ela viu o lugar em que ele fora pego e depois o lugar em que ele foi atormentado e ela chorou. Então ela foi para a vila da fronteira e investigou ; e descobrindo todos os fatos foi para Benares e no meio do Povo acima do paço do palácio nos ares ela permaneceu chorando então.  O Grande Ser enquanto dançava olhou para os ares e a viu e ficando envergonhado  entrou para dentro da sua cesta e lá ficou.  Quando ele entrou para dentro da cesta o rei gritou, “Qual é o problema agora ?”  Olhando para um lado e outro, ele a viu pousada nos ares e recitou a primeira estrofe :

 

              Quem é aquela que brilha qual relâmpago ou igual estrela luminosa ?

               Deusa ou Titã ? Me parece que ser humano você não é. 

 

  O conversa deles é dada nas estrofes seguintes :

 

            Não sou deusa, nem Titã, nem humana, poderoso rei !

            Fêmea da espécie das serpentes, venho para um certo assunto.

 

             Cheia de ira e raiva você se mostra

             Dos seus olhos lágrimas fluem :

                  Diga que erro ou que desejo

             A traz aqui, senhora ?  Quero saber.

 

            Serpente rastejante, feroz qual chama

           Assim o chamam : aquele lá veio,

                  O prendeu para lucrar, senhor :

           Liberdade para meu marido clamo ! 

 

           Como pode tal sujeito esfomeado

           Pegar uma criatura cheia de poder ?

                   Filha das serpentes, diga,

           Como considerar a serpente retamente ?

 

          Tal é seu poder, que mesmo esta cidade

           Ele poderia queimar abaixo em cinzas.

                  Mas ele ama o caminho sagrado,

           E busca renome em austeridade. 

 

Então o rei perguntou como pode o homem prendê-lo. Ela respondeu na seguinte estrofe : 

 

  Nos dias santos ( décimo quarto e décimo quinto são nomeados ) a serpente real

           Na encruzilhada costuma observar

                    Votos sagrados : um malabarista o pegou.

           Liberte meu marido em consideração a mim !  

 

     Após estas palavras ela adicionou ainda estas outras duas estrofes, suplicando a libertação dele : 

 

               Vejam, dezesseis mil mulheres bonitas com joias e com anel,

               Debaixo das águas o contam como refúgio e como rei.

 

               Com justiça e com gentileza liberte-o,

               Compre a liberdade da Serpente,

                      Com ouro, cem vacas, uma cidade :

               Isto te fará ganhar mérito. 

 

   Então o rei recitou três estrofes : 

 

             Com justiça e com gentileza veja

             Compro a liberdade da Serpente

                  Com ouro, cem vacas, uma cidade

             Isto me fará ganhar mérito. 

 

          Te dou um brinco joia, cem dracmas de ouro

          Um amável trono qual flor do linho com almofadas quatro.

 

   Um touro, cem vacas, duas esposas de igual nascimento que o teu :

            Liberte a Serpente santa : o gesto será meritório. 

 

A isto o caçador respondeu :

 

         Não quero presentes, sua majestade,

         Mas deixe a Serpente agora ir livre.

                Assim agora liberto a Serpente :

       O gesto será meritório. 

 

Após esta fala ele tirou o Grande Ser  da cesta.  O Rei Serpente saiu e rastejou para dentro de  um arbusto onde ele largou sua forma e reapareceu na forma de um jovem homem magnificamente adornado : lá ele ficou, como se tivesse fendido a terra e saído de dentro dela.  E desce do céu Sumana e fica do lado dele. O Rei Serpente  ficou de mãos juntas reverenciando em respeito o rei. 

 

                               –-----------------------------------                

 

        Para tornar tudo claro, o Mestre recitou duas estrofes : 

 

     O Rei Serpente Campeyyaka dirigiu-se ao Rei, agora liberto : 

  ‘Ó Rei de Kasi, senhor acolhedor, toda a honra agora para ti !

A ti reverencio, antes de voltar para ver minha casa.

 

   Seres sobre-humanos podem

    Dificilmente ganhar crédito, dizem.

          Se falas a verdade, Ó Serpente,

  Onde é seu palácio ? Mostre o caminho.

 

                         –----------------------------                 

 

        Mas o Grande Ser para se fazer acreditado, jurou um juramento como segue nestas duas estrofes : 

 

                        Deve o vento mover alta montanha,

                       Sol e Lua cair do céu,

                               Fluir contracorrente os rios que correm

                    Eu, Ó Rei ! Nunca poderia mentir.  

 

                   Divida-se o céu, o mar seque,

                   A abundante mãe terra erre

                          A roda enrugada, desenraíze o monte Meru,

                 Ainda assim, Ó Rei, eu não poderia mentir !  

 

    Mesmo assim apesar desta afirmação, ele ainda não acreditava no Grande Ser e disse -

                            Seres sobrehumanos podem

                            Dificilmente ganhar crédito, dizem.

                            Se falas a verdade, Ó Serpente,

                          Onde é teu palácio ? Mostre o caminho.

 

 

      Novamente ele repetiu a mesma estrofe, adicionando, “Você deve estar agradecido pelas boas obras que obrei : se acho que você está certo ou não, contudo, isto eu decido.”  Isto ele tornou claro na próxima estrofe :

 

                       De veneno mortal, cheio de força,

                        Rápido na confusão , brilhante em luz,

                                   Foste libertado por mim da prisão :

                        Então gratidão é meu direito. 

 

     O Grande Ser fez um juramento assim, para ganhar o seu crédito :

 

                          Aquele que boa ação não retribui,

                          Felicidade nunca conhecerá : 

                                  Morrerá na prisão de cesta,

                          Ele em ínfero horrível arderá ! 

 

   Agora o rei acreditou nele e agradeceu assim : 

 

                        Como este voto teu é vero

                        Ira abandonada e raiva evitada :

                                Como fugimos do fogo no verão, 

                        Possam os pássaros-roc fugirem de ti !  

                  

O Grande Ser também por sua parte disse outra estrofe querendo agradecer o rei :

 

                 Qual mãe teria feito

                 A um amado filho único,

                     És gentil com todas as serpentes :

                 Te serviremos, todos nós, cada um. 

 

    Agora o rei estava ansioso para visitar o mundo das serpentes, deu ordem para que seu exército se aprontasse para partir com a seguinte estrofe : 

 

                 Atrelem os carros reais e aguardem

                 Mulas Cambodjanas às mãos,

                       Elefantes em arreios dourados :

                Visitaremos a terra das serpentes !  

 

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    A próxima estrofe é da Perfeita Sabedoria : 

 

                  Apertem os tamborins, toquem os tambores

              Concha e címbalo sons e zunidos

                    Glorioso no meio de uma hoste e mulheres

            Vejam Rei Uggasena vem. 

 

                          ______________________________       

 

         Naquele momento ele deixou a cidade, o Grande Ser através de seu poder tornou visível no mundo das serpentes os muros protetores feitos com as sete coisas preciosas, e as torres portões de entrada e toda a estrada de chegada no domicílio das serpentes ele fez que que se adornasse gloriosamente.  Por esta estrada o rei com seus seguidores entrou no palácio e viu o delicioso lugar com as mansões dentro.

 

                            ___________________________            

 

     Explicando isto, o Mestre disse : 

 

            O Senhor de Kasi viu o chão polvilhado com pó de ouro,

     Belas flores de coral cor espalham-se ao redor, torres douradas por todo lado.

 

        Então o Rei entrou nos divinos salões de Campeyya, 

        Que qual raio brônzeo ou Sol vermelho brilhavam. 

 

     Nos divinos salões de Campeyya o Rei fez sua entrada : 

    Milhares de perfumes no ar, milhares de árvores dando sombra. 

 

    Dentro do palácio de Campeyya certa vez o Rei andou,

    Harpas celestiais tocavam, belas donzelas serpentes dançavam. 

 

                       Lhe é apresentado um assento dourado

                       Estofado e com cheiro de sândalo

                              Onde um bando de belas donzelas

                        Caminhavam pelas salas em pés aglomerados. 

 

                         ____________________________                  

 

       Logo ele estava lá sentado colocaram diante dele comida divina de sabores escolhidos e deram também para as dezesseis mil mulheres e o resto da companhia. Por sete dias ele e sua comitiva partilharam da divina comida e bebida e gozaram todo tipo de prazer.  Sentado em seu belo assento ele louvou a glória do Grande Ser. “Ó Rei das serpentes”, ele disse, “por que largaste toda esta magnificência para deitar num cupinzeiro no mundo dos seres humanos e guardar os votos de dia de jejum ?” O outro lhe disse. 

 

                           ______________________             

 

       Para explicar isto o Mestre disse :

 

              Lá o Rei agraciado estava

              Para Campeyya então ele fala : 

              ‘Gloriosas mansões estas tuas ! 

               Vermelhas igual ao Sol elas brilham.

              Iguais na terra não se vê : 

              Por que você queria ser eremita  ? 

 

           Lindas e belas estas donzelas estão,

              Que com esguios dedos seguram

          Bebidas em ambas mãos pintadas de vermelho,

          Seios e corpo cingidos com ouro. 

          Tais na terra não se vê : 

           Por que querias tu ser eremita ?     

         

         Rio, lago de peixe, belos quais vidros,

         Cada um com bem construídas escadas de acesso,

         Tais na terra não se vê : 

          Por que querias tu ser eremita ? 

 

          Garça, Pavão, gansos celestiais,

         Encantos de cuco iguais a estes,

         Tais na terra não se vê : 

         Por que tu querias ser eremita ?

 

         Manga, salgueiro e tilak florescem,

         Cássia, Begônia crescem plenamente

         Tais na terra não se vê :

        Por que tu querias ser eremita ? 

 

       Vejam os lagos !  E soprando por cima

       Aromas divinos em cada praia :

       Tais na terra não se vê :

       Por que tu querias ser eremita ? 

 

       Não pela vida, por filhos, nem riqueza

       Luto comigo mesmo ; 

       É minha ambição, s’eu puder,

       Nascer novamente ser humano.  

 

                                    _______________________           

 

         A esta resposta o rei respondeu :  

 

                         Bravamente vestido, olhos vermelhos e turvos,

                        Ombros largos, cabeça e barba raspada

                               Como um anjo Rei direcionando-se a

                       Todo o mundo, de sândalo untado

                               

                        De grande poder, com força divina,

                        Senhor de todos os desejos, incline,

                                 Rei Serpente, resolva minha questão -

                        Como nosso mundo ultrapassa o teu ? 

 

   Isto foi respondido pelo Rei Serpente como segue : 

 

                      Vem controle e purificação quando

                      Alguém está no mundo dos seres humanos,

                                Somente lá : uma vez ser humano, nunca mais

                      Verei nem nascimento nem morte novamente. 

 

O rei escutou e então respondeu : 

 

                        Certamente é bom venerar o sábio 

                        Em quem profunda sabedoria e altos pensamentos surgem.

                        Quando vejo você e todas estas donzelas,

                        Farei obras boas de todo tipo. 

 

A ele o Rei Serpente disse : 

  

                      Certamente é bom venerar o sábio

                      Em quem profunda sabedoria e altos pensamentos surgem.

                      Quando a mim e todas estas donzelas você vê,

                      Então farás obras boas de todo tipo. 

 

  Após esta fala, Uggasena desejou partir e pediu licença dizendo, “Rei Serpente, já fiquei muito aqui devo partir.”  O Grande Ser apontou para seu tesouro e ofereceu a ele o que quer que quisesse pegar, dizendo isto,   

 

                    Renuncio a isto, ouro incontável,

                    Pilhas de prata do tamanho de árvores, veja ! 

                           Pegue e faça para você muralhas de prata,

                   Tome e faça casas de ouro. 

 

                  Pérolas, cinco mil carretos, eu acho,

                  Reluzindo coral no meio delas,

                          Pegue e espalhe-as no teu palácio

                  Até que nem terra nem poeira possam ser vistos. 

 

                Tal mansão como falo

                 Construa e lá, Ó monarca ! viva :

                          Rica será a cidade de Benares : 

                 Legisle-a sabiamente, legisle-a bem. 

 

    O rei concordou com esta sugestão. Então o Grande Ser enviou proclama pela cidade batendo o tambor : “Que todos os ajudantes do rei peguem o que quiserem  de riqueza, ouro e joias !”  E ele enviou o tesouro para o rei carregado em várias centenas de carretos. Após isto o rei deixou o mundo das serpentes com grande pompa e retornou para Benares. A partir daquele tempo, dizem, o chão era todo dourado por toda Índia. 

 

                                     ________________________              

 

              Este discurso terminado, o Mestre disse, “Assim sábios antigos deixaram as glórias do mundo das serpentes para manter os votos de dias de jejum.”  Então ele identificou o Jataka :  “ Naquele tempo, Devadatra era o encantador de serpente, a mãe de Rahula era Sumana, Sariputra era Uggasena e eu mesmo era Rei das Serpentes Campeyya.”