quarta-feira, 5 de junho de 2013

[ n. do tr.: Roma e Índia ]


[ Nota do tradutor : Roma e Índia : a unidade das tradições

Plutarco, Vida de Rômulo, paragr. XI
Deu Rômulo sepultura no sítio chamado Remuria [ depois Lemuria onde se lamentavam, penitenciavam ] a Remo e aos que lhe haviam criado [ Fáustulo e outros que também morreram na dissensão ] e seguiu com a fundação da cidade, fazendo vir da Etruria ou Tirrenia certos varões que com ritos e cerimônias distintos, faziam e ensinavam a fazer cada coisa a maneira de uma iniciação. Porque no que agora chamam Comicio se abriu uma cova circular e nela se jogaram primícias de todas as coisa que pela lei nos servem de proveito ou que por natureza usamos e necessitamos ; e da terra de onde veio, cada um colheu e trouxe um punhado e a jogou também ali, como para mesclá-las. Dão a esta cova o mesmo nome que ao céu, chamando-a 'mundo'.
Depois ( o quê são os outros ritos ) com um círculo descrevem desde seu centro a cidade e o fundador colocando no arado uma relha de bronze e unindo duas reses de boi, macho e fêmea, por si mesmo as leva e abre pelas linhas descritas um sulco profundo, ficando ao cuidado dos que o acompanham ir recolhendo para dentro os torrões que se levantam, sem deixar que nenhum salte para fora. Para a parte de fora desta linha fabricam um muro, devido ao qual por síncope, chamam pomerio, como promerio ou antes do muro. Onde querem que se faça uma porta, tiram a relha e levantando o arado, fazem uma pausa ; assim os romanos têm por sagrado todo o muro a exceção das portas porque se estas se reputassem sagradas, seria sacrilégio introduzir e tirar por elas muitas coisas sejam necessárias ou sujas.”

Os ritos e cerimônias distintos que os varões da Etruria / Tirrenia trouxeram” são os ritos védicos de fundação dos altares de fogo Garhapatya e Ahavaniya ; segue a descrição de suas construções em Satapatha Brahmana VII,1,1,8s e VII,2,2,9s respectivamente, como no texto de Plutarco acima :

Ele cobre todo o Garhapatya circular com terra, solo salgado, areia, pois o altar Garhapatya é o útero e o solo salino o âmnio ( membrana do útero ); cobre portanto todo o útero com âmnio. Joga-se assim terra para impedí-lo de estragar ... E novamente joga-se areia – areia não é outra coisa que semente de Agni que está sendo construído ... pois o altar Garhapatya é o útero e a terra semente : e se preenche todo o útero com semente ... é circular pois o útero é circular e além do mais o Garhapatya é este mundo terrestre e este mundo sem dúvida é circular.

Arou-se então – arar significando comida ... na direita ( sul ) do altar de fogo, arou-se um sulco para leste ... corretamente possa com sorte a relha do arado levantar o chão, com sorte os lavradores aplicam-se com seus bois ! ... 10 Então na parte de trás ( arou-se um sulco ) para o norte, “Com doce ghee o sulco seja saturado ... aprovado por Todos os deuses e os Maruts que têm poder sobre a chuva ; 'cheio de seiva e abundante leite', - leite significa seiva : assim 'abundante com seiva e comida' – 'com leite, ó sulco, volte tu em nossa direção !” ... 11 Então na esquerda( norte) ( arou-se um sulco ) para leste, “ A relha divisora do arado – isto é, o arado abundante em riqueza” - propício, oferecendo amostra para o copo de Soma – pois Soma é comida - “jogou para cima vaca, ovelha, a esposa gostosa, o vagão com rápidas rodas” , pois tudo isto o sulco produz, joga para cima. 12 Então na parte da frente ( arou um sulco ) sul ... “Ordenhe Ó vaca da abundância, os desejos de Mitra e Varuna, de Indra, dos Asvins, de Pushan, das criaturas e plantas ! Lavoura é ( benéfico ) para todas as deidades : portanto, “Ordenhe para todas estas deidades seus desejos !”

Georges Dumèzil assinalou esta identidade cultural oriente ocidente em 'Aedes rotunda vestae' in Rituels Indo-Européens à Rome, Paris, Klincksieck, 1954 na página 33 :

Aqui e lá, o fogo perpetual, o “fogo reservatório” destinado não a receber ofertas mas a materializar -se por uma lareira ( vestíbulo, é do fogo de Vesta que se fala, foyer ) a morada legítima de uma pessoa ou de um grupo de pessoas sobre um ponto de terra, requer um contorno redondo ; ao contrário o fogo sacrifical e em Roma o santuário onde o fogo era o móvel essencial, como nos 'templa' político-religiosos, quer dizer os lugares onde um comércio ativo e preciso deve se estabelecer entre os homens e os deuses, requer um contorno quadrangular,orientado leste oeste ; além do que no caso arcaico da urbs quadrata, este quadrado é traçado – fulcros, sulcos, abertos por um arado e uma trelagem – da mesma maneira que os da ahavaniya e com eles, em seu centro comporta uma embocadura mística colocando o visível em comunicação como o invisível.
Não creio que os etnógrafos tenham em algum lugar assinalado uma articulação análoga de estruturas antitéticas.”

Estas “estruturas antitéticas” seria a quadratura do círculo propriamente dita. O fogo do ritual saía do templo redondo de Vesta e dirigia-se aos outros templos para o ritual de cada um, dos diversos deuses. A cidade tem um centro e quatro cantos, quatro portas, distintas nos nomes dos deuses e que sim distinguem-se já pelas castas, ordens, classes, estados, tradicionais. O conjunto todo tem vida, respira, sendo os templos quadrados, olhos, ouvidos, cabeça e o redondo no centro útero com as sementes de todos da cidade templo unidos em Com- ( seja com-ício, con-sílio ou con-junto ). Em Satapatha Brahmana II, 2,18 é dito “Os fogos sacrificais certamente são estes sopros o ahavaniya e o garhapatya são o ex-pirar e o ins-pirar e o anvaharya pakana é o trans-pirar” ( este último é o transporte do centro ao templo ).

Os gestos com as mãos nas duas construções, na primeira atirando, jogando, sementes e terra e na segunda retirando, tirando, os torrões que saem para cima, a riqueza mesma, aproximam as duas culturas, romana e indiana com uma origem indoeuropeia comum. A transmissão da Tradição através de imagens parece existir desde sempre uma vez que se repete em Plutarco. Obviamente estes fogos são estabelecidos espiritualmente dentro do mais íntimo d'alma. ]

       

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