sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

441 ( 545 ) Purnaka e Irandati


Purnaka e Irandati pintados em Ajanta, cave II ; o balanço não aparece no texto mas é provável. Irandati sae do balanço e conversa com Puranaka que tem seu cavalo máyaco ao lado. a assembléia que vemos apenas parte na direita é a conversa do pai com a filha pedindo a ela que o ajude e a própria mãe. A imagem na caverna é a cores e tem mais de mil anos. Clique na imagem para vê-la ampliada.


441 ( 545 )

Pálida, magra e fraca...etc.” - O Mestre contou este conto enquanto residia em Jetavana, relativo à Perfeição da Sabedoria. Um dia os Irmãos levantaram uma discussão no Salão da Verdade, dizendo, “Senhores, o Mestre tem sabedoria grande e larga, ele é de pensamento rápido e espontâneo, arguto, esperto e capaz de esmagar os argumentos de seus oponentes ; pelo poder de sua sabedoria ele derrubou as questões sutis propostas pelos sábios Kshatrias e os reduziu ao silêncio e tendo-os estabelecidos nos três Refúgios e nos preceitos morais, os fez entrar no caminho que leva à imortalidade.” O Mestre veio e perguntou qual era o tópico que os Irmãos estavam debatendo sentados ali juntos ; e entendendo qual era ele disse, “Não é nenhuma maravilha Irmãos, que o Tathagata, tendo atingido a Perfeição da Sabedoria, derrube os argumentos de seus oponentes e converta Kshatrias e outros. Pois em idades anteriores, quando ele ainda buscava o conhecimento supremo, ele foi sábio e hábil em esmagar os argumentos de seus oponentes. Sim verdadeiramente no tempo de Vidhura kumara, no cume da Montanha Negra que tem sessenta léguas de altura, pela força da minha sabedoria converti o general Yaksha, Purnaka, e o reduzi ao silêncioe o fiz oferecer a própria vida como um dom, oferta” ; e assim falando ele contou uma história do passado.


__________________


1.


Certa vez no reino Kuru na cidade de Indrapatra um rei legislava chamado Dhanañjaya-korabba. Ele tinha um ministro chamado Vidhura pandita ( sendo pandita título de sábio letrado ) que lhe dava instruções em matéria temporal e espiritual ; e tendo fala doce e grande eloquência na discussão da lei, encantou, fascinou, todos os reis do Jambudwipa ( deste mundo, com um pé de Jambo no centro qual árvore do bem e do mal no centro do pardes ocidental ) com seus doces discursos relativos à lei como elefantes fascinados por um violão bem tocado, nem permitiu que eles partissem para seus países mas moraram lá, nesta cidade, em grande glória, ensinando a lei ao povo com todo o poder de Buddha. Bem, haviam quatro donos de casa Brahmin em Benares, amigos, que, tendo visto a miséria dos desejos, foram para o Himalaia e abraçaram a vida ascética, e tendo entrado nas faculdades transcendentais e nas meditações místicas , continuaram a residir por um longo tempo lá, alimentando-se na floresta de raízes e frutos e então quando saíram em suas rondas à procura de sal e vinagre, chegaram mendicantes na cidade de Kalacampa no reino de Anga. Lá quatro donos de casa que eram amigos, agraciados com a postura deles, prestram respeito e tomaram suas tigelas de oferta, servindo-os com comida fina cada um em sua própria casa e de promessa, ex voto, arranjaram as casas deles em seus jardins. Assim os quatro ascetas tendo tomado comida na casa dos quatro donos de casa, saíram para passar o dia, um indo para o céu dos Trinta e Três, outro para o mundo dos Nagas, outro para o mundo dos Suparnas e o quarto para o parque Migacira de propriedade do rei Koravya. Bem, aquele que passou o dia no mundo dos deuses, depois de contemplar a glória de Sakra, descreveu-a inteiramente a seus atendentes, e e do mesmo modo o fizeram aqueles que passaram o dia no mundo Naga e Suparna e do mesmo modo aquele que passou o dia no parque do rei Koravya, Dhanañjaya ; cada um descreveu inteiramente a glória daquele respectivo rei ( n. do tr. : são os quatro reis que como os quatro elementos estendem-se em quatro direções, tendências. Suparna seria dos pássaros e Naga dos répteis, peixes. Miga dos mamíferos. E os dos deuses, os humanos. Há semelhança com os quarto evangelistas como quatro animais e com o carro de Ezequiel na Bíblia ). Então estes quatro atendentes desejaram estes domicílios celestes e tendo feito ofertas e outras obras de mérito, no final de suas vidas, um nasceu Sakra, outro nasceu com esposa e filho no mundo Naga, outro rei Suparna no palácio do lago Simbali e o quarto foi concebido pela rainha principal do rei Dhanañjaya ; enquanto os quatro ascetas nasceram no mundo de Brahma. O príncipe Koravya cresceu, e com a morte de seu pai assumiu seu reino e legislou com retidão mas ele era famoso por sua habilidade nos dados. Ele escutava as instruções de Vidhura pandita e fazia ofertas e guardava a lei moral e observava os jejuns. Um dia quando estava de jejum, foi para o jardim, determinado a praticar meditações piedosas, e, tendo sentado em um lugar agradável, realizava os deveres de um asceta. Sakra também, tendo se comprometido com um jejum, descobriu que haviam obstáculos no mundo dos deuses, e então foi para aquele mesmo jardim no mundo dos seres humanos e, tendo sentado em um lugar agradável , realizava os deveres de um asceta. Varuna também, o rei Naga, tendo se comprometido em guardar jejum, descobriu que haviam obstáculos no mundo Naga, e então foi para mesmo jardim, e, tendo sentado em um lugar agradável, realizava os deveres de um asceta. O rei Suparna também, comprometendo-se em guardar jejum, descobriu que haviam obstáculos no mundo Suparna, e então foi para aquele mesmo jardim, e, sentando-se em um lugar agradável, realizava os deveres de um asceta. Então estes quatro, se levantaram de seus lugares à tardinha, e enquanto estavam às margens do lago real, reuniram-se e olharam um para o outro, e, repletos com a antiga gentil afeição deles, despertaram a anterior amizade e sentaram em com saudações prazerosas. Sakra sentou em um assento real e os outros sentaram como cabia à dignidade de cada um. Então Sakra disse a eles, “Somos todos quatro reis – bem qual a virtude preeminente de cada ?” Então Varuna o rei Naga respondeu, “Minha virtude é superior às de vocês três,” e quando eles inquiriram por quê, ele disse, “Este Suparna rei é nosso inimigo, seja antes ou depois que nascemos, e ainda assim quando vejo este inimigo destruidor de nossa raça nunca sinto qualquer raiva ; portanto minha virtude é superior” ; e ele então pronunciou a primeira estrofe do Jataka Punarka :


O bom homem que não sente nenhuma raiva de alguém que merece ódio e que nunca deixa raiva surgir dentro de si, ele, que mesmo irado não permite que ela seja vista, - a ele realmente podem chamar de asceta.


Estas são minhas qualidades ; portanto minha virtude é superior.”

O rei Suparna, escutando isto, disse, “Este Naga é meu alimento principal ; mas desde que, mesmo vendo tal comida às mãos, suporto minha fome e não cometo mal para me alimentar, minha virtude é superior,” e ele pronunciou esta estrofe :


Aquele que suporta a fome mesmo com a barriga doendo, um eremita com auto controle que come e bebe pela regra e não comete mal para alimentar-se, - a ele chama-se um asceta.


Então Sakra o rei dos deuses disse, “Deixei para trás, vários tipos de glórias celestes, todas fontes imediatas de felicidade e vim para o mundo dos seres humanos de modo a manter minha virtude, - portanto minha virtude é superior” ; e ele pronunciou esta estrofe :


Tendo abandonado todo esporte e prazer, ele não fala palavras falsas no mundo, ele é avesso a toda pompa exterior e desejo carnal, - tal homem podem realmente chamar de asceta.


Assim pois Sakra descreveu sua própria virtude.

Então Rei Dhanañjaya disse, “Eu ho-je abandonei minha corte e meu harém de dezesseis mil garotas dançarinas e pratico deveres de asceta num jardim ; portanto minha virtude é superior” ; e ele adicionou esta estrofe :


Aquele que com entendimento pleno abandona tudo quê se chama próprio e todas as obras da luxúria, ele que tem auto controle, resolução, altruísmo, e é livre de desejo, - a ele realmente chama-se asceta.


Assim eles declararam cada um sua própria virtude como superior e perguntaram a Dhanañjaya, “Ó rei, há algum homem sábio em tua corte que possa resolver esta dúvida ?” “Sim, Ó reis, tenho Vidura pandita, que tem um cargo de responsabilidade única e declara a lei civil e eclesiástica, ele resolverá nossa dúvida, vamos até ele.” Eles imediatamente consentiram. Eles então saíram do jardim e foram para o salão das assembleias religiosas, e, tendo ordenado que fosse ornamentada, colocaram o Bodhisatva sentado em um alto assento, e, saudando-o com uma saudação amigável, sentaram mais embaixo ao seu lado e disseram, “Ó sábio senhor ! Uma dúvida surgiu em nossas mentes, resolve-a para nós :


Perguntamos a ti ministro de elevada sabedoria : uma disputa surgiu em nossos pronunciamentos – considere e resolva nossa perplexidade ho-je, que através de ti ho-je possamos escapar de nossa dúvida.


O sábio, tendo escutado as palavras deles, respondeu, “Ó reis, como saberei o que dissestes bem ou mal relativo a vossa virtude, quando falastes as estrofes na sua disputa ?” e adicionou esta estrofe :


As pessoas sábias que conhecem o real estado das coisas e que falam sabiamente no momento adequado, - como elas, apesar de sábias, configuram o sentido de versos que não foram ditos a elas ? Como o rei Naga falou, como Garula, o filho de Vinata ? E o quê disse o rei dos Gandharvas ? Ou como falou o muito nobre rei dos Kurus ?


( Garula aparece nomeado no lugar de Suparna e Gandharva no dos deuses ). Então eles falaram esta estrofe a ele :


O rei Naga pregou paciência, Garula o filho de Vinata gentileza, o rei dos Gandharvas abstinência de luxúria carnal e o muito nobre rei dos Kurus liberdade de todos os impedimentos à perfeição religiosa.


Assim o Grande Ser, tendo escutado estas palavras, pronunciou esta estrofe :


Todos estes ditos são bem falados, - nada há de incorreto ; e aquele em quem estes cabem adequadamente como os raios no cubo de uma roda, - ele, que está dotado destas quatro virtudes, é chamado asceta realmente.


Assim o Grande Ser declarou a virtude de cada um deles como a mesma e uma única. Então os quatro, escutando-o, ficaram agraciados e falaram esta estrofe em louvor :

Você é o cara, és incomparável, és sábio, um guardião e conhecedor das leis : tendo apreendido o problema com tua sabedoria, cortaste as dúvidas com tua habilidade como um trabalhor de marfim o faz com sua serra.


Todos os quatro então ficaram felizes com a explicação dele para a questão. Sakra o recompensou com uma roupa de seda celeste, Garula com uma guirlanda dourada, Varuna o rei Naga com uma jóia e Rei Dhanañjaya com mil vacas etc ; Dhanañjaya dirigiu a ele esta estrofe :


Dou a mil vacas e um touro e um elefante e e estas dez carruagens puxadas por corcéis puro-sangue, e dezesseis cidades excelentes, estando agraciado com tua solução da questão.


Então Sakra e o resto, tendo prestado toda a honra ao Grande Ser, partiram para seus próprios domicílios. Aqui termina a secção do jejum quádruplo.


2.


Bem, a rainha do rei Naga era a senhora Vimala ; e quando ela viu que não havia

a jóia ornamental no pescoço do marido, ela perguntou a ele onde ela estava. Ele respondeu, “Fiquei agradecido em escutar o discurso moral de Vidhura pandita filho do Brahmin Canda que presenteei a jóia a elee não apenas recebeu sito mas Sakra o honrou com uma roupa de seda celeste, o rei Suparna deu uma guirlanda dourada e Rei Dhanañjaya mil vacas e muitas outras coisas além.” “Ele é, suponho, eloquente na lei.” “Senhora, do que estais falando ? É como se Buddha aparecesse no Jambudwipa ! Cem reis de toda a Jambudwipa, tendo sido pegos por seu discurso melífluo, não retornaram para seus reinos mas permaneceram como elefantes fascinados pelo som de violão bem tocado, - tal é o caráter da eloquência dele !” Quando ela escutou o relato da preeminência dele, ela desejou escutar seu discurso sobre a lei, e pensou consigo mesma , “S'eu falar ao rei que desejo escutá-lo discursando sobre a lei e pedir para trazê-lo aqui, ele não o trará para mim ; e s'eu fingir que estou doente e disser que tenho um desejo ?” Ela então fez um sinal para sua empregada e foi para a cama. Quando o rei não a viu ao visitá-la, perguntou as empregadas onde Vimala estava. Eles responderam que ela estava doente, e quando ele foi vê-laele sentou na beira da cama e fez carinho nela e falou a estrofe :


Pálida, magra e fraca, - tua cor e aparência não eram assim antes, - Ó Vimala, responda minha pergunta, que dor é esta no teu corpo que te assola ?


Ela diz em seguida :


Há uma afeição nas mulheres ; chama desejo, Ó rei ; Ó monarca dos Nagas, desejo que o coração de Vidhura seja trazido aqui, sem engano.


Ele respondeu a ela :


Desejes a lua ou o sol ou o vento ; o olhar mesmo de Vidhura é difícil de conseguir : quem será capaz de trazê-lo aqui ?


Quando ela escutou tais palavras, exclamou, “Morrerei se não conseguir isto,” e assim virou para o lado na cama e mostrou as costas e cobriu a face com a ponta da roupa. O rei Naga foi para seu próprio quarto e sentou em sua cama e ponderou qual inclinada estava Vimala em obter o coração de Vidhura ; “Ela morrerá se não obtiver a carne de seu coração ; como posso conseguir isto para ela ?” Bem, sua filha Irandati, uma princesa Naga, chegou com toda sua beleza e ornamento para prestar respeito a seu pai, e, tendo-o saudado, permaneceu em um lado. Ela percebeu que a aparência dele estava estressada e disse, “Você está com um grande problema – qual a razão ?”


Ó pai, por quê estais cheio de preocupação, por quê a tua face está como um lótus colhido com a mão ? Por quê estais acabrunhado, Ó rei ? Não lamentes, Ó conquistador dos teus inimigos.


Escutando as palavras de sua filha, o rei Naga respondeu :


Tua mãe, Ó Irandati, deseja o coração de Vidhura ; conseguir olhar Vidhura já é difícil, - quem será capaz de trazê-lo aqui ?


Então ele disse a ela, “Filha, não há ninguém em minha corte que possa trazer Vidhura aqui ; dê vida a tua mãe e procure algum marido que possa trazer Vidhura.”

Assim ele a enviou com meia-estrofe, sugerindo pensamentos impróprios a sua filha :


Busque um marido, que traga Vidhura aqui.


E quando ela escutou as palavras de seu pai, ela saiu na noite e deu livre curso ao desejo apaixonado.


E enquanto ela ia, colhendo todas as flores do Himalaia, que tinham cores, cheiro ou gosto, e tendo adornado toda a montanha qual jóia preciosa, estendeu uma cama de flores nela e executando dança agradável cantava doce canção :


Qual gandharva, ou demônio, que Naga, kimpurasa ou pessoa, ou que sábio, capaz de conceder todos os desejos, será meu esposo na longa noite ?


( kimpurasa, significa, 'será gente ?' sendo uma mistura de bicho com humano )


Bem, naquela hora o sobrinho do grande rei Vessavana ( Kuvera ) chamado Purnaka, general Yaksha, enquanto cavalgava um cavalo Sindh mágico, três léguas de extensão e apressava-se na superfície vermelha na Montanha Negra para um encontro de Yakshas, escutou aquela canção dela e a voz da mulher que ele escutara na sua última vida passada atravessou sua pele e nervos e penetrou em seus ossos ; e, estando fascinado por ela, ele voltou, sentado como estava no cavalo Sindh e dirigiu-se a ela, para confortá-la, “Ó senhora, posso trazer para ti o coração de Vidhura com meu conhecimento, santidade e calma, - não fique ansiosa com isto.” e ele adicionou este verso :


Fique à vontade, serei teu amrido, serei teu marido, ó tu de olhos sem defeito : verdadeiramente meu conhecimento é tanto, esteja á vontade, serás minha esposa.


Então Irandati respondeu, com seus pensamentos seguindo a velha experiência de cortejar em uma vida passada, “Venha vamos no meu pai, ele explicará o assunto para ti.”


Adornada, vestida com trajes brilhantes, usando guirlandas e ungida com sândalo, ela pegou o Yaksha pela mão e foi até a presença de seu pai. E Purnaka, indo atrás, foi até seu pai o rei Naga e pediu ela em casamento :


Ó chefe Naga, escute minhas palavras, receba um presente adequado por tua filha ; peço Irandati : dê-ma para mim. Cem elefantes, cem cavalos, cem mulas e carruagens, cem cargueiros completos cheios com todo tipo de gemas, - pegue tudo isto, Ó rei Naga e me dê tua filha Irandati.


O rei Naga respondeu :


Espere até eu consultar meus parentes, meus amigos e próximos ; um negócio feito sem consulta leva depois a arrependimento.


Então o rei Naga entrando no seu palácio, falou estas palavras enquanto consultava sua esposa, “Este Purnaka, o Yaksha me pede Irandati ; devemos dá-la a ele em troca de muita riqueza ?”


Vimala respondeu :


Nossa Irandati não é para ser ganha em troca de riqueza ou tesouro ; se ele obter com seu próprio valor e me trouxer aqui o coração do sábio, a princesa será dada em troca de tal riqueza, - não pedimos tesouro outro.


Então o Naga Varuna saiu de seu palácio e falando com Purnaka disse para ele :


Nossa Irandati não é para ser ganha em troca de riqueza ou tesouro ; se ele obter com seu próprio valor e me trouxer aqui o coração do sábio, a princesa será dada em troca de tal riqueza, - não pedimos tesouro outro.


Purnaka respondeu :


Aquele que alguns chamam um sábio, outros chamariam um tolo ; me diga, pois falam opiniões diversas sobre o assunto, quem é aquele que tu chamas um sábio, Ó Naga ?


O rei Naga respondeu :


Se tu escutaste falar de Vidhura o ministro do rei Koravya Dhanañjaya, traga-me este sábio aqui e que Irandati seja tua fiel esposa.


Escutando estas palavras de Varuna, o Yaksha saltou altamente contente ; justo como estava, ele disse imediatamente para seu empregado, “Traga-me o puro sangue arreado.”

Com brincos dourados, cascos de rubi e armadura de ouro fundido.

O empregado trouxe o cavalo Sindh assim ajaezado ; e Purnaka, tendo montado nele, foi pelos céus até Vessavana ( Kuvera ) e contou a ele a aventura, assim descrevendo o mundo Naga ; como segue :


Purnaka, tendo montado em seu cavalo, cavalo de batalha adequado aos deuses, ele também ricamente adornado e com barba e cabelo aparados, foi pelos céus.

Purnaka, cobiçoso de paixão do desejo, ansiando em ganhar a donzela Naga Irandati, tendo ido até o glorioso rei, dirigiu-se assim a Vessavana Kuvera :

' Há o palácio Bhogavati chamado Casa Dourada, a capital do reino serpente ereta em sua cidade dourada.

Torres de vigia que mimetizam lábios e pescoços, com rubis e olhos de gato enjoialhados, palácios construídos em mármores e ricos em ouro, cobertos com jóias encrustadas em ouro.

Mangas, árvores tilaka ( tipo de gergelim ), jambo, sattapannas, mucalindas e ketakas, piyakas, uddalakas e sahas e sinduvaritas com abundância de floração,

Champacas, nagalamikas, bhaginimalas e árvores de jujuba, - todas estas árvores diferentes curvadas com seus galhos, emprestavam beleza ao palácio Naga.

Há uma palmeira de castanha grande ornada de pedras preciosas com flores douradas que não fenecem e lá mora o rei Naga Varuna, dotado de poderes máyacos e nascido de nascimento sobrenatural.

Lá mora sua rainha Vimala com um corpo qual trepadeira dourada, alta como uma planta kala jovem, bonita de ver com os seios como frutas nimba.

De pele bela e pintada com tinta laca, qual árvore kanikara em flor em um lugar protegido, como ninfa habitante do mundo deva, qual relâmpago de luz em nuvem grossa.

Extraviada e cheia de desejos estranhos, ela quer o coração de Vidhura. Darei-o a eles, Ó rei, - eles me darão em troca Irandati.'


Como não ousava partir sem a permissão de Vessavana, ele repetiu estas estrofes para informá-lo sobre. Mas Vessavana não o escutava, pois estava atarefado na disputa sobre um palácio entre dois filhos dos deuses. Puranaka, sabendo que as palavras não eram ouvidas, permaneceu próximo daquele que se mostrou vitorioso na disputa. Vessavana, tendo decidido a querela, nem pensou no derrotado mas disse ao outro, “Vais tu e mores no teu palácio.” Diretamente as palavras ditas “Vais tu”, Purnaka chamou alguns filhos dos deuses de testemunha e disse, “Vocês vêem que sou enviado por meu tio,” e imediatamente ordenou que trouxessem o corcel e montou nele e partiu.

O Professor assim descreve o que aconteceu :


Purnaka, tendo se despedido de Vessavana Kuvera o glorioso senhor dos seres, deu ordem para o empregado que estava lá, “Traga-me o puro sangue arreado.” Com brincos dourados, cascos de rubi e armadura de ouro fundido.

Purnaka, tendo montado no corcel transportador dos deuses, adornado e com a barba e cabelo arrumados, foi pelo espaço atravessando os céus.


Enquanto ia pelos ares ele poderava, “Vidhura pandita tem um grande séquito e não pode ser tomado pela força mas Dhanañjaya Koravya é conhecido por sua habilidade nos dados. Foi ganhar dele no jogo e pegar Vidhura pandita. Bem, existem muitas jóias em sua casa : ele não jogará por quantia pouca ; devo levar uma jóia de grande valor, o rei não aceitará uma jóia comum. Bem, há uma jóia preciosa em valor que pertence ao monarca universal, na Montanha Vepulla próximo à cidade de Rajagaha ; pegarei-a e seduzirei o rei para jogar e assim ganhar dele.” E ele fez isto.

O Professor declarou toda a história :


Ele foi à agradável Rajagaha, à distante cidade de Anga, rica em provisões e de abundante comida e bebida. Como Masakkasara, a capital de Indra, cheia com os sons de pavões e siriemas, ressoante, com muitos belos pátios e com toda espécie de pássaros qual a montanha Himavat coberta de flores. Então Purnaka subiu Monte Vepulla, com seus cumes rochosos habitados por kimpurusas ( metade gente metade bicho ), buscando a jóia gloriosa e por fim ele a viu no meio da montanha.

Quando ele viu a preciosa gema gloriosa daquele modo emitindo luz, brilhando tão esplendidamente em sua beleza, iluminando como raio do céu, - ele logo apanhou a preciosa lapis lazuli, a jóia de valor incalculável e montado em seu corcel inigualável, ele mesmo de nobre beleza, correu pelo espaço através dos céus.

Ele foi para a cidade de Indrapatra e pousou na corte dos Kurus ; o Yaksha destemido chamou cem soldados que estavam lá reunidos.

'Quem deseja ganhar um prêmio de reis ? ou quem quer ganhar numa disputa de valor ? Que jóia de valor incalculável vamos disputar ? Ou quem ganhará nosso grande tesouro ?'


Assim em quatro linhas ele louvava Koravya. Então o rei pensou consigo mesmo, “Nunca vi um herói como este que falasse tais palavras ; quem deve ser ?” e perguntou a ele com esta estrofe :


Em que reino tu nascestes ? Estas não são palavras de um Koravya : tu ultrapassas todos nós em tua postura e aparência ; me diga teu nome e parentela.


O outro refletiu, “Este rei me pergunta meu nome : que é servo Purnaka ; ,mas s'eu disser isto a ele, que sou Purnaka, ele dirá, 'Ele é um servo, por quê fala comigo com tanta audácia ?' e me desprezará ; direi a ele meu nome na última vida passada.” E assim falou uma estrofe :


Sou um jovem chamado Kaccayana, Ó rei ; não me consideram com nome desprezível ; minha parentela e amigos são de Anga ; vim aqui com o intuito de jogar.


O rei perguntou a ele, “O quê darás se perderes no jogo ? O que trouxestes ?” e falou esta estrofe :


Que jóia tem o jovem, que o jogador que o vença pode ganhar ? Um rei tem muitas jóias, - como pode tu, um pobre homem, me desafiar então ?


Purnaka responeu :


Esta é uma jóia fascinante, é uma jóia gloriosa que traz riqueza ; e o jogador que me vencer ganhará este corcel sem igual que assola todos os inimigos.


Quando o rei escutou-o, respondeu :


Que fará uma jóia, Ó jovem ? E que vale um puro sangue ? Muitas jóias preciosas pertencem a um rei, e muitos corcéis inigualáveis rápidos como o vento.


( continua no jataka 545 a partir daqui Purnaka fala do cavalo e da jóia, vence o jogo e leva Vidhura ao mundo Naga ).

domingo, 12 de fevereiro de 2012

440 Buddha sorri

440

Veja aquele homem lá longe...etc.” - Esta história o Mestre contou em Kapilavasthu no Parque Banyan, sobre sorrir.

Naquele tempo dizem que o Mestre, vagando à pé com seu bando de Irmãos no Parque Banyan à noitinha, em um certo lugar deu um sorriso. Disse o Ancião Ananda, “Qual será a causa, qual será a razão, para que o Abençoado sorria ? Não sem causa os Tathagatas sorriem. Perguntarei a ele então.” Então com um gesto de obediência ele perguntou sobre este sorriso. O Mestre disse, “Em dias idos, Ānanda, havia um certo sábio, chamado Kanha, que neste mesmo lugar, nesta terra, vivia meditativo, na delícia da meditação ; e pelo poder de sua virtude o domicílio de Sakra foi sacudido.” Mas como esta fala sobre o sorrir não estava clara, com o pedido do Ancião ele contou esta história do passado.


_________________________


Certa vez quando Brahmadatra reinava em Benares, havia um certo Brahmin sem filhos, que possuindo uma fortuna de oitocentos milhões, tomou para si os votos da virtude e rezava por um filho ; no útero da esposa deste brahmin foi concebido o Bodhisatva e devido a sua cor negra deram a ele no dia de seu batismo o nome de Kanha kumara, jovem Negro. Ele, na idade de dezesseis anos, estando cheio de de esplendor, parecendo uma imagem feita em pedra preciosa, foi enviado por seu pai para Takkasila ( Taxila ) onde ele aprendeu todas as artes liberais e depois retornou. Então seu pai providenciou para ele uma esposa adequada. E logo logo ele partilhou de todas as propriedades dos pais.

Bem, um dia, após inspecionar as casas dos tesouros, enquanto estava sentado em seu belo sofá, pegou em sua mão um prato de ouro e lendo no prato dourado estas linhas escritas pelos seus parentes de dias antigos, “Tanto da propriedade ganha por fulano, tanto por sicrano,” pensou consigo, “Aqueles que ganharam esta riqueza não são mais vistos mas a riqueza ainda é vista ; nenhum delespodem usá-la no lugar para onde foram ; não podemos amarrar nossa riqueza numa trouxa e levá-la conosco para o outro mundo. Vendo que ela está conectada com os Cinco Pecados, distribuir em ofertas esta vã riqueza é o melhor a ser feito ; vendo que este corpo vão está conectado com muita doença, mostrar honra e gentileza ao virtuoso é o melhor a ser feito ; vendo que esta vida é transitória e vazia é passageira, lutar por insight espiritual é o quê deve ser feito. Portanto estes tesouros vãos vou distribuir em ofertas, e fazendo isto ganho a melhor parte.” Então ele levantou-se do assento e tendo pedido o consentimento do rei, fez ofertas bondosamente.

No sétimo dia não vendo diminuição na riqueza ele pensou, “O quê é riqueza para mim ? Apesar de ainda não ter a sabedoria da velhice, agora mesmo farei os votos de asceta, cultivarei as Faculdades e as Consecuções, e me tornarei destinado ao céu de Brahma !” Assim ele fez com que fossem abertas todas as portas da sua residência e disse que se podia levar tudo de graça ; e rejeitando tudo como coisa impura, ele abandonou todos os desejos dos olhos e no meio de lamentos e lágrimas de uma grande multidão, saiu da cidade e foi para a região do Himalaia. Lá ele abraçou a vida solitária ; e buscando um lugar agradável para residir, encontrou um e lá resolveu morar ; e escolhendo uma árvore corcubitácea ( da espécie da cabaça e da abóbora ) como lugar para se alimentar, lá morou e viveu nas raízes desta árvore ; nunca se alojando dentro da vila, tornou-se um habitante das florestas, à céu aberto sentado sempre, ou se ele desejasse deitar, deitando no chão, sem pilão, apenas os dentes para triturar a comida, comendo apenas coisas cruas sem cozinhar no fogo, comendo apenas uma vez ao dia e sentado. No chão, como se fosse um com os quatro elementos, ele viveu, tomou sobre si as virtudes ascéticas ( viver só, debaixo d'árvore, dormir sentado etc. ). Neste Jataka o Bodhisatva, como vemos, tinha muito poucas vontades.

Assim em pouco tempo ele atingiu as Faculdades e as Consecuções evivia naquele lugar em ênstase de meditação enstática. Em busca de frutos selvagens não precisava andar muito ; quando o fruto crescia n'árvore, ele comia o fruto ; no tempo das flores, comia flores ; quando as folhas cresciam ele comia as folhas ; quando nem folhas havia comia a casca d'árvore. Assim no mais alto contentamento viveu um longo tempo neste lugar. Como de manhã ele costumava catar asfrutas daquela árvore, nenhuma vez cobiçou levantar-se e catar fruta em outro lugar. No lugar onde sentava, ele esticava a mão e catava toda a fruta que estava ao alcance das mãos ; estas ele comia sem distinção entre boa e ruim. Como ele continuava com prazer assim , pelo poder de sua virtude o trono de pedra amarela de Sakra começou a esquentar. ( este trono, dizem, aquece-se quando a vida de Sakra dirige-se para o fim ou quando seu mérito está gasto e terminado ou quando algum Ser poderoso prega, ou através da eficácia da virtude de sacerdotes e brahmins cheios de potência. ).

Então Sakra pensou, “Quem é que vai me desalojar agora ?” Verificando ao redor, ele viu, vivendo na floresta, em uma certo lugar, o sábio Kanha, catando frutos e soube que ele era o sábio de temerosa austeridade, dominando todos os sentidos ; “Vou até ele,” pensou, “Farei que ele proclame a Lei ( o Dharma ) em tons de trompete e tendo escutado a pregação que dá paz, vou satisfazê-lo com um dom e fazer sua árvore dar frutos sem cessar e então retornarei para cá.” Então com seu super poder desceu rapidamente e permanecendo em pé junto da raiz d'árvore atrás do sábio, ele disse, para testar se o sábio ficaria irado ao mencionar sua feiúra, a primeira estrofe :


Veja aquele homem, todo preto na aparência, que vive neste lugar preto,

Preta é a comida que ele come – meu espírito não gosta dele !


O moreno Kanha o escutou. “Quem é que fala comigo ?” - através do seu insight divino ele percebeu que era sakra ; e sem virar, respondeu com a segunda estrofe :


Apesar de preto na aparência, um brahmin verdadeiro de coração, Ó Sakra, vês :

Não pela pele mas se ela peca, então deve ser preta uma pessoa.


E então, depois disto, tendo explicado seus diversos tipos e culpado os pecados que tornam uma pessoa preta e louvado a bondade das virtudes, ele discursou para Sakra e foi como se fizesse a lua elevar-se no céu. Sakra ao escutar o discurso, encantado e deliciado, ofereceu um dom ao Grande Ser e repetiu a terceira estrofe :


Bem falado, brahmin, nobremente colocado e excelentemente dito :

Escolha o que queres – como pede teu coração, assim seja tua escolha.


Escutando isto o Grande Ser pensou consigo mesmo. “Sei como deve ser. Ele deseja me testar e ver se fico irado com a menção da minha feiúra ; contudo apesar dele abusar da minha cor de pele, da minha comida e da minha moradia ; percebendo que não fiquei irado, ficou feliz, e me oferece um dom ; sem dúvida ele pensa que pratico este modo de vida por desejo de poder de Sakra ou de Brahma ; e agora, para dar razão a ele, devo escolher estes quatro dons : que eu possa ser calmo, que eu possa dentro de mim não ter ódio ou malícia contra meu vizinho e que eu possa não ter cobiça pela glória ou luxúria do vizinho.” Assim ponderando, para resolver a dúvida de Sakra, o sábio pronunciou a quarta estrofe, clamando estes quatro dons :


Sakra, o senhor de todo o mundo, uma escolha de bençãos ofereceu.

Livramento eu teria de malícia, ódio, cobiça,

E livre de toda luxúria também : estas bençãos anelo.


Com isto pensou Sakra : “O sábio Kanha, escolhendo seu dom, escolheu quatro bençãos sem culpas. Agora perguntarei a ele o quê é bom ou mal nestas quatro coisas.” E ele perguntou a questão repetindo a quinta estrofe :


Na luxúria, no ódio, na cobiça, na malícia, diga brahmin

Que males vês ? Me responda isto, prego.


Escute então,” respondeu o Grande Ser e pronunciou quatro estrofes :


Porque ódio, alimentado por má-vontade, sempre aumenta de pouco para muito,

Ficando cheio de amargor, daí não quero ódio.


É sempre assim com as pessoas más : primeiro fala, depois toque nós vemos,

Em seguida punho, então porrete e por último golpe de espada cintilando livre :

Onde malícia está, lá segue o ódio – nenhuma malícia então para mim.


Quando as pessoas fazem a velocidade incitar ganância, fraude e engano surgem,

E a perseguição rápida de um botim selvagem – portanto, sem cobiça.


Firmes são os grilhões amarrados pela luxúria, que desenvolve abundantemente

Dentro do coração, doendo pugentemente – nenhuma lúxuria então para mim.


Sakra, suas questões assim resolvidas, respondeu, “Sábio Kanha, por você foram resolvidas docemente minhas questões, com habilidade de Buddha ; bem satisfeito contigo estou ; agora escolha outro dom” : e repetiu a décima estrofe :


Bem falado, brahmin, nobremente colocado e excelentemente dito :

Escolha o que queres – como pede teu coração, assim deixe tua escolha ser feita.

Instantaneamente o Bodhisatva repetiu uma estrofe :


Ó Sakra, senhor de todo o mundo, um dom tu me apregoa.

Onde na floresta sempre morei, onde completamente só resido,

Me dê que nenhuma doença prejudique minha paz ou quebre meu ênstase.


Escutando isto, pensou Sakra, “Sábio Kanha, escolhendo um dom, não escolhestes nada relacionado à comida ; tudo que ele escolheu está relacionado à vida ascética.” Deliciado sempre mais e mais, ele adicionou ainda outro dom e recitou outra estrofe :


Bem falado, brahmin, nobremente colocado e excelentemente dito

Escolha o que queres – como pede teu coração, assim deixe tua escolha ser feita.


E o Bodhisatva, estabelecendo este dom,declarou a lei na estrofe conclusiva :


Ó Sakra, senhor de todo o mundo, uma escolha tu me pede para declarar :

Nenhuma criatura seja de nenhum modo ferida por mim, Ó Sakra, em qualquer lugar,

Nem no corpo nem na mente : este, Sakra, é meu pedido.


Assim o Grande Ser, em seis ocasiões fazendo escolha de dom, escolheu somente aquilo que pertencia à vida de Renúncia. Bem sabia ele que o corpo é doença e nem Sakra poderia afastar a doença dele ; nem cabe a Sakra limpar os seres vivos nos Três Portões ( do corpo, da fala e da mente : os três portões por onde entra o mal ) ; não obstante isto, ele fez sua escolha para que no fim declarasse a lei a ele. E Sakra fez aquela árvore dar frutos perenemente e saudando-o com um toque na cabeça com as mãos juntas, ele disse, “More aqui para sempre livre de doença,” e foi para sua própria residência. Mas o Bodhisatva, sem nunca quebrar seu ênstase, tornou-se destinado ao mundo de Brahma.

__________________


Esta lição terminada, o Mestre disse, “Este, Ananda, é o lugar onde morei em tempos anteriores,” e assim identificou o Jataka : “ Naquele tempo Anurudha era Sakra, e eu mesmo era Kanha, o sábio.”

sábado, 28 de janeiro de 2012

[ n. do tr. : Agni, liturgia ]

Agni , liturgia.


O prodígio do lago Albano assumiu um lugar importante na historiografia contemporânea : Georges Dumézil, historiador francês da segunda metade do século XX junto com outros historiadores, consegue identificar nos seus livros semelhanças no conteúdo entre histórias romanas contadas por Tito Lívio, Plutarco e outros, e a mitologia hindu – a história de Tulio Hostílio por exemplo repetiria a de Indra / Sakra, em seus aspectos guerreiros. A comparação acontece também com os mitos nórdicos da Edda de Snorri Sturluson de Loki, Odin, Thor, as Nornas, Balder etc. A ideia que passa é de que a antiguidade não era isolada mas as culturas se comunicavam, formando uma unidade espiritual, entre ocidente e oriente mesmo. O tema que se repete na comparação é o das três funções : o governo, intelecto, primeira função ; a guerra e o valor, a segunda função ; a economia e as riquezas a terceira função. Assim a tríade capitolina seria Júpiter, Marte e Quirino, sendo este último, o nome que Rômulo assumiu depois que tendo morrido, ressuscitou do lado de fora de Roma. Na realidade a forma das três funções repete-se de diversos modos. Entre os hindus se refere à ideia de um átomo original que teria estas três tendências ( dentro de um círculo ) respectivamente Sattwa, Rajas e Tamas que é o átomo dos elementos mesmos, fogo luz/ calor, vento ar, terra água que são portanto diferentes tendências da matéria e da Vida mesma aplicando-se também à organização social com cada raça, casta, classe, sendo um elemento, tendência : a 'Política' ou 'República' de Plato deixa claro em X livros o tamanho da aplicação desta tradição e claramente aproxima Oriente e Ocidente. A história do prodígio do lago Albano tem um similar em uma versão irlandesa e em outra iraniana. Vejamos o prodígio descrito por Plutarco em sua vida de Camilo, general que foi eleito dictador para comandar os exércitos por cinco vezes ( ninguém o foi tantas vezes ) ao redor dos anos 360 a.C.. Os romanos lutam então contra os etruscos ( povo de origem diferente, quiça atlante ) que possuem o maior templo de Hera da região um templo muito rico. Vão vencer e levar a estátua da deusa para Roma em triunfo mas acabam por perder a luta contra os celtas, caldeus, galos, que invadem Roma nesta época. Segue Plutarco :


III. Neste momento, quando a guerra estava em sua maior força, coincidiu o sucedido no Lago Albano, prodígio não menos digno de saber-se que qualquer outro dos incríveis como ele e que causaram grande terror por falta de uma razão geral e de poder o discurso designar-lhe uma origem física. No começo do outono e o verão que concluia não havia sido de águas nem, que se soubesse, havia vigorado ventos úmidos que se fizeram tempestuosos ; portanto tendo a Itália muitos lagos, rios e arroios, estes faltavam inteiramente, aqueles apenas com grande dificuldade se sustinham e todos os rios como acontece sempre no verão, corriam escassos e apoucados. Pois o Lago Albano, que em si mesmo tem seu princípio e seu fim, circundado de montanhas férteis, sem causa alguma, como não fosse divina, se via manifestamente que havia crescido e ia inchando-se, superando as bordas dos montes e chegando a igualar os lados que tinha ao redor, com mansidão e sem ser agitado com ondas. Ao princípio só foi prodígio para pastores e vaqueiros ; porém quando logo, levantada a corrente, como se rompesse um istmo, rompeu, por sua quantidade e por seu peso, os bordos que continham o lago, e desceu em grandes quantidades, caudais, pelos campos e arboredos até o mar, então não somente deixou assombrados aos romanos, mas fez entender a todos que habitavam a Itália, que não podia ser coisa pouca o quê anunciava. Fala-se, também, muito deste incidente no exército que sitiava a Veyos, de modo que ainda entre os sitiados se teve a notícia dele.


IV. Como é comum em todo cerco que se prolonga demasiado, que há trato e comunicação frequente entre os inimigos, sucedeu também neste. Um romano travou conversa e amizade com um inimigo, homem versado em linguagem antiga, e que se cria tinha um particular conhecimento de adivinhação. Como visse, pois, a este, logo que lhe referiu a inundação do lago, mostrar-se muito contente e rir-se do cerco : “Pois não é só isto – lhe disse – mas este tempo traz outros prodígios e outros sinais mais estranhos para os romanos, sobre os quais queria consultar-lhe para saber se naquela comum aflição podia haver algum meio de proteger sua segurança pessoal.” Escutava-lhe o vidente com atenção e se prestava com prazer à consulta, como que iam a descubrir alguns arcanos e logo neste colóquio, atraindo-o o romano cautelosamente, quando estavam a bastante distância das portas, lhe pegou no ar, porque era de maior força e vindo em seu auxílio alguns do acampamento, se apoderou completamente dele e o apresentou aos generais. Quando se viu o vidente naquela situação, convencido que não é dado ao homem evitar seu fado, revelou os arcanos relativos a sua pátria, a qual não podia ser tomada enquanto o Lago Albano, que havia se derramado e difundido por outros caminhos, não o fizessem retroceder os inimigos e o impedisse de misturar-se com o mar. O Senado tendo escutado isto e em dúvida do que faria, pareceu o melhor a fazer enviar um mensageiro a Delphos para consultar ao deus ; e foram Coso Licinio, Valerio Potito e Fabio Ambusto, varões muito ilustres e principais, os quais, feita a navegação e a consulta ao deus, trouxeram vaticínio também sobre a omissão de ritos das férias latinas. E prevenia que enquanto fosse possível fizessem voltar as águas para cima do lago Albano ao seu receptáculo antigo e se isto não pudesse ser com valetas e escavações a derramassem e perdessem por todo o país. Notificada esta mensagem, os sacerdotes se dedicaram aos sacrifícios e o povo, a executar as obras com que deram àguas outro curso.


V. O Senado para o décimo ano desta guerra, revogou, ab-rogou, todas as demais magistraturas e nomeou Camilo ditador, que elegeu para mestre da cavalaria Cornelio Scipião. Começou fazendo preces e votos aos deuses que se tivesse glorioso fim a guerra, faria grande jogos e consagraria um templo à deusa, a quem chamavam mãe Matuta ( personificação d'Aurora e por consequencia do nascimento ) os romanos. Pode-se pensar que esta é a mesma que Leucotoe, pela espécie de ritos que no culto se praticam ; porque introduzido uma escrava ao santuário, lhe dão bofetadas e depois a lançam fora ; aos filhos dos irmãos se põe no colo ao invés dos próprios e se executa coisas muito parecidas as nutrizes de Baco e aos erros e trabalhos que por causa da concubina ( Sêmele mãe de Baco filho de Júpiter ) sofreu Ino ( tia de Baco que cuidou dele um tempo até Juno descobrir e perseguí-la e à família de Orcômeno cidade próxima de Tebas cidade de Sêmele – Netuno salva Ino e a transforma em Leucotoe e seu filho em Palemon ). Feitas as preces, invadiu Camilo o país dos faliscos e a estes e aos capenates que vieram em seu auxílio, os derrotou em grande batalha. Voltou logo atenção ao cerco de Veyes e considerando que assaltar os muros era obra larga e difícil, colocou minas, cedendo o terreno das imediações da cidade com a enxada e permitindo levar fundo o trabalho sem que os inimigos percebessem. Alentada com isto a esperança, começou ele mesmo a assaltar pela parte de fora para atrair os cidadãos da muralha e outros, caminhando ocultamente pelas minas, chegaram , sem ser percebidos, até estar dentro da fortaleza, junto ao templo de Juno, que era o maior em tamanho e em veneração na cidade. Diz-se que nesta ocasião estava ali o caudilho dos tirrenos, etruscos, celebrando certo sacrifício e que o agoreiro, ao registrar as entranhas, gritou dizendo :”Deus dá a vitória a quem terminar este sacrifício” ; o qual tendo sido escutado pelos romanos nas minas, romperam prontamente o pavimento e pegando as armas com estrépito e gritaria, assombrados os inimigos, fugiram e eles então apoderando-se das entranhas, correram com elas até Camilo ; porém isto quiça tem o ar de fábula. Tomada a cidade a viva força e encontrando e recolhendo nela, os romanos, uma imensa riqueza, ao ver Camilo desde a fortaleza o quê se passava, no começo ficou parado e chorou ; depois, como o felicitava todos pelo sucesso, levantando as mãos aos deuses e fazendo rezas disse : “Jove Máximo e vós outros deuses, sois testemunhas das boas e das más obras, bem sabeis que não contra a justiça mas em legítima defesa, nos apoderamos da cidade, de homens insolentes e iníquos : mas se acaso somos devedores de alguma pena, peço que pela cidade e exército romano venha esta a parar sobre mim como menor dano possível.” Com isto, girando sobre a direita, como é costume entre os romanos em suas rezas, tropeçou no mesmo ato e como os que estavam em volta se sobressaltaram, refazendo-se prontamente da queda disse : “Segundo minha súplica aconteceu uma queda pequena em troca de uma felicidades tão extraordinária.”


VI. Saqueada que foi a cidade, determinou transferir para Roma a imagem de Juno, conforme o voto que ele fez ; e reunindo para isto muitos operários entre tanto ele fazia um sacrifício e pedia à deusa que escutasse seus desejos e fosse benigna companheira dos deuses que sua boa sorte havia dado à Roma, dizem que então a estátua falou e disse que era muito sua vontade e sua aprovação. Livio, contudo, refere que é certo que é certo que Camilo, aproximando-se da deusa, fez a ela aquela súplica e exortação porém que foram os que estavam ao redor que responderam que queriam, vinham a ele e seguiam sua vontade. Aos que sustem e patrocinam este prodígio lhes serve de grande defesa o incomparável destino de Roma, que não se concebe como de tão pequenos e humildes princípios, havia chegado e tanta glória e poder sem o amparo contínuo e frequente aparição de Deus. Também fazem com o mesmo propósito muitas coisas que se contam com o mesmo teor, como haver suado muitas vezes algumas estátuas ; que se as ouviram respirar ; que recussaram algumas coisas e consentiram em outras, aonde muitos antigos deixaram diferentes testemunhos ; e em nosso tempo ouvimos também muitos outros sucessos admiráveis, que não se pode olhar com desdem facilmente. Porém tanto o dar demasiado crédito a estas coisas, como o negar-las totalmente, pode ser perigoso, pela humana fraqueza que não sabe onde chega, nem pode dominar-se a si mesma, mas ou cae na superstição e vã confiança, ou esquece absolutamente e menospreza os deuses ; assim o melhor é ir com atenção e evitar os extremos.



Nas histórias iranianas e irlandesas temos o mesmo lago com uma energia dentro dele, como um fogo, que é concedido apenas a quem está habilitado a recebê-lo, é o fogo da soberania. Gente não credenciada tenta pegar este fogo n'água mas não conseguem pois ele escapa ferindo o desqualificado. As águas transbordam dando origem aos rios e voltam para o mesmo lago sacro. A semelhança com o mito romano está estabelecida em Mythe et Epopée de Georges Dumézil que contudo esquece o texto do Mahabharata que reproduziremos a seguir e da busca de Agni. Os deuses buscam Agni para gerar um filho que derrote um demônio pois os deuses não podem gerar devido a uma maldição.


Mahabharata Anusasana parva seção LXXXV


'Os Deuses disseram, 'O Asura chamado Taraka que recebeu dons de ti, ó potente, está afligindo os deuses e os Rishis. Que a morte dele seja ordenada por ti, Ó Avô, grande é nosso temor dele. Ó ilustre, nos resgate. Não temos outro refúgio que ti.'

Brahman disse, 'Sou igual em meu comportamento em relação a todas as criaturas. Não posso, contudo, aprovar injustiça. Que Taraka, este oponente dos deuses e Rishis, seja rapidamente destruído. Os Vedas e os deveres eternos não serão destruídos, vocês primeiros dos celestiais ! Ordeno o que é devido neste assunto. Que a febre de teus corações seja retirada.'

Os deuses disseram, 'Em consequênciade você ter dado a eles dons, este filho de Diti está orgulhoso de seus poderes. Ele é incapaz de ser morto, pelos deuses. Como então sua morte acontecerá ? O dom que, Ó Avô, ele obteve de ti e que ele não será morto pelos deuses ou Asuras ou Rakshasas. Os deuses também foram amaldiçoados pela esposa de Rudra (Shiva) (Parvati, Uma) em consequência da tentativa deles em dias anteriores de parar a procriação. A maldição dela é, Ó senhor do universo, esta mesma, qual seja, que eles não terão filhos.' ( Os deuses pedem ao casal Parvati/Shiva que não procriem, Shiva aceita e Parvati fica irada e lança esta maldição contra os deuses ).

Brahman disse, 'Ó primeiros dos deuses, Agni não estava lá naquele dia que a maldição foi lançada pela deusa. Ele mesmo gerará um filho para a destruição dos inimigos dos deuses. Transcendendo todos os deuses, Danavas, Rakshasas, seres humanos, Gandharvas, Nagas e criaturas com penas, o filho de Agni com seu dardo, que nas mãos dele será arma incapaz de ser baldada uma vez atirada no inimigo, destruirá Taraka a quem vocês temem. Verdadeiramente, todos os outros inimigos de vocês serão também mortos por ele. Vontade é eterna. Esta Vontade é conhecida pelo nome de Kama ( desejo ) e é idêntica a semente de Rudra ( Shiva ) uma porção da qual, dentro da forma de fogo de Agni. Esta energia, que é uma substância poderosa, e que parece outro Agni, será atirado por Agni dentro de Ganga ( o rio ) para produzir uma criança nela com o intuito de causar a destruição dos inimigos dos deuses. Agni não estava dentro do alcance da maldição de Uma. O que se alimenta de libações sacrificais não estava presente lá quando amaldição foi lançada. Que a deidade do fogo, portanto seja buscada. Que ele seja encarregado desta tarefa. A vocês, impecáveis, relatei os meios para a destruição de Taraka. As maldições daqueles que estão dotados de energia falha em produzir qualquer efeito naqueles que estão dotados de energia. Forças, quando entram em contato com algo dotado de força mais forte, tornam-se fracas. Aqueles que são dotados com penitências são competentes para destruir mesmo os deuses doadores de dons que são indestrutíveis. Vontade, ou semelhante, ou Desejo (que é identificável com Agni ) surgiu em tempos anteriores e é a mais eterna de todas as criaturas. Agni é o Senhor do universo. Ele é incapaz de ser apreendido ou descrito. Capaz de estar em todo lugar e de existir em todas as coisas, ele é o Criador de todos os seres. Ele vive nos corações de todas as criaturas. Dotado com grande potência, Ele é mais antigo que Rudra mesmo. Que este que se alimenta de libações sacrificais, que é uma massa de energia, seja procurado por vocês. Esta deidade ilustre realizará o desejo dos corações de vocês.' Escutando estas palavras do Avô, os deuses elevados passaram a procurar o deus do fogo com os corações alegres em consequência do propósito deles ter sido alcançado. Os deuses e os Rishis então buscaram em todo lugar dos três mundos, seus corações cheios com o pensamento de Agni e ansiosamente desejosos de verem-no. Dotados de penitência, possuidores de prosperidade, celebrados em todos os mundos, eles elevados, todos coroados com sucesso ascético, viajaram por toda parte do universo, Ó primeiro da raça de Bhrigu. Eles falharam, contudo, em encontrar aquele que se alimenta de libações sacrificais que escondeu-se submergindo-se dentro de si mesmo ( i.e., dentro d'água, pois água é idêntica a Agni ; como diz o próprio Dumézil 'a força ígnea que ordinariamente esconde-se nas águas, se manifesta tanto de repente no raio que sai das nuvens, como pela chama que sai da lenha que àgua nutriu' , sendo as águas de cima as nuvens e as águas de baixo os rios ). Neste momento um sapo que vivia n'água apareceu na superfície vindo das regiões mais profundas, com coração triste por ter sido queimado pela energia de Agni. A pequena criatura dirigiu-se aos deuses que tomaram-se de temor e que estavam, todos, ansiosos de ver a deidade do fogo, dizendo, 'Ó deuses, Agni agora está residindo nas regiões mais profundas. Queimado pela energia deste deus, e incapaz de suportar mais, vim para cá para cima. O ilustre portador das libaçoes sacrificais, Ó deuses, está agora debaixo das águas. Ele criou uma massa d'águas dentro da qual ele está. Todos nós fomos queimados pela energia dele. Se vocês desejam vê-lo – verdadeiramente se têm algum negócio para tratar com ele – vão até ele lá. Vão logo lá. Quanto a nós mesmos, fugiremos deste lugar, ó deuses, com medo de Agni.' Tendo dito tudo isto, o sapo mergulhou n'água. O quê se alimenta de libações sacrificais soube da traição do sapo. “ ( Agni então amaldiçoa o sapo e foge para outro lugar. Os deuses compensam a maldição dando aos sapos vários outros dons. O mesmo acontece com o elefante que diz aos deuses que continuaram na busca : 'Agni agora reside dentro desta árvore Aswattha'. Agni amaldiçoa os elefantes e vai esconder-se em outro lugar. Os deuses compensam a maldição dando dons aos elefantes. O papagaio então diz onde Agni está : no coração da árvore Sami, de onde vem os gravetos que fazem o fogo. E o papagaio também é amaldiçoado e recebe dons para compensar. Todas as maldições referem à língua e a capacidade de sentir gosto enquanto os dons e bençãos referem-se a capacidade desta mesma língua de emitir sons. ) “Vendo a deidade do fogo no coração da árvore Sami, os deuses fizeram da madeira Sami um combustível sagrado próprio para produzir fogo em todos os ritos religiosos. Foi a partir deste momento que o fogo passou a residir no cerne da árvore Sami ( é uma árvore inflamável ao esfregar-se dois gravetos dela ). As águas que ocorrem nas regiões mais inferiores entraram em contato com a deidade das chamas flamejantes. Estas águas aquecidas, ó tu da raça de Bhrigu, transbordam jorrradas pela montanha. Em consequência realmente de Agni ter residido nelas por algum tempo, ficaram quentes com sua energia. Enquanto isto, Agni, vendo os deuses, ficou chateado. Dirigindo-se a eles, perguntou, 'Qual a razão de vocês estarem aqui ?' Para ele os deuses e os grandes Rishis disseram, 'Desejamos te dar uma tarefa importante. Cabe a ti realizá-la. Quando realizada te dará grande crédito.' “ ( Os deuses então contam a história toda de Taraka e da necessidade dele, Agni, engravidar Ganga, o rio Ganges, de modo que o filho deles salve o mundo. Agni diz 'amém', assim seja, e aceitada a tarefa, que acontece depois de uma geração difícil pois Kartikeya, o filho gerado é pesado e Ganga não suportando-o, expele o feto que cresce daí em diante no ventre da terra mesma, daí aproximando o fogo do ouro, imagem do mesmo Agni e da riqueza ).




A ideia da busca, procura, aparece nas duas histórias, sendo que na hindu, o objeto da pesquisa muda de lugar e se esconde qual o Pequeno Polegar dos Grimm ( o fato deste último nascer do desejo, da vontade de um casal ao pé do fogo que o trocam por muito dinheiro, que os ladrões que o encontram querem também retirar da casa do bispo da cidade, parece que quer repetir a mesma ideia, fim, finalidade das histórias em questão : nosso pequeno herói acaba no estômago de uma vaca que é inteiro engulido por um lobo ).

A imagem dos romanos cavando seja para fazer àgua penetrar na terra seja para minar a fortaleza inimiga une a história romana e dá continuidade a imagem da busca. O ouro, a riqueza, surge no final nas duas versões. Mas a glória e a vitória na guerra somam-se a este sentido material. Mais ainda, é a deusa mesma Juno que se manifesta ativamente através de uma estátua unindo a vontade dela à humana conforme explícito no texto. Agni também é um deus que se manifesta. Os votos a Apolo de Delphos, o dízimo do ouro saqueado no triunfo ( segundo Tito Lívio ), e à Juno, de grandes jogos e de levá-la para Roma ( a própria imagem que acena com a cabeça que queria ir ) fazem da liturgia ( λαος εργον laos-ergon, obra pública ) o fogo escondido, Agni ( notar que agni em latim é cordeiro ).

A deusa representada na estátua, existente na estátua também busca, caça, persegue, os filhos Júpiter ( Ju-piter, Diu-pater ) e suas mães amantes do marido com ciúme ( zelo em grego ) : Io ( sacerdotisa de Juno foi amada por Júpiter e transformada em vaca branca para protegê-la da esposa com trono celeste que encarregou Argos de cem olhos de vigiá-la : Mercúrio mata o monstro fazendo-o dormir com a flauta frígia mas Juno envia uma mosca que persegue sua sacerdotisa que passa a vagar pelo mundo ), Latona ( mãe de Apolo e de Diana que amada por Júpiter e perseguida por Juno não conseguia um lugar onde parir seus filhos ), Calisto ( transformada em Ursa, constelação, para fugir da perseguição de Juno ), Alcmena ( mãe de Hércules, que também perseguido recebe os 12 trabalhos como penitência, tarefa, castigo ), Sêmele ( mãe de Baco, que também é perseguido, enganada por Juno acaba morrendo mas o filho a resgata dos ínferos ), Ceres ( mãe de Iaco com Júpiter, que teria acompanhado a mãe na busca pela filha, Prosérpina, Perséfone, também filha de Júpiter raptada por Hades ). Ovído nas Metamorfoses ( livro IV ) mostra justamente Juno descendo até o Hades e pedindo às Fúrias ( Alecto, Megera e Tisifonte ) que castiguem Ino, esposa de Atamante, que cuidava, nutria, Baco na Beócia : é a cena que vemos no nosso texto em que a empregada é introduzida no templo e perseguida.

Nas religiões de mistérios a liturgia é uma repetição cênica do passado : deixemos a palavra com Odo Casel : “é uma ação sagrada e cultual na qual uma obra redentora do passado torna-se presente sob um rito determinado ; a comunidade cultual, realizando este rito sagrado, entra em participação do fato redentor evocado e adquire assim sua própria salvação.” Ou “é a participação em uma ação divinizante de um deus, reproduzida diante e pelos iniciados em uma ação drama´tica em um jogo sagrado litúrgico ; é a representação cênica de uma ação salvífica diante, pelos e para os iniciados.” (pg. 15s). No nosso caso temos a ascenção de Sêmele dos ínferos e de Perséfone sendo várias as Nekyas, descida aos ínferos dentro da mitologia e retorno ao céu ou à terra mesma. É como uma ressurreição como a descrita no nosso Credo : “...Desceu a mansão dos mortos. Ressuscitou ao terceiro dia. Subiu aos céus. ... “ O cristianismo herda a religião de mistérios da antiguidade conforme o grande mistagogo citado prova, demonstra em sua obra.

O pecado todo de Furio Camilo aparecerá em seguida quando ele esquece de pagar o dízimo a Apolo que prometera, votara e com isto será expulso de Roma : ele mesmo como que ritualmente no Forum confessa a dívida, como se o ato de confessar já tivesse nesta época seu valor cristão perene. Aparece também na fala mesma do grande romano quando diz “se acaso somos devedores de alguma pena” e sofre uma pequeno tombo. Já na história de Agni vemos os bichos, os animais pagarem pela língua.

Quanto à morte do rei sagrado ritual que ocorreria no Lago Albano ( citação de Frazer, por Liberati, Bruno ), Graves, Robert, explica (p.126) : “Que a Roda ( da Fortuna ) é originalmente o ano solar está sugerido pelo seu nome em latim, Fortuna ( de 'vortumna' 'aquela que faz o ano girar' ). Quando a roda girou meio ciclo, o rei sagrado, elevado ao clímax de sua fortuna, está fadado a morrer – o cervo Acteon em sua coroa anuncia isto – mas quando chega o ciclo completo ele se vinga no rival que o suplantara.”

Acteon viu Artêmis, Diana, nua tomando banho e foi transformado e cervo e despedaçado pelos cães – como Dionisos também o foi, o próprio Júpiter, Penteu ( pentós é sofrimento em grego ) filho de Cadmo, e outros. O mito aqui é o da morte renascimento também que segue o ano litúrgico da cultura da antiguidade confundindo-se Hera com a Fortuna mesma cabendo ao ser humano escutar o que está escrito na porta de Delphos o centro espiritual por excelência da antiguidade : 'conhece a ti mesmo'.


Bibliografia :

Plutarco, Vidas Paralelas, Aguilar, Madrid

Tito Lívio, História de Roma, 2 vol., Paumape, São Paulo.

Georges Dumézil, Myth et Epopèe, Quarto, Gallimard, Paris.

Robert Graves, Greek Myths, Penguin, London.

D. Odo Casel, Le mystére du culte dans le christianisme, Cerf, Paris.

Ovídio, Metamorfoses, Ediouro, RJ.

---------, Fastos, Clássicos Jackson, RJ.

Mahabharata, trad. Kisari Mohan Ganguli, MMPublishers, New Delhi.